“Eu escolhi ter essa responsabilidade”, diz João Scarpa, pai solo de João Murilo

Foto: Claudinho Coradini/JP

Atualmente integrante do mandato coletivo “A cidade é Sua” na Câmara de Vereadores, ele optou pela adoção tardia.

João Scarpa, 46, é pai solo de João Murilo, 15, termo utilizado para designar quem cumpre essa função por conta própria, seja por circunstância ou escolha. Alguns, se tornam propositalmente, por meio da adoção, criação ou reprodução artificial. Outros, devido a circunstâncias inesperadas, como a morte de um parceiro ou uma parceria que chegou ao fim.

“Eu não sei porque, mas eu sempre tive vontade de ser pai, e sabia que seria. É algo inexplicável, como uma missão, pro meu crescimento pessoal principalmente”, relata. Ele conta que havia a possibilidade de ser um pai biológico, mas que preferiu optar pela adoção para adequar essa função a sua rotina.

Licenciado em artes, João trabalha na produção artística e cultural de Piracicaba, como ator ou diretor e viajava constantemente por conta das apresentações. Atualmente co-vereador por meio da iniciativa até então inédita em Piracicaba, o Mandato Coletivo “A Cidade é Sua”, filiado ao PV, ele sempre procura trazer uma fala sobre a importância da adoção na Câmara.

No processo de adoção, que começou em 2016 e teve sua conclusão em 2019, João buscou ser pai de alguém que tivesse mais de sete anos de idade, o que no Brasil é conhecido como “Adoção Tardia”. O termo é utilizado quando a criança já possui um desenvolvimento parcial em relação a sua autonomia e interação com o mundo, já se comunicam, sabem andar, não usam mais fraldas, ou seja, não são mais consideradas bebês.

90% dos postulantes à adoção buscam crianças de até 7 anos, enquanto 67% das crianças e adolescentes disponíveis nos abrigos têm idades entre 7 e 18 anos, segundo dados de 2019, do Conselho Nacional de Justiça. Vale destacar que a adoção pode ser feita por pessoa solteira e casal hetero ou homoafetivo.

A família de João sempre o apoiou nessa decisão e foi receptiva. Atualmente, o vínculo já está estabelecido e todos chamam uns aos outros pelo grau de parentesco, ao invés do nome.

A dificuldade principal no processo de adoção foi a própria adaptação. “Criança faz testes com você, para saber até onde você deseja ser pai ou mãe dela. No começo, houve problemas com a escola, me ligavam direto. Com o tempo, eu percebi que não se tratava dele em si apenas, mas que estavam estigmatizando a figura dele, por conta do histórico familiar que ele tinha. Acabei trocando-o de escola, pra uma que o acolheu melhor”, relembra João.

Também houve constrangimentos no atendimento do serviço público por conta da Caderneta de Saúde da Criança, onde o nome de filiação no documento é da mãe. No caso, da mãe biológica, até a troca dos documentos pro definitivo da adoção. A criança ou o adolescente adotado precisa de outro RG, CPF e certidão de nascimento, que deve conter os dados da nova família, inclusive o nome dos avós, e cancela o seu primeiro registro, feito pelos pais biológicos.

Uma curiosidade é que João Murilo nem sempre teve esse nome. Antes da adoção, ele se chamava apenas “Murilo”. Segundo o Código Civil, a criança ou adolescente pode, além de assumir o sobrenome dos adotantes, mudar o seu próprio nome. No documento, Murilo pediu para incluir o nome de seu pai adotivo, João, no nome dele e hoje se apresenta dessa forma.

Hoje, João ri ao contar que a maior questão que enfrenta com o filho atualmente, é a adolescência. “É algo que todos os dias estou aprendendo a lidar e melhorar como pai. Saber perceber quando ele está bravo, quando quer ficar sozinho. Mas como ele é carinhoso e amoroso, no geral não há conflitos”.

“Para adotar uma criança, tenha muita certeza que você quer isso para a sua vida. Principalmente, se você não adotar como casal porque vai ser você, sozinho, contando com o apoio eventualmente. A família é você e seu filho, ou filhos. É preciso muita compreensão, paciência e um amor incondicional. Quem deseja de verdade, que o faça porque vale muito a pena, ter esse companheirismo, saber que alguém que você vai cuidar, cuidará de você. Isso é muito importante, é o sentido da vida”, finaliza João Scarpa.

AÇÃO SOCIAL

Antes de adotar, João Scarpa era voluntário em um projeto institucional da Casa do Bom Menino, de Apadrinhamento Afetivo. Previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), visa promover vínculos afetivos seguros e duradouros entre as crianças e adolescentes e pessoas da sociedade que se dispõem a ser padrinhos ou madrinhas. Os “padrinhos” podem visitar seu afilhado na instituição de acolhimento, levá-lo para passeios nos finais de semana e viagens, para seus lares nas férias e em feriados, orientar seus estudos, dar suporte e orientação quanto à questões de formação quando esse afilhado é adolescente, levar ao médico e por aí vai. Em resumo, além do afeto, promovem uma convivência em família e em comunidade.

Laís Seguin
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