Especialista em animais exóticos e silvestres

Vilalta já atuou em diversas ONGs (organizações não governamentais), atendendo animais abandonados e em castração, na qual tem a opinião de que a conscientização das pessoas é mais importante até do que a castração. (Foto: Amanda Vieira/JP)

Gatos e cachorros são os animais de estimação mais comuns em lares de Piracicaba, provavelmente em todo o mundo ocidental. Foram domesticados há séculos e não raramente, aliás, cada vez mais são humanizados e as tantas lojas especializadas na cidade tornam a relação cada dia mais confortável e saudável.

Peixes e aves também não ficam atrás, mas ainda existem muitos outros animais que podem ser de estimação, virar um pet. É neste contexto de se afastar do tradicional e optar pela excentricidade (aos olhos do convencional) que cresce o número de tutores dos chamados animais silvestres e exóticos, cuja lista de espécies é enorme.

O mercado está numa crescente, como conta o médico veterinário Thiago Navarro Vilalta, piracicabano, especialista da área e há 15 anos proprietário da Exotic Pet Center, hoje na avenida Independência, 3748.

E este boom do interesse das pessoas por répteis, roedores ou aves diferentes, por exemplo, requer cuidados especiais, tanto ao tutor como aos especialistas, assim como amparo de leis, do avanço de estudos científicos e, principalmente, do entendimento daquele que tem interesse por um exótico, ou silvestre, que igualmente são bichos que nunca devem ser abandonados ou serem vitimas de maus tratos.

Répteis e mamíferos são os mais populares dentro do mundo dos animais exóticos que podem ser comercializados e criados dentro de casa.

E animais silvestres são os passarinhos, papagaios, corujas, jabutis, sapos, peixes, macacos, tamanduás, onças e tantos outros que vivem na natureza ou foram retirados da natureza a poucas gerações.

Vilalta já atuou em diversas ONGs (organizações não governamentais), atendendo animais abandonados e em castração, na qual tem a opinião de que a conscientização das pessoas é mais importante até do que a castração. O veterinário tem e já teve diversos animais exóticos, como iguana, gavião e cobra.

Já passou por diversos desafios, como consertar o casco de um cágado atropelado e educar um gambá domesticado, o reintegrando à vida selvagem. Já foi um dos palestrantes da 26ª Semev (Semana da Medicina Veterinária) da Unifenas (Universidade José do Rosário Vellano de Alfenas), em Minas Gerais, onde se formou médico veterinário, passando informações para quem deseja atuar com serpentes. Fez pós-graduação em São Paulo e Campinas.

Além de palestrante, dono da Exotic e, óbvio, médico veterinário por tempo integral, Vilalta foi diretor do Zoológico de Piracicaba até dezembro do ano passado, isto é, até o fim da gestão do ex-prefeito Barjas Negri, um período de boas recordações e conquistas, como conta – entre tantos outros assuntos – nesta entrevista da Arraso Persona.

Animais domésticos e exóticos, são os novos pets em expansão?

Cachorro e gato não perdem o lugar, continuam em primeiro e segundo lugar, mas os exóticos estão vindo com muita força, são cada vez mais procuradores para se tornarem pets. Coelhos e as calopsitas, principalmente.

Por que as pessoas buscam répteis e roedores, por exemplo, como pet?

Em primeiro pela excentricidade, por ser algo diferente do cão e do gato. Buscar novas experiências. Às vezes a pessoa vai procurar praticidade. Um animal na gaiola acaba ficando mais prático de cuidar. Muitos tem mais ação noturna, então o proprietário trabalha, chega e consegue brincar com o bichinho um pouco mais, mas eu acho que é praticamente isso, a praticidade e a exoticidade.

Como esse mercado (de exóticos) evoluiu no Brasil e no mundo?

Sou formado há quase 15 anos, há onze como especialista em selvagens, silvestres, exóticos. Antes tinha uma importação um pouco mais fácil, como a do furão, que teve um tempo curto, mas muito gente procurou. Hoje ainda procuram, mas é mais difícil de conseguir, pouquíssimas importadoras conseguem. As aves exóticas são as principais, como psitacídeos exóticos, cacatuas, calopsitas, Atualmente a mais famosa é a calopsita, assim como os agapornes, periquitos, periquito australiano, periquito inglês. A variedade de psitacídeos (que são aves de bico torto) é muito grande e a dificuldade no Brasil é você conseguir um animal legalizado a um preço justo, que não seja de tráfico. Infelizmente muitos acabam comprando um produto de tráfico, pela burocracia a menos para conseguir comprar um. E por isso mesmo tem pessoa que compra um importado do que um silvestre ou exótico brasileiro legalizado. Mas o País hoje tem criadores de aves exóticas, já facilita.

O que, de fato, é um exótico?

