Evaristo Piza: ‘Mesmo longe, nunca deixei de acompanhar o XV’

Após mais de cinco meses de espera, o Campeonato Paulista da Série A2 retornará nesta semana, com o XV de Piracicaba enfrentando o Votuporanguense, na quarta-feira (19), às 16h, no Estádio Barão da Serra Negra com portões fechados. Desde o último jogo no dia 14 de março, muita coisa mudou no Nhô Quim, inclusive no comando técnico, com a demissão de Tarcísio Pugliese e a chegada de Evaristo Piza, que treinei a equipe entre os anos de 2017 e 2018. Evaristo é o persona desta semana do JP, na qual fala sobre suas conquistas, a volta ao XV e o desejo em comum com jogadores, diretoria e torcedores: retornar à primeira divisão.

Evaristo Piza nasceu no dia 2 de julho de 1972 (48 anos), filho de Júlio de Toledo Piza e Francelina Santos de Toledo Piza. Casado com Lucielen Piza, é formado em educação física na PUC (Pontifícia Universidade Católica) Campinas. Em sua equipe, dirigiu o Nipon Bunry, do Japão (2006/2007), Paulínia (2008/2009 como auxiliar técnico e 2010/2011 como técnico principal), Primavera (2011), Portuguesa Santista (2011), Barretos (2012), Velo Clube (2013), Taubaté (2013 e 2017), Capivariano (2014 e 2015/2016), Guarani (2014), Mirassol (2015), Penapolense (2016), XV de Piracicaba (2017/2018 e desde 2020) e Botafogo-PB (2018/2020).

Quais foram as conquistas mais importantes de sua carreira?

O título da Série A2 de 2014 pelo Capivariano e o tricampeonato paraibano com o Botafogo-PB. Valorizo muito também o vice-campeonato da Copa do Nordeste. Sei que não é um título, mas da maneira que foi e como o Botafogo chegou à decisão, invicto após 10 jogos enfrentando as principais forças do Nordeste, na qual fizemos uma final contra o Fortaleza-CE. Isso foi muito importante para mim e para o clube.

Não esqueço algumas situações que parecem simples, mas para mim foram importantes. Tive um vice no Paulista sub-17 com o Paulínia, um time formador e no ano seguinte esses meninos subiram para o time de cima, na qual conseguimos um acesso da Série B para a A3, então são situações que marcam, independente da divisão. São momentos que se tornam importantes. Valorizo também alguns prêmios individuais, como o de melhor treinador da A2, em 2019 como melhor treinador na Paraíba. Isso é gratificante.

Você está de volta ao XV após dois anos. Como foi a sua volta e a recepção com a cidade?

Muito boa, as pessoas me receberam muito bem. Alguns amigos que estavam comigo em 2018 continuam no clube, portanto estou em um ambiente que as pessoas já te conhecem, então isso facilita. O grupo de atletas me recebeu muito bem a agora é dar sequência ao trabalho para buscar o acesso.

Como foi a negociação para retornar ao Nhô Quim?

Foi simples, uma negociação bem tranquila. Estava em casa aguardando o retorno do futebol em razão da pandemia. Aconteceu a saída do (Tarcísio) Pugliese (ex-técnico do XV) e coincidiu do XV buscou um profissional. Em uma conversa bem simples com o Beto Souza (ex-gerente de futebol) e o Ricardo Moura (diretor de futebol), na qual levaram meu nome ao presidente do clube (Arnaldo Bortolleto) e ao presidente do Conselho Deliberativo (Rodolfo Geraldi). Em meia hora conseguimos colocar algumas ideias, sobre o que pensava e o que o clube oferecia. Estou muito feliz em retornar e feliz com o que encontrei aqui deixado pelo Pugliese.

Você prevê mais dificuldades em relação a sua primeira passagem entre 2017-2018?

Mais dificuldades não, talvez mais responsabilidade.

Como você avalia o futebol brasileiro após a volta? Acha que em quanto tempo as equipes voltam a exibir um alto nível técnico?

