Enfermagem é a profissão que salva todas as profissões

O enfermeiro Rafael Zanini Barbato. Foto: Claudio Coradini/JP

Há mais de um ano atuando na linha de frente contra a covid-19, a maioria dos profissionais da área da Saúde está esgotada. Essa exaustão não é resultado só da proximidade com o elevado número de casos e mortes de pacientes, colegas de profissão e familiares, mas também das alterações significativas que a pandemia vem provocando em seu bem-estar pessoal e vida profissional. De acordo com os resultados da pesquisa Condições de Trabalho dos Profissionais de Saúde no Contexto da Covid-19, realizada pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em todo o território nacional, a pandemia alterou de modo significativo a vida de 95% desses trabalhadores. Os dados revelam, ainda, que quase 50% admitiram excesso de trabalho ao longo desta crise mundial de saúde, com jornadas para além das 40 horas semanais.

O enfermeiro Rafael Zanini Barbato, integra esse grupo de profissionais que há mais de um ano atua no enfrentamento da covid-19. Ele admite o cansaço dele e da equipe que coordena no HFC (Hospital dos Fornecedores de Cana) de Piracicaba, mas destaca a resiliência e dedicação dos profissionais ao trabalho.

Nascido em Santa Fé do Sul, o filho do casal Maria do Carmo Zanini Barbato e Santim Barbato é especialista em Emergência e UTI (Unidade de Terapia Intensiva), membro da Sociedade Brasileira de Classificadores de Risco Manchester, habilitado no Suporte Avançado de vida ACLS e atualmente é o responsável técnico pela Emergência do HFC.

Rafael é formado pela universidade Unifunec – Centro Universitário de Santa Fé do Sul – ele iniciou a carreira como enfermeiro assistente em uma unidade de pronto atendimento na cidade de Americana, onde desempenhou atividades de gestão e desenvolvimento de pessoas, sendo promovido para o cargo de coordenação de toda unidade de Emergência.

Ao longo da carreira, ele conta que vem aperfeiçoando as técnicas de gestão e também o manejo com o processo de avaliação e acreditação hospitalar.

Em janeiro de 2020 recebeu o convite para ingressar no time de gestores do HFC e aceitei o desafio para contribuir com a evolução e melhoria da instituição, atuando no departamento de emergência. Nas horas vagas, Rafael disse que gosta de assistir séries e de pedalar. Nessa entrevista ao Persona, ele fala sobre o desafio diário de coordenar uma equipe que atua na linha da frente na Guerra contra a covid-19.

Qual a função do senhor no Hospital dos Fornecedores de Cana de Piracicaba?
Coordenador de Enfermagem Emergência.

Desde o início da pandemia de covid-19, o que mudou na rotina do setor de emergência do Hospital dos Fornecedores de Cana?
Quando recebi o convite para assumir a emergência do hospital, em janeiro de 2020, a pandemia ainda não havia chegado em nossa cidade, 30 dias após tudo começou, a partir de então toda equipe do hospital teve que se reinventar tanto nas boas práticas quanto nos fluxos de atendimentos. Em parceria com gerência assistencial e equipe multidisciplinar tivemos que adaptar toda nossa rotina para atender esses pacientes com covid. Mudamos o setor de emergências ortopédicas para outro local e criamos um PA respiratório para atendimento exclusivo dessas patologias, bem como a criação de um projeto junto a metodologia Lean que visa a organização de fluxos, processos, sustentabilidade financeira e segurança do paciente. Realizamos capacitação de toda equipe no manejo do covid (intubação, tratamento medicamentoso, paramentação etc). Realizamos escalas de atividades a fim de direcionar melhor os colaboradores e também um melhor acolhimento da equipe junto aos familiares nos casos graves de covid, com ligações em vídeo chamada, a fim de proporcionar ao paciente um acolhimento mais humanizado. Porque além de tratar essas patologias da covid-19, nossa emergência não para com as demandas providas do SUS. Já são dois anos praticamente que estamos trabalhando incansavelmente pra poder prestar um melhor atendimento a quem precisa.

Quantos profissionais estão envolvidos diariamente no enfrentamento da doença no HFC?
Diretamente aproximadamente 250 profissionais por dia nesse enfrentamento (UTI, PA, enfermaria)

Como o senhor avalia a dedicação desses profissionais no dia a dia?
A capacidade de resiliência que cada um tem me impressiona a cada dia, porque vejo que todos executam suas atribuições com amor a profissão mesmo estando nos seus limites físico e emocional, é um dia após o outro.

