Estela Vaz, a ultramaratonista que mobilizou Piracicaba

A ultramaratonista Estela Vaz - Crédito foto: Claudinho Coradini

A ultramaratonista Estela Vaz, 46, ganhou destaque como a atleta que percorreu os 430 km da Ultramaratona de Badwater 267 Virtual Race Elite. Ela, que é natural de Taquarituba, completou todo o percurso pelas ruas de Piracicaba bem antes do limite oficial da prova, que era de 16 dias e 90 horas.  Ela completou a prova em 14 dias e com o tempo de 46 horas e seis minutos.

A atleta finalizou a ultramaratona na 11ª posição entre as 61 mulheres participantes que concluíram o trajeto e na 54ª colocação na classificação geral.

A participação numa prova de longa distância já seria o suficiente para ganhar a atenção, mas Estela decidiu reverter cada quilômetro percorrido em um quilo de alimento e assim, movimentou a cidade para conseguir atingir o seu objetivo, o de ajudar Fussp (Fundo Social de Solidariedade de Piracicaba). A meta inicial na arrecadação seria apenas o equivalente aos quilômetros percorridos na prova, 430, mas o montante foi bem superior e ultrapassou duas toneladas de alimentos, somadas aos 72 pacotes de fraldas descartáveis.

E é com essa mulher ultramaratonista, determinada, mãe e esposa, que o Persona dedica a entrevista deste final de semana:

Como se deu a sua vinda para Piracicaba?

Eu sou natural de Taquarituba, município próximo à Avaré. A minha família mudou-se para São Paulo quando eu tinha quatro anos. Em Piracicaba, estou desde 2010, para trabalhar na Justiça Eleitoral, na 270ª Zona Eleitoral.

Quando surgiu a paixão pelas corridas de rua e o seu engajamento com as provas de longa distância?

Essa história teve início no ano de 2011, a convite de duas amigas. Pouco depois, passei a treinar e a paixão pelas corridas de rua veio logo em seguida. Com o tempo, percebi que a minha performance nos treinos e nas provas era melhor nas corridas de longa distância e tudo mudou quando participei da UAI (Ultramaratona dos Anjos Internacional em Minas Gerais), no ano de 2016. O resultado foi excelente para a primeira participação numa corrida desta natureza e terminei na terceira posição após 95 km percorridos.

Na edição da Badwater 267 Virtual Race Elite você terminou na 11ª posição entre as 61 mulheres que finalizaram a prova. Qual a avaliação de seu desempenho, levando em conta que terminou a prova bem antes do limite oficial?

A estratégia foi calcular uma boa média de quilômetros a serem percorridos por dia. O plano não era especificamente terminar a prova dois dias antes, mas sim, deixar um tempo suficiente para corrigir algum imprevisto, o que felizmente, não ocorreu.

Os percursos diários eram percorridos sempre pela manhã e ao final da tarde. Com isso, consegui evitar lesões e senti poucas dores, que foram sanadas a tempo para prosseguir na jornada do dia seguinte. Essa estratégia demonstrou-se eficaz e fiquei satisfeita com o resultado.

Como foi a sua performance em 2019, quando disputou a Ultramaratona de Badwater, percorrida pelo Deserto do Vale da Morte, na Califórnia, nos Estados Unidos?

Na edição presencial da Ultramaratona de Badwater, fiz o percurso de 217 km com o tempo de 39 horas e 18 minutos, fechando a minha participação na 10ª posição entre as mulheres e na 49ª colocação na classificação geral.

Em seu currículo, você tem participações em provas no Brasil, nos Estados Unidos, Alemanha, Uruguai e na Argentina. Como se prepara para tudo isso?

Os treinamentos são orientados por profissionais, visando cada prova específica. Esse é o segredo para se correr bem em qualquer lugar, no clima e nas condições de quaisquer países.

Além da parte física, qual a importância do fator psicológico numa prova de longa distância?

Se o atleta conseguiu ter uma preparação física adequada, ele vai conseguir equilibrar o fator psicológico, que é fundamental para a motivação durante as provas. Por isso, é importante ter o conhecimento das dificuldades do percurso e dos obstáculos que poderão ser enfrentados.