Terá um tempo de readaptação. Aconteceu uma coisa que foi fora da normalidade, que é você ficar quatro meses sem futebol em razão da pandemia. O jogador de futebol precisa readquirir esse ritmo, não apenas técnico, mas também a parte física, organização coletiva e isso não acontece do dia para a noite. Acredito que no meio da competição, principalmente nas Séries A e B do Brasileiro, algumas equipes já comece a atingir o seu nível. Nós (XV) temos que acelerar o máximo porque é um tiro muito curto, já que são três jogos para classificar e mais quatro para subir. Temos que nos readaptar o mais rápido possível. Se não jogarmos um jogo com alto nível técnico, vistoso, temos que jogar em um nível competitivo muito alto para conseguir o objetivo.

Na sua opinião, quais são os principais adversários do XV na luta pelo acesso?

Acredito nas equipes presentes neste bolo da parte de cima da classificação. Consolidando essa passagem e as outras equipes se classificando, os times com camisa ganham muita força no mata-mata, independente da torcida a favor ou não. A Portuguesa se reforçou, o São Bento por estar na Série C se reforçou, o São Caetano tem tradição, o São Bernardo está liderando a competição, o próprio XV também tem uma camisa forte e um elenco experiente; a Portuguesa Santista que é muito difícil jogar contra. São essas equipes que se tornam adversários mais perigosos.

Neste tempo em que esteve fora, você acompanhou o XV? Como foi esse “relacionamento a distância”?

Acompanhei sim, nunca perdi o contato. Fiz amigos, fiquei praticamente aqui por duas competições, a Copa Paulista de 2017 e a Série A2 de 2018. Mesmo lá na Paraíba, as pessoas acompanhavam nosso trabalho, torciam por nós, enquanto nós também torcíamos para o XV. Sofri bastante no ano passado da maneira que foi a última semifinal (derrota para a Inter de Limeira nos pênaltis). Conversei com amigos depois, o Ricardo estava acabado e isso mexeu conosco lá, porquê aconteceu com a gente também lá no Botafogo, já que estávamos a 20 segundos de subirmos para a Série B do Brasileirão, mas sofremos o empate e perdemos nos pênaltis para o Botafogo de Ribeirão Preto, então sofri muito e sei o que sofreram aqui.

Na sequência, os jogos da Copa Paulista, da Série A2, sempre quando dava acompanhava e assistia os jogos que foram transmitidos. Nunca deixei de acompanhar o XV.

A passagem pelo Botafogo-PB foi a sua primeira fora de São Paulo? Como foi essa passagem pela equipe paraibana?

Foi sim a minha passagem fora do futebol paulista. Foi uma experiência muito boa, o futebol no Nordeste está crescendo muito, principalmente em razão da Copa do Nordeste, que está valorizando muito o futebol de lá, já que é um campeonato muito difícil. Tirando os Brasileiros e a Copa do Brasil, é a competição que tem mais peso por ter o enfrentamento entre os melhores de cada Estado, jogos grandes, clássicos.

Venci o estadual, que são três equipes grandes na Paraíba, o trio Campinense-PB, Treze-PB e Botafogo, fiz sete clássicos e sai invicto, com seis vitórias e um empate. Foram 74 jogos em 22 meses de trabalho, com 37 vitórias, 23 empates e 14 derrotas. Um aproveitamento muito bom, deixando um tricampeonato estadual para o clube, além de um vice da Copa do Nordeste. Três fases da Copa do Brasil no ano passado. Não trouxemos apenas situações de título para o clube, mas ajudamos também na questão financeira. Em 2019 foi o ano de maior entrada de dinheiro por meio das metas concluídas e venda de jogadores, já que foram mais de R$ 6 milhões de lucro. Foi uma passagem muito boa, um clube que gostei muito de trabalhar.

Como é a rivalidade com o Treze-PB? O XV tem alguma rivalidade parecida em sua opinião?

A rivalidade é grande. O Botafogo da Paraíba não tem nem a camisa de número 13 no uniforme. Eles nem falam 13, substituem por 12+1. É uma rivalidade bem grande. Tem também com o Campinense, mas a maior é mesmo com o Treze. Aqui na região com o XV, talvez com a Inter de Limeira, que é um grande rival, quando tem Guarani e Ponte Preta, também, com uma rivalidade regional. É um pouco diferente já que lá o maior clássico é o de Campina Grande, que é Campinense e Treze e em João Pessoa só tem um time, que é o Botafogo, então não tem aquele clássico na capital, mas são jogos pesados e acredito que o XV está sim nos jogos que citei.

Como que é o futebol paraibano e nordestino em si? Quais as principais diferenças para o futebol paulista?

