Estrelas infantis e inquietante produto midiático

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Foto: Freepik.

Não podemos negar que, na atualidade, o YouTube se revela uma das principais plataformas utilizadas para o compartilhamento de produções audiovisuais. Fundado por Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karin, o site foi lançado em meados de 2005. No ano seguinte, em 2006, foi adquirido pela gigante de tecnologia Google por cerca de US$ 1,65 bilhões. Devido sua grande popularização, pode-se dizer que o YouTube iniciou um processo que, de certa maneira, potencializou a complexidade nas relações entre produtores e consumidores, gerando novos significados e valores nos processos comunicacionais. Isto é, ao participarem ativamente da produção dos conteúdos que circulam pelo site, os consumidores também contribuem para a formação de novos valores, sejam eles culturais, sociais ou econômicos.

Por meio do YouTube, tornou-se possível, inclusive para certas crianças, deixar o anonimato e figurar em uma posição de visibilidade mesmo em uma plataforma que, a princípio, não seria indicada para elas, mas que teria sido apropriada por elas. Embora a Google, empresa proprietária do YouTube, apresente em suas políticas de uso a informação de que no Brasil a idade mínima para criar uma conta é de 13 anos, o que se vê atualmente é uma expansão de canais protagonizados por crianças e direcionados ao público infantil.

Em estudo realizado pelo ESPM Media Lab acerca do consumo de vídeos por crianças com idade entre 0 e 12 anos, identificou-se que entre os 100 canais mais populares no Brasil, 36 deles eram voltados à criança em 2015, e, em 2016, esse número saltou para 48. Neste caso, a apropriação da plataforma pelas crianças fica evidente, uma vez que praticamente a metade dos canais mais populares são direcionados ou incluem conteúdos endereçados ao público infantil.

É em meio à eclosão de novos atores sociais formados, muitas vezes, por um conjunto crescente de crianças que a categoria dos youtubers mirins se destaca. São produtores infantis que levam para o âmbito público questões que, até então, se restringiam única e exclusivamente à vida privada e, por sua vez, colocam em circulação temas que dizem respeito ao universo infantil. É por isso que os sites de redes sociais se estabelecem como espaços nos quais as crianças também manifestam sua presença, mas, concomitantemente a isso, é preciso reconhecer que a fronteira que separa a vida pública e privada de tais crianças se torna progressivamente opaca.

Grande parte das produções compartilhadas no YouTube têm por característica a exaltação de aspectos relacionados à informalidade da vida cotidiana, fator que contribui para forjar um espaço no qual se torna permitido realçar tudo aquilo que não é visto em outros meios de comunicação, como a TV e a grande imprensa, por exemplo. Não à toa, os youtubers fazem uso sistemático de uma linguagem que brinca com o espontâneo e com o erro, característica que enseja a identificação entre os espectadores e tais figuras midiáticas infantis, sobretudo no que diz respeito aos estilos de vida demonstrados por tais personagens.

Estrelas resplandecentes na visibilidade midiática que se tornou um valor central do contemporâneo, os youtubers mirins se transformaram, eles próprios, em um atraente e igualmente inquietante produto midiático. Além de consumir os diferentes conteúdos, seus espectadores consumem, invariavelmente, essas personalidades mirins como exemplos de modos desejáveis e, até mesmo, bem-sucedidos de ser criança no mundo atual cuja visibilidade constante se tornou um valor a ser almejado.


Marcelo de Andrade

Doutorando em Ciências da Comunicação – USP.

Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo – ESPM/SP

Publicitário pela Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP

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