Eu não indico este texto

“Vou te dar uma dica. Estou assistindo uma série muito boa e VOCÊ PRECISA VER TAMBÉM! Eu recomendo”. “Não acredito que você ainda não conhece aquele fi lme. É ótimo, super indico. Confi e em mim, sou cinéfi lo”. “Minha receita de rabo assado é a melhor do mundo. Vou te passar todas as dicas e segredinhos, anote aí”. “Quer entrar em forma? Eu malho há dois anos e sei TUDO sobre vida fi tness. Fiquem ligados no meu canal!”.

Tenho certeza que quase todos os dias você também é bombardeado por sugestões que não pediu. Já reparou? É sempre um filme ótimo para assistir, um lugar para conhecer, uma bebida para provar, um livro para ler. Todos sempre ótimos, indicáveis, 100% confiáveis pela fonte. São “especialistas” nos assuntos mais cabreiros: cultura, economia, política, gastronomia, fauna, flora. Só que não!

Os “influenciadores digitais” são educadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, advogados, especialistas de áreas contábeis e, por que não, modelo-ator-apresentador-de-tv-e-jornalista, ou, para simplificar, uma “figura pública” autodeclarada. Não há necessidade de formação, estudo, anos de pesquisa, livros lidos ou teses apresentadas. Basta uma carinha simpática, um bom resumo sobre o tema e pronto!

Eles são responsáveis por “criar conteúdo”, algo que antigamente era restrito a canais de televisão, revistas, jornais, livros ou até mesmo websites. Os conteúdos, agora, estão espalhados por todos os cantos da “world wide web”. Tomou uma dimensão tão grande que encontrar algo confiável é uma dificuldade.

É claro que a liberdade de criar conteúdo é uma coisa maravilhosa. E você pode fazer o que quiser, falar sobre o que gosta e o repassar para sua rede o que aprendeu. Há alguns anos, em meados dos anos 1980 e 1990, onde a internet era escassa, para você conseguir ter voz era preciso ter influência (analogicamente social) ou dinheiro.

Hoje, não! Basta um Wi-Fi ou celular com internet para pintar o sete e jogar no universo online. E consome quem quer, fato. Mas uma bola de neve está sendo criada. Se antigamente os 15 minutos de fama na televisão era o auge de “ficar famoso”, agora vale qualquer coisa para viralizar. Dane-se se você sabe mesmo sobre o que está falando.

A “influencer” Gabriela Pugliesi, por exemplo, por ter um corpo sarado, ficou famosa ao dar “dicas fitness” e de bem-estar no Instagram. Rolou até queixa do Ministério Público quando ela ultrapassou os limites online e chegou a organizar um evento em 2017, no Rio de Janeiro. Foi processada por exercício ilegal da profissão de educador físico.

Depois, Pugliesi foi “cancelada” por organizar uma festinha em meio à pandemia do coronavírus, mesmo pregando a vida saudável. Meses depois de desaparecer da internet, voltou dizendo que estudou (?) sobre investimentos na bolsa e já anda dando pitacos sobre o assunto.

O “arlequim dourado que brotou no campo sem ser semeado” aqui do outro lado também já foi muito de dar dicas sem ninguém perguntar. Já indiquei coisas a pessoas que simplesmente odiaram, fi z elas perderem tempo por pensar que, se eu gostei, todo mundo vai gostar. Hoje, se não me pedirem, não indico mais nada. Aliás, nem indico que você leia esse texto. Mas, se chegou até aqui, acho que já leu. Foi mal!

Epílogo: dia desses, meu pai soube que eu viajaria e quis saber mais sobre o país que eu visitava. Sem me dizer nada, foi na prateleira de livros, puxou um enciclopédia e leu tudo sobre aquela nação. Quando nos falamos, ele já sabia muito mais que eu que estava pisando no lugar.

Se hoje há muito mais gente querendo ensinar, sempre é bom saber que sábio é aquele que está sempre querendo aprender.