Do total de casos que dão entrada no setor, qual percentual é de diagnóstico de covid-19?
No mês de abril foram aproximadamente 20% do total de atendimentos pacientes com covid-19 e/ou suspeita que deram entrada no PA, além dos pacientes internados em UTI e enfermaria direcionados pela central de vagas SUS.

Como foi a preparação do setor para o recebimento e tratamento desses pacientes?
Realocamos a nossa ortopedia para o centro médico e criamos um PA respiratório para pacientes com síndromes gripais.

Como responsável pelo setor de emergência, como o senhor administra a ansiedade dos profissionais, pacientes e familiares neste momento da pandemia?
No tratamento dos colaboradores procuramos sempre realizar o acolhimento deles em suas solicitações e ânsias bem como o apoio psicológico quando necessário, ações de motivação, ações lúdicas para deixar o ambiente mais descontraído, reconhecimento financeiro em uma ajuda de 10% no valor do salário nesse período de enfrentamento a pandemia. Quanto aos pacientes realizamos acolhimento aos familiares junto à equipe de ouvidoria e serviço social com ligações de vídeos chamadas para proporcionar um melhor conforto e humanização aos pacientes.

No comparativo com um ano atrás, quando a pandemia estava no início, como o senhor avalia o conhecimento e a forma de tratamento da doença, tanto pelo governo, como pelos profissionais envolvidos na rotina?
O cenário que vivemos o ano passado com esse ano está totalmente diferente, falando da doença propriamente dita, enfrentamos hoje uma doença muito mais contagiosa e grave. Percebo que os pacientes retornam com maior frequência e na condição grave da doença, necessitando de manobras mais invasivas e que antes acometia pessoas mais idosas e com comorbidades, hoje não existe essa regra. O manejo frente o cuidado foi se aperfeiçoando sendo uniforme o tratamento em todas as esferas do hospital. Quanto a responsabilidade pública, a nossa única saída é a imunização da população, visto que é muito raro agora recebermos pacientes acima de 80 anos na fase grave da doença e os que veem a recuperação é notável. Precisamos de vacina.

O senhor acredita que o aumento do número de casos e de mortes tenha exigido mais celeridade no tratamento?
A população fica muito confusa com as inúmeras informações e fake news frente tratamentos precoces, até mesmo se auto medicando e quando chegam na emergência já possuem uma gravidade maior da doença, tendo que ficar hospitalizados e muito deles entubados, as variantes da covid são muito mais contagiosas e inflamatórias.

Os hospitais estavam preparados para este enfrentamento?
No início do ano passado, ao identificarmos o primeiro caso de covid no hospital, já iniciamos ações de controle e manejo dessa doença em parceria com a SCIH , juntamente com o departamento de logística no uso de EPIS e insumos farmacêuticos, criamos um comitê com pessoas estratégicas que analisam diariamente os riscos e colocam em prática os planos ,”A , B , C “.

A vacina chegou com um peso importante no enfrentamento da covid-19. Com a imunização dos profissionais de saúde, a categoria está mais segura para lidar com a doença?
Percebo que os colaboradores ficaram mais seguros, no entanto isso pode ser também um problema. Porque ao se sentir seguro eles podem afrouxar as barreiras de prevenção. A vacina não inibe o colaborador de pegar a doença, mais sim o fato de ela não ser grave. Por isso, as medidas de cuidado devem sempre ser mantidas independentemente de estarem vacinados ou não.

Enquanto profissional de saúde, vendo diariamente doentes e mortos, qual aprendizado a covid-19 deixa para a saúde? O senhor acredita que a relação dos profissionais com pacientes e com a sociedade em geral deva mudar após esse evento?
Sem dúvida. Existirá um mundo antes e após essa pandemia, só quem vivência essas mortes, esses sofrimentos sabe o quanto é difícil lidar com essas emoções. Saber lidar com essas compaixões pode deixar o funcionário triste e muitas vezes fazê-lo repensar nos valores de sua vida e até mesmo mudar de profissão. Hoje vivo um dia de cada vez , procuro oferecer o melhor de mim à minha equipe e aos meus pacientes. Nossa vida é um suspiro, então sobreviva. Ame mais, respeite mais, pratique a empatia. Afinal a enfermagem é a profissão que salva todas as profissões.

Beto Silva

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