“Eu sou negra, mas sou bela…”

Institutos de pesquisa confirmam: o Brasil é negro! Pois a maioria da população tem seus arquétipos na primordial Mãe África. E, então, especialistas em economia de mercado ensarilham as suas mais sofisticadas armas e – eia, sus! – deliberam: não há preconceito racial neste país! E tentam prová-lo alegando a fartura de belas mulheres negras e pardas como âncoras de televisão, nas peças propagandísticas. Vejam: negros e negras não mais aparecem apenas como motoristas, cozinheiras, copeiras nas novelas e programas. O Brasil é uma notável democracia racial. Rejubilem-se, pois, os que gostam de ser enganados…

Mas, na realidade, trata-se apenas da nossa secular hipocrisia social. Pois, a hipocrisia é – e sempre foi – a mais eficiente, ainda que falsa, arma de que dispõe o Mal quando se depara com o Bem. Não conseguindo vencer o Bem, o Mal adequa-se, adapta-se. Ora, o mundo está sendo sacudido por verdadeiras ondas de enfrentamentos a antigos tabus, preconceitos, idealizações. Enfrentá-los, no entanto, não é vencê-los, superá-los. E o cínico mundo de tantos mercados é altamente habilidoso para se aproveitar de quaisquer situações.

De minha parte, não acredito nisso. E lamento-me por quem aceite essa camada de verniz por sobre feridas milenares. Em meu entender, o racismo não é um preconceito, mas um conceito. E, como todo conceito, não tem suporte moral ou científico. Ora, nasci num lar que sempre entendi ser pluralista. Lembro-me de Zinho Muié – homossexual branco, teatral – que ia à nossa casa como cabeleireiro de minha mãe e irmãs. E de dona Helena, a judia, vendedora de roupas. E de Lula, a prostituta, auxiliar no pequeno restaurante de meus pais.

Em especial – como lembranças imorredouras – a negra e sorridente Zulmira, que me banhava e sob cujas saias eu me escondia, atordoado com seu perfume de fêmea. E de Zuleika, filhinha dela. Ela e eu não nos largávamos. E éramos pajeados – como se dizia antes – pelo inesquecível Joãozinho, ser humano inacreditavelmente generoso, nosso pajem negro. Até mesmo na adolescência – quando se vai descobrindo que nem tudo é “ouro sobre azul” – acreditei na beleza de convivência e coexistência racial, social, econômica. Não percebi, no entanto, ter havido, na minha família o que, de uns tempos, a esta parte, denomina-se racismo estrutural. Pois me parecia até mesmo afetivo, quando meus pais – lamentando-se de serviços mal feitos – sussurravam entre si: “coisa de abide”. E, abide, em árabe, é preto. Logo, o ruim era “coisa de preto”.

Perturbo-me desde quando, há cerca de um ano, li o livro da notável Djamila Ribeiro, “Pequeno manual antirracista”. Como me doeram aquelas tão poucas páginas! Meus pais eram racistas e não sabiam? Será que fui ou tenho sido racista com o meu adorável e inseparável irmão negro, o Antônio Messias Galdino? Será que, por não me considerar racista, tornei-me um verdadeiro antirracista?

Não acredito mais seja, o preconceito, apenas cultural, racial ou estrutural. Vejo-o como original, tragédia congênita, no DNA da humanidade. Ora, o que Sara, mulher de Abrãao, fez com Hagar, a escrava negra que gerou o filho Ismael do patriarca? Sara expulsou a negra e o filho mestiço. Por que Sara não foi embora e Hagar ficou?

No Cântico dos Cânticos, poema ímpar, a Sulamita, a Bem Amada, proclama orgulhosamente: “Sou negra, mas sou bela…” Ela responde a alguém que, já na fundura dos tempos, devia tê-la descriminado. Uma das donzelas, por hipótese, ter-lhe-ia dito: “Saia daqui, sua negra. Aqui, não é o seu lugar.” E ela, a Amada, toda gloriosa: “Sim, eu sou negra. Mas sou bela…” Isso, ao começar a nossa história bíblica. Por que, então, duvidar haja um racismo congênito, maldição sobre a humanidade, mais uma das tantas maldições?

Mas que lá sei eu?

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