Apesar de toda essa preparação, após algumas horas de competição, torna-se difícil manter-se motivada o tempo todo. O atleta tem que saber cair e se levantar, lembrar-se do treinamento e das razões que o levaram até ali. A clareza da mente para esses momentos é fundamental para que o atleta não desista e siga em frente.

Quais os benefícios à sua saúde, neste período das corridas de rua. Como é a Estela com atividades físicas rotineiras?

Os benefícios com a prática de esportes, notadamente com as corridas de rua, são muitos: traz melhoras ao corpo e à mente, previne doenças e proporciona bem-estar, ainda mais nesta idade, 46 anos, onde estamos mais sujeitas a mudanças hormonais e que interferem em tudo, desde os ossos ao temperamento.

Eu sempre fui muito ativa, mas nunca segui nenhuma atividade física com afinco. Com as ultramaratonas percebi que tenho mais disciplina em minha vida de maneira geral. As provas servem para equilibrar o uso do meu tempo e são fundamentais para que eu consiga gastar energia numa atividade que me é altamente prazerosa.

Em provas de longa de distância, qual é a alimentação adequada antes e, principalmente, durante o percurso?

Isso varia muito entre atletas e nutricionistas. No meu caso, a estratégia que sempre prevaleceu foi a de “estocar” energia nos dois dias que antecedem a prova, por meio do consumo de carboidratos e sal. Para isso, utilizo alimentos como batata, mandioquinha e massa. Durante as provas longas é preciso repor os nutrientes com o uso de suplemento em gel, que são palatáveis e de fácil ingestão. 

Nas ultramaratonas, em que são dias seguidos em atividade, utilizo o que me for mais adequado para momento; se estiver desanimada vai um docinho ou se estiver muito cansada e desidratada é preciso repor os sais, além dos isotônicos.  Simular a rotina das refeições (café, almoço e o jantar) funciona bem com uma sopa de macarrão à noite e um bolinho com chá pela manhã.

Você teve referências, ídolos que seguiu para começar a carreira como atleta de longa distância?

Ao longo do tempo aprendi muita coisa com outros corredores e amigos de treino, entretanto, a decisão de migrar para corridas de longa distância foi íntima, sem a influência específica de alguém. Na modalidade, admiro o exemplo do corredor norte-americano Dean Karnazes, que supera os seus próprios limites a cada prova.

E como atleta, você acredita que pode ser esse exemplo?

O esporte ensina disciplina, retidão e foco. Assim, acredito que se o jovem tiver contato com o esporte desde cedo, poderá se dedicar e conquistar muitas vitórias em sua vida.

Sou uma pessoa comum, sou esposa, mãe e tenho um emprego. Apenas com 36 anos comecei a me dedicar às corridas e hoje, me tornei uma atleta amadora de longa distância, com resultados significativos.  Essas características indicam que qualquer pessoa com dedicação e afinco poderá chegar aos resultados que consegui alcançar ou seguir muito além. Neste ponto, respondendo à pergunta, acredito modestamente, que posso ser um exemplo de força e dedicação.

Na Badwater 2021 você alcançou um feito marcante, conseguiu movimentar as pessoas para arrecadar mais de duas toneladas de alimentos. Você acredita que quando necessário, o povo brasileiro tem essa capacidade de juntar forças e ajudar ao próximo?

A ideia não era participar de uma corrida virtual, mas a Badwater 267 veio no momento em que eu precisava de um desafio. Então, a ideia de arrecadar alimentos surgiu no mesmo instante e aproveitei a oportunidade para fazer o que eu gosto com a chance de mobilizar outras pessoas para uma meta em comum.

Acredito muito no potencial fraterno do povo brasileiro. Tenho certeza de que muitas das pessoas que participaram da campanha já queriam ajudar, mas não sabiam como, precisavam de um empurrãozinho. Cada um de nós tem habilidade e criatividade para serem usadas para o bem comum, mas é preciso dar o primeiro passo.

Com participações em provas importantes pela América-Latina e Europa, além é claro, a Badwater nos Estados Unidos, quais os planos para o futuro?

 Gostaria de ter a chance de disputar mais uma prova internacional após a pandemia, mas por enquanto, vou continuar treinando para manter o condicionamento e competir assim que for possível.

Edilson Morais

[email protected]

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