“Espaços mortos” no Engenho

Foto: Amanda Vieira/JP

Foi aos meus oito anos de idade que me tornei consulente da gloriosa Biblioteca Municipal de Piracicaba. Insisto no “gloriosa” por ter sido, a de Piracicaba, a biblioteca pioneira em todo interior de São Paulo, ainda em 1939. Era outro galardão na nossa singularidade cultural: cidade das escolas, da cultura, Atenas Paulista, o Ateneo.
Seu criador, Ricardo Ferraz de Arruda, instalou-a numa simples sala da Câmara Municipal. Passei a visitá-la quando ela se transferiu para os altos do antigo, saudoso e martirizado “Theatro Santo Estevam”. A derrubada desse teatro é apenas um dos outros tantos crimes cometidos contra a cultura e a história piracicabanas.
A biblioteca anunciava novas luzes. Nela, encontrávamos personalidades que nos instigavam à busca do conhecimento. Lá, descobríamos haver um mundo além das nossas casinhas humildes. Naquele lugar, vi e ouvi os grandes mestres de nossa cidade, conversando, educando. Lá conheci Leandro Guerrini, seu primeiro diretor, orientando-me a ler livros proibidos pelos padres salesianos.
De tais coisas, delas me lembro com tristeza, diante do alardeamento de levar a biblioteca para o Engenho Central. A justificativa da pretensão agride a inteligência. Pois, certamente formalizando o pensamento do Prefeito, o Secretário da Ação Cultural proclama literalmente: “a biblioteca e a pinacoteca são espaços mortos na cidade”. E acrescenta: “não há frequência”.
Ss. Sas proclamam o óbvio. Mas parecem não entendê-lo. Frequência não se trata, apenas, de presença física. Pois esta – a presença física – vai-se substituindo pela frequência e presença virtuais. Em teatros, em museus, em livrarias, em escolas, em faculdades. Nem por isso, são “espaços mortos”. Tornam-se espaços históricos, de memória. Livros continuam existindo gloriosamente. No entanto, não mais apenas em papel, mas virtualmente. Uma biblioteca, hoje, pode ser carregada num pequenino pendrive. Em falando nisso, qual a “frequência” dos senhores governantes a bibliotecas públicas?
Além de tristeza, exprimo meu indignado inconformismo. Pois, se “são espaços mortos “, por que, então, levá-los a um lugar mítico como é o Engenho Central? Querem transformá-lo em depósito de coisas mortas, em cemitério? “Tempus horribilis”.
Será altamente culpável se Ss.Sas. estiverem ignorando esse novo mundo. Ora, ignorância é imperfeição do conhecimento. É-nos absolutamente lícito ignorar o que ultrapassa os horizontes comuns. Trata-se da ignorância inculpável. No entanto, é lamentavelmente culpável ignorar aquilo que é necessário e possível. Como ignorar o desespero a que fomos levados? Como ignorar a nova era digital, a universalidade e a universidade da internet?
Todavia, esse despropósito histórico – fruto de mentalidades de mercado – não será consumado. Os delírios exigiriam absurdos, vultuosíssimos custos. E a iniciativa privada não costuma participar em aventuras do nada. Mesmo assim, tenho medo. Pois, nisso, vejo digitais do passado. O desrespeito destruiu o Hotel Central, nosso tesouro histórico. Em seu lugar, ergueram um banco e um estacionamento vertical. O sr. Prefeito conhece essa história.
A tais superficialidades, os franceses diriam ser “pour épater le bourgeoises” – para distrair os burgueses. Luciano Guidotti sabia fazê-lo quando a Prefeitura não tinha o que mostrar. Ele mandava pintar de branco as sarjetas da cidade. Era bonito, agradava e não prejudicava ninguém. Agora, porém, é preciso cuidar de gente. Sobreviver.

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