Falsa atribuição de ‘fake news’ ao JP marca eleições

O próprio TRE divulgou, em seu site oficial, decisão que negava o registro da candidatura ao prefeito Barjas. (Reprodução)

Quatro anos depois de ser popularizada nos Estados Unidos, durante as eleições de Donald Trump, a expressão “fake news” – que significa notícia falsa ou imprecisa – foi oficialmente incorporada ao dicionário do piracicabano. No dia 25 de novembro, inconformado com a manchete “Se vencer, Barjas não pode ser diplomado e nem empossado”, o prefeito e candidato à reeleição, Barjas Negri (PSDB), acusou o Jornal de Piracicaba dessa prática. Além de post do próprio prefeito nas redes sociais, a falsa alegação de que o JP estaria tentando desinformar os eleitores foi amplamente compartilhada pelos apoiadores do candidato. “Esses ataques ocorrem sempre que a imprensa divulga alguma informação que contraria o interesse das forças em disputa e acabam sendo impulsionados por eleitores e pessoas engajadas nas campanhas”, explica Paulo Botão, professor e coordenador do curso de Jornalismo da Unimep. “Trata-se de uma atitude irresponsável, principalmente quando tomada por quem já ocupa cargo público e deveria dar o exemplo, respeitando o trabalho jornalístico e a liberdade de expressão e imprensa”, ressalta. Naquela mesma semana, as acusações do prefeito geraram repúdio por parte da APJ (Associação Paulista de Portais e Jornais), que se manifestou, por meio de nota, “em defesa da informação jornalística como instrumento necessário e fundamental para que todo cidadão tenha acesso aos fatos relevantes ligados ao pleito eleitoral”. A associação também expressou “convicção do compromisso do JP com a imparcialidade e seriedade editorial”. Para o professor Botão, uma das razões do sucesso das chamadas fake news é o fato de que elas normalmente vão ao encontro do que as pessoas querem ouvir e buscam fortalecer as opiniões e desejos de uma determinada parcela da sociedade, mesmo com base em informações falsas. “A proliferação de fake news constitui hoje uma das mais graves ameaças à democracia e à convivência. E o que se tem observado é o aumento do seu uso em momentos pré-eleitorais, a fim de manipular a opinião pública”. O presidente da APJ, Renato Zaiden, lembra que, antes das redes sociais e da popularização do termo fake news, boatos já eram multiplicados pelo boca a boca, causando danos muitas vezes irreversíveis. “Depois da web e das redes sociais, essas publicações ganharam novos canais, dimensão e velocidade. Se multiplicaram pela iniciativa dos autores anônimos, mas também pela replicação quase automática de quem os recebe e não checa a veracidade”, explicou. Na opinião do jornalista, cabe aos cientistas continuar decifrando as causas. Já aos profissionais e gestores de veículos de comunicação compete combater essas informações falsas com a verdade dos fatos e campanhas permanentes de conscientização. Sem analisar o caso específico de Piracicaba, Leda Gitahy, professora do Instituto de Geociências da Unicamp e uma das coordenadoras do Grupo de Estudo da Desinformação em Redes Sociais, afirma que as mensagens que viralizam nas redes não têm a espontaneidade que aparentam. “Elas são cuidadosamente construídas, usando estratégias de marketing, e contam com uma base de lançamento estruturada”. A pesquisadora, que prefere o termo desinformação a fake news, uma vez que essa expressão estaria sendo utilizada de maneira pejorativa e ambígua, com o intuito de desacreditar a imprensa, também aponta a importância dos veículos de comunicação no combate às notícias falsas. Segundo ela, é essencial que a mídia tradicional seja muito cuidadosa com o que publica, garantindo boas condições de trabalho aos jornalistas, para que eles possam apurar as matérias de maneira precisa. “Coberturas jornalísticas malfeitas e motivadas apenas pelo número de acessos (clickbait) podem estimular falsas controvérsias”.

HISTÓRICO

Na segunda-feira, 23 de novembro, às 19h10, o TRE (Tribunal Regional Eleitoral) divulgou, em seu site oficial, decisão que negava o registro da candidatura ao prefeito Barjas Negri. O fato, a menos de uma semana do segundo turno, foi divulgado por diferentes órgãos de imprensa e estampou a manchete do Jornal de Piracicaba na edição de terça-feira, dia 24: “TRE cassa candidatura de Barjas e o torna inelegível”. No dia 25, para explicitar as consequências desse indeferimento, o JP voltou ao tema: “Se vencer, Barjas não pode ser diplomado e nem empossado”. Mesmo correta, essa nova manchete enfureceu o candidato à reeleição e seus apoiadores. As informações que embasaram o texto e o título foram obtidas pelo jornalista Beto Silva junto à assessoria de imprensa do TRE, que se manifestou de acordo com a Lei Eleitoral de 1997. Além de explicitada na própria reportagem, essa fonte de informação foi reiterada, no dia 26, em editorial assinado por Marcelo Batuíra Losso Pedroso, diretor do JP. “Não temos medo de expor os fatos, expor opiniões críticas, expor decisões judiciais intragáveis ao gosto, pois esse é nosso papel”, explicava. Pela legislação eleitoral, os votos ao candidato sub judice – expressão em latim que significa “em julgamento” – apenas seriam validados em caso de deferimento de seu registro por instância superior. Sem essa decisão até 31 de dezembro, caso Barjas tivesse sido eleito, o presidente da Câmara de Vereadores assumiria a prefeitura até que houvesse (se houvesse) a reversão da decisão desfavorável. De acordo com o advogado eleitoral Ricardo Silva, os eleitores correm um grande risco ao eleger um candidato sub judice, uma vez que existem chances consideráveis de ele não ser empossado, com a necessidade de novas eleições. “Em 2020, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) decidiu divulgar a votação dos candidatos sub judice para que a população tivesse a real informação do pleito, já que em eleições passadas essa votação não era divulgada e o resultado ficava muito nebuloso”. O advogado também explica o motivo de alguns candidatos poderem ser votados, apesar do risco de não cumprirem o mandato. “Neste ano, o prazo para registro da candidatura foi até 26 de setembro, enquanto o 1º turno das eleições ocorreu no dia 15 de novembro. Nesse período, a Justiça Eleitoral precisava analisar todos os pedidos individualmente. No caso de Piracicaba, o registro do prefeito Barjas Negri foi julgado e indeferido. Ocorre que é garantido constitucionalmente o direito ao recurso”, afirmou. INCOERÊNCIA

Se Barjas Negri utilizou as redes sociais para atacar o JP no dia 25, taxando a manchete do jornal como “fake news”, nos dias 27 e 28 ele demonstrou ainda acreditar nessa publicação centenária. Na sexta- -feira (27), o candidato divulgou como “boa notícia” a seguinte chamada de capa: “Cidade está há 8 dias sem morte por covid-19” (no dia seguinte o município registraria mais um óbito pela doença). Já no sábado, dia 28, com o objetivo de destacar a retomada da economia e pedir que o eleitor não trocasse “o certo pelo duvidoso”, ele compartilhou texto da repórter Andressa Mota sobre o saldo positivo de 1.053 empregos em Piracicaba no mês de outubro. Mesmo com o registro de candidatura negado pelo TRE, que frisou o fato dele ter sido condenado três vezes por improbidade administrativa, Barjas Negri obteve 71.897 votos, tendo sido derrotado por Luciano Almeida (DEM), escolhido por 85.081 eleitores.

Ana Carolina Leal
[email protected]

LEIA MAIS:

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite o seu comentário!
Por favor, entre com seu nome

quatro − quatro =