É tudo que é fauna fora do Brasil e, silvestres, tudo que é da fauna nativa do Brasil. Então, um papagaio é silvestre e uma calopsita é exótica. Um animal silvestre não pode ficar em cativeiro senão for legalizado, registrado, caso não tenha nascido no criadouro, e fruto de venda adequada e justa.

Sobre a área hoje, existem ainda demandas a serem atendidas, em algo técnico, laboratorial?

É funcionamento dos repteis e das aves é bem diferente do funcionamento de um cão ou gato, ou mesmo do cavalo ou boi. Tem um funcionamento muito além do que aprendemos na faculdade. Hoje até aprende porque tem a matéria silvestre, mas ainda superficial. Tem que buscar conhecimento fora, uma pós ou cursos profissionalizantes. Recentemente fiz uma especialização só sobre dente de coelho, uma casuística muito grande. Agora, devido à pandemia, mais cursos estão aparecendo.

Em Piracicaba quais sãos os exóticos mais comuns?

O que mais atendo é calopsita, hamster, porquinho da Índia e, ultimamente, o coelho anão. A aquisição do coelho cresceu bastante. E os mais especializados, que aparecem aqui, de Piracicaba e região, são os répteis e primatas.

O que é preciso ter, em termos de mentalidade e licenças, para se ter um pet exótico em casa?

Muitos que querem ter uma iguana ou uma cobra, 95%, são pessoas que nunca tiveram um jabuti, então não sabe como o réptil funciona. Oriento, converso, e deste índice, muitos desistem. O mais correto é ler a respeito ou procurar um profissional antes de comprar o animal. Converse com quem tenha.

Existe abandono de animais silvestres e exóticos? Chegam alguns até a Exótica para abrigar ou achar um novo lar?

Sim, e o problema dos exóticos é que eles não sobrevivem soltos. Uma calopsita, se for solta, ou escapar, certamente vai virar presa, não vai saber viver livre e isso gera um descontrole ambiental. O cágado norte-americano, por exemplo, é muito comum ver soltos em lagos e rios e o desequilíbrio é porque cruza com o cágado brasileiro e aparecem animais híbridos. O maior abandono são os cagados e jabutis. É comum que um cágado, que era de alguém da família e que morreu, passa para uma pessoa que não quer, e ela descarta. Vale destacar, inclusive, que nenhum zoológico consegue receber estes animais porque não tem mais espaço.

Qual a maior dificuldade para tratar de exóticos?

Não demonstra para a gente quando eles estão doentes. Por exemplo, se este animal mancar, ficar para trás, se ficar arrepiado ou com medo, os predadores os percebem. Ou seja, automaticamente estes animais viram alvo. E na casa do tutor é a mesma coisa. A pessoa demora para perceber que eles estão doentes. Diferente de um cachorro, que parou de comer no dia, no mesmo dia percebe que tem algo de errado. Os silvestres, às vezes, até mesmo doentes continuam comendo, continuam se esforçando para manter-se com vigor, enfim, para não se mostrar doente. Então existe esta dificuldade maior de identificar algo errado com estes animais.

E no caso de um réptil, como é trato médico para mexer com as espécies desta classe de animais?

Os répteis, e mesmo os silvestres, fazem parte de um mercado que cresce muito, com muito mais rações, medicamentos, gaiola, cama, casinha e petiscos. Ou seja, hoje temos uma variedade maior de todo este mercado pet silvestre e exótico. Mas tem novos equipamentos para mexer com eles. O réptil é o mais difícil deles, mas não o mais difícil de manter, porque e um animal que dorme conforme a temperatura, fica dias inerte, sem se mexer, então isso exige que os tutores tenham uma percepção muito boa. Muitos olham dentro do aquário, por exemplo, e acham que a iguana morreu, às vezes está ali morta há dias e levou dias para a pessoa perceber. Ou uma cobra, que come uma vez por mês, mas não é por isso que você só deve observá-la uma vez por mês. As pessoas que têm réptil acabam tendo problemas relacionados a isso, por não conhecer como o animal se comporta.

Para a pessoa que pensa em ter um pet, qual você aconselharia para ter em casa e qual para ter em apartamento?

Este mercado de silvestre e exótico tem crescido exatamente por isso, para se adaptar de acordo com o local onde moram. Pessoas estão morando em lugares menores e consideram que não tem espaço ou tempo para um cachorro, que exige mais atenção, precisa sair de um mesmo ambiente. Já uma calopsita vive bem dentro de um apartamento. Pode ser duas, três, cinco calopsitas, elas vivem bem dentro de um apartamento. Ou psitacídeos, que gostam da interatividade com humanos e também não precisam de muito espaço. Além dos coelhos, que cada vez ganham mais espaço como pet, porque não precisa sair para passear, não precisa colocar na coleira e descer do prédio ou sair de casa para fazer xixi, ele se viram ali na gaiola ou numa sacada.

Erick Tedesco
[email protected]

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