Eureka, Eureka

Foto: Freepik

Um dos tantos fascínios da vida parece estar naquilo que ela tem de surpreendente. É aventura sem fim. E um aprendizado permanente. Quando se fala vir, a sabedoria, com a idade, surpreendo-me. Pois, pelo menos para mim, tantas são as surpresas, tantos os inesperados, o antigo é tão novo e tão novo o antigo – que a sabedoria está em nada entender. O homem busca, procura, encontra, descobre, cria – e está sempre recomeçando. Aquilo que se pensava fosse verdadeiro não é; aquilo que não era passa a ser. De alguma forma, somos caniços a mercê de brisas e ventanias da Vida.

Seja lá o que for, digo-o apenas por mim. Que não consigo, ainda, ter a compreensão ou a sensação do definitivo. Mas rendo-me à frase reveladora: “Tudo o que é sólido se desmancha no ar.” Desmanchava-se àquela época. Desmancha-se também agora. Vejo-o desmanchando-se aceleradamente, como um castelo de cartas que moleques desmontam por simples farra juvenil. Há, sim, um mundo desmanchando-se assustadoramente.

E eis que, de repente, como jornalista, senti-me um tolo. Qual Quixote caipira pensei enfrentar dragões de verdade. Acreditei fossem verdadeiros, vandálicos, destruidores, cruéis em sua ignorância absurda. Errei. Não são dragões, mas perigosos. Pois chegaram ao poder com o sádico apetite para destruir, mediocrizar, vulgarizar, apequenar, verbos de uma nova história. E, com isso, atraem séquitos de ressentidos e de vulgares anônimos.

O mais gritante testemunho dessa ignorância do atraso foi-nos escancarado naquele ridículo espetáculo da farra das motocicletas. E lá estava o capitão do Planalto como estrela máxima. Meu Deus, quanto atraso! Aquela turma toda alvorotada estava imitando o que o então jovem Marlon Brando fizera no filme “O Selvagem”, no início dos 1950. Era a bagunça dos motoqueiros. Há 70 anos! Ou, então, copiavam o rebelde Steve Mcqueen dos 1960. Ou reviviam James Dean em “Juventude Transviada”. Ora, o capitão está velho demais para brincar de Marlon Branco, de James Dean ou de Mcqueen. Pode ter vontade, mas falta-lhe talento até mesmo para essa farra juvenil.

Para mim, no entanto, foi uma iluminação, despertar que costuma ocorrer na vida das pessoas. Ora, acontecera – em outra dimensão, é óbvio – com Arquimedes, na banheira, gritando o “Eureka, Eureka, descobri”; com Newton, vendo a maçã caindo-lhe na cabeça; com Saulo, derrubado do cavalo; com criança descobrindo não existir a cegonha. Para mim, o capitão, imitando Marlon Brando, foi o meu despertar. Pois ao deparar com o ridículo, veio-me a iluminação: “Eureka, Eureka! Descobri! Eu estou sento estúpido, burro, idiota completo. O Brasil virou um esculacho!” Ora, se esculacho virou, nada mais tenho a ver com isso.

O fato e a verdade, porém, é que sou um homem em crise. Em perturbadora crise. Pois, sinto-me dividido, fragmentado, indeciso. Estou a poucos dias de completar 81 anos. Mas o meu corpo está ativo como se tivesse 60, com seus humores, desejos, vitalidade. O cérebro fervilha como aos 50 anos. O espírito inquieta-se tal qual nos 30, rebelando-se, indignando-se. A alma insiste em permanecer nos 25, toda esperançosa, iluminada de belezas, encantada com o belo e o bom. E eis, então, o desafio. Aos 81 anos, o coração palpita, pulsa, inquieta-se como na adolescência dos 15 anos.

A fragmentação é dolorosa. Mas – há bom tempo – aprendi a orientar-me apenas pelo coração. Hei, pois, de continuar a ouvi-lo. Pois ele me diz que cheguei, apenas, à adolescência da velhice. Adolescente aos 81 anos! Que nova e fascinante aventura. Eureka!

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