Esperancemos, pois!

Persisto na esperança. Em Deus e na vida. Deus e a vida se confundem? São ou não uma só coisa, cada qual carregando em si o outro. Deus, a vida. A vida, com sentido, só mesmo em Deus. Viver é, em si, um ato de esperança. Se houver sofreamento, coragem! Coragem e força. Quem oferece? Deus!

Persisto na espera, vivendo a expectativa do sentimento de quem vê possível a realização do que deseja. Fé. Repito: em Deus e na vida. Na vida, como tratei de bordar ao longo dos anos, junto aos meus, a milhares de alunos que tive, alguns deles desenvolvendo trabalho de que – ao lado deles ou por eles, sei lá? – me orgulho tanto.

O Capitão, comandante em Chefe das Forças Armadas, escolhe seu terceiro Ministro de Estado da Educação. Espero tenha sido boa a opção. Li, com cuidado, seu histórico e meu coração vibrou. Se faço, da péssima lembrança que me deixou o antecessor, redobro a expectativa, juntando ao sentimento, caridade e fé. Me entenderá o Ministro na recitação destas virtudes?Como resposta, por certo, fará melhor lustrando-me o espírito e deixando-me entrever bom senso, boa formação, diálogo, muito diálogo e boa educação. Já estará de boa medida. Ou não será tudo isso, tento para bom desempenho?

Se proceder assim, cumpre meio caminho para fazer melhor que o outro, indigesto em tudo, capaz, até mesmo, de trapacear entrada em país estrangeiro, vestindo fardão de ministro quando já não era.

Envergonha-me assistir a tudo isso. Serei por demais ingênuo, vendo manchar-se a reputação da pátria a que verdadeiramente amo, mergulhada que anda num sucedimento de falhas, diferentes edições de jornais oficiais fazendo, desfazendo, refazendo atos e tentando prosseguir como se de tudo isso, nada importasse. Os incômodos todos, maléficos tanto quanto a pandemia vivida, deixarão marcas irremovíveis, estou certo.

Prossigo alimentando esperanças.

Esperança, aqui, como ensinou Paulo Freire, do verbo esperançar. Junto ao que sonho, todos os demais sonhos e as gentes que como eu esperançam, numa mesma ciranda carregada de vibração positiva e boas energias permitindo sentir vicejar em mim um esperanceio danado. Esperanceio do verbo esperancear, que quero reflexivo.

Quando menino, na zona rural em que vivia, havia um senhor que vendia ovos. Como esperanceava! Vender ovos, vender requeijão. Viver muito. Falava alto destes desejos incontidos. Depois ria a mais não poder, tanto que se lhe avermelhava a pele. Ficava apoplético, mas sem fúria. Excesso de esperança.

Achava bonito o verbo, mas menino, não o supunha filho do vernáculo. Em Lisboa, um dia, almoçando ao lado de Antonio Houaiss descobri que esperancear-se não era coisa do vendedor de ovos, mas de quem encontrara no verbo a possibilidade de entender o que era jogar sobre si mesmo este desejo incontido de assistir a coisas positivas em favor do outro e – por que não? – de si.

Assim me sinto. Fico na expectativa da realização do sonho, da crença, de ver surgir a expectativa que nasce do que desejo e quero. Se erro no excesso de crença, desculpar-me-ei, depois. Agora, a hora é deixar brotar a esperança como se fora filho de Clarice Lispector gritando ter em casa uma esperança, indo, por isso, além do sonho permitindo que o inseto me acenda o desejo.

Venha comigo, leitor amigo! Sigamos juntos em busca da esperança. Atrás dela, pois, apesar da companhia que hoje temos. Ou do comando, sei lá? Não desistamos. Penso merecermos.