No paraibano os três grandes sempre entram como favoritos e com uma responsabilidade de trazer o título, portanto isso te dá um peso muito grande. E você vai fazer alguns jogos no sertão achando que terá menos dificuldade, mas as equipes de lá de te complicam em todo o momento, já que são jogadores que querem espaço nos grandes. No futebol nordestino você vê jogadores interessantes, porque lá ainda é aquele futebol raiz, no qual existe o “Eu Bola”, com ponta direita, ponta esquerda, o camisa 10, o camisa 9. Você vai falar 4-1-4-1, 3-6-1, duas linhas de quatro e eles demoram para absorver. Com a bola são muito agressivos, muito habilidosos, rápidos. Essas são as características do futebol nordestino.

Em sua passagem pelo Botafogo, você perdeu a Copa do Nordeste para o Fortaleza-CE de Rogério Ceni. Como foi enfrentá-lo? Você acha que ele será um dos principais técnicos do Brasil em alguns anos.

Fiz três jogos contra o Rogério. Ganhamos o primeiro por 1 a 0 em casa na fase de classificação, depois nos encontramos em dois jogos na final. Perdemos os dois jogos por 1 a 0, tanto no Castelão (Fortaleza), quanto em casa. No Ceará sofremos o gol aos 38 minutos do segundo tempo, em uma partida que seguramos bem para trazer o jogo para João Pessoa com vida, já que jogamos contra em um estádio com 55 mil pessoas. Foi um jogo de um elenco com R$ 7 milhões de orçamento contra um de R$ 500 mil. Tem coisas que você vai até certo ponto, mas fomos muito competitivos, conseguimos ficar vivos para o jogo na Paraíba e no início do jogo sofremos um gol por indecisão, mas não deixamos de buscar. Perdemos o título com dignidade, saímos aplaudidos do estádio mesmo com o vice-campeonato.

O Rogério mostrou todo o potencial que tem como treinador. Após a ida dele para o Cruzeiro-MG, não houve uma aceitação do trabalho por parte do grupo, que não queria ser profissional. O Rogério foi fritado lá, depois voltou para o Fortaleza e levou o clube para se classificar a Sul-Americana e o Cruzeiro caiu. A ideia de jogo dele é muito boa, tem um padrão tático bem definido, ele é um cara muito humilde no dia a dia. Nesses dois jogos, tive a oportunidade de conversar com ele. Ele nos recebeu no CT quando fomos jogar contra o Ferroviário-CE pela Série C. Trocamos bastante ideias e ele é um cara que vai crescer bastante no mercado.

O que você acha da possibilidade de fazer cinco alterações durante as partidas? Beneficia ou não o espetáculo?

Sim, beneficia o espetáculo. De dá possibilidades táticas e também em razão da parada de quatro meses, já que na primeira partida a tendência é que ocorra como aconteceu na Série A1, já que a readaptação do atleta não é só física, mas emocional. Jogador ficará desgastado, sentindo câimbra, que é natural. E tendo essa oportunidade você potencializa sua equipe e não perde o nível do jogo.

Na sua opinião, o que o XV precisa para conquistar o acesso e enterrar de vez os fantasmas do passado, já que bateu na trave por dois anos seguidos?
Continuar trabalhando do jeito que estão e fazendo um campeonato equilibrado como vem sendo feito. Isso será um fator determinante para o XV subir.

Quais são as suas maiores influências no mundo do futebol?
Julio Piza, que é meu pai, foi meu treinador e meu ensinou tudo. Ele foi treinador na base do Guarani. Foram 25 anos, desde 1985 até acho que em 2005 trabalhando lá e revelando grandes jogadores. No Brasil trabalhava sempre em uma linha com referência como Vanderlei Luxemburgo (Palmeiras), Muricy Ramalho (aposentado e atualmente comentarista), Tite (Seleção Brasileira). O Luxemburgo e o Muricy tiveram um auge muito grande, em uma época que estava iniciando como treinador e eram minhas referências, e o que o Tite faz pelo futebol brasileiro.

No Mercado do exterior me chama bastante atenção o espanhol Jose Guardiola (Barcelona-ESP) e o alemão Jurgen Klopp (Liverpool-ING), até acompanhando o time do Liverpool vem jogando. É uma equipe muito vertical, joga com bastante intensidade e direcionado sempre o passo para frente e isso me agrada dele.

Evaristo Piza