Estudos sobre a eficácia do lockdown

Chega a ser revoltante abrir o JP e me deparar com articulistas desqualificando medidas importantíssimas para o combate à Covid-19 com base em estudos duvidosos e que figuram no “lado B” da ciência. Isso em um momento onde pessoas estão morrendo em filas para vagas em UTI.

Foi isso o que fez a professora Érica Gorga, colunista do JP e ex-candidata à prefeitura de Piracicaba pelo partido Patriota. No primeiro texto, Lockdown ou estado de sítio em Piracicaba?, publicado em 24 de março, ela minimizou o confinamento feito em Araraquara, dizendo que foi ineficaz, mesmo com o registro de zero morte por Covid após 44 dias.

Ela ainda disse que o prefeito de Piracicaba, Luciano Almeida, teve uma atitude antidemocrática por querer criar um “estado de sítio” na cidade, esquecendo que o STF decretou, em abril de 2020, que prefeituras podem determinar o isolamento durante a pandemia.

Em um segundo artigo, Estudos sobre a ineficácia do lockdown, publicado em 31 de março, Érica tenta invocar a ciência para dizer que o lockdown é falho. Entre outros estudos, ela cita um assinado por “epidemiologistas de Stanford”. Ele concluiria que “restrições severas não produziram benefícios significativos quanto à disseminação da Covid-19”.

Tal estudo foi comandado pelo Dr. Jay Bhattacharya, um professor de medicina da ala conservadora da Universidade de Stanford, que, desde 2020, tem tentado advogar contra o lockdown e é citado por políticos de extrema direita para justificar que a “imunidade de rebanho” seria a saída para a pandemia.

Ele é autor do The Great Barrington Declaration, uma declaração que tenta atestar seus estudos com 8.000 assinaturas de “especialistas em saúde pública”. No entanto, descobriu-se que muitas destas assinaturas eram falsas ou de homeopatas autodeclarados, terapeutas em massagem e até hipnoterapeutas.

Bhattacharya foi fortemente denunciado por muitos nomes da comunidade científica. Eles dizem que a imunidade de rebanho não funciona, mesmo porque, como estamos vendo no momento, jovens, adultos e até crianças saudáveis também podem sofrer muito ao contrair a Covid-19.

Érica tenta justificar o injustificável. Se existem meia-dúzia de três ou quatro estudos que dizem que as restrições não ajudam a combater a Covid-19, outras centenas dizem o contrário.

Em The effect of large-scale anti-contagion policies on the COVID-19 pandemic, por exemplo, cientistas mostram que 140 milhões de infecções foram evitadas por conta de medidas restritivas na Ásia, Europa e EUA.

O Estimating the effects of non-pharmaceutical interventions on COVID-19 in Europe exemplifica o efeito do lockdown em 11 países da Europa que salvaram 3 milhões de vidas.

No Brasil, a Revista Brasileira de Epidemiologia mostrou que restrições em São Paulo “trouxeram resultados claramente significativos para retardar o crescimento dos casos COVID-19”.

Em 1 de abril, especialistas (de verdade) lançaram uma carta aberta em defesa de lockdown de pelo menos três semanas com auxílio emergencial para salvar 22 mil vidas no Brasil.

É simples entender a conta! Um vírus não vai circular se houver diminuição na movimentação de pessoas e, por isso, para evitar contaminações é preciso haver restrições e, claro, muita fiscalização.

Inacreditavelmente, Érica Gorga prefere atacar o lockdown ao invés de exigir ações do governo federal, que, em um ano de pandemia, não comprou vacinas em tempo suficiente, não ajudou a manter as pessoas em isolamento, não deu auxílio emergencial satisfatório, ou seja, não fez nada para que, agora, não fosse necessário um lockdown mais severo.

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