Fanáticos do misticismo

É cada vez maior a quantidade de pessoas que creem no misticismo. E quando falo isso eu digo qualquer linha de raciocínio espiritual que fale sobre energia, o poder do universo, a cura pelas mãos, a intuição, os signos, etc. E se você só sabia que existia signo porque lia a coluninha no jornal, saiba que a nova geração está mais do que nunca especialista no assunto.

Reportagem do TAB, do portal Uol, mostrou um gráfico crescente de buscas pela internet por assuntos ligados à espiritualidade mística. Astrologia é a mais procurada, com um crescente de 67% entre 2016 e 2017. E se na internet a coisa aumentou, na realidade também. Dados mostram aumento nas compras de cartas de tarô e objetos que pertencem a esse universo espiritual heterogêneo.

Cá para nós, eu tenho visto crescer até mesmo entre meus amigos o interesse pelo assunto. Estamos ansiosos, depressivos, cansados, sem autoestima e em busca de preencher nosso vazio existencial. Esse desespero diário nos coloca em linha com a fé, seja ela qual for.

Agnóstico que sou, não acredito nem duvido, mas tomo as devidas precauções para não entregar-me a este jogo. Basta ver que, comercialmente, a fé mística também tem crescido. Aqui na Irlanda, onde vivo, uma hora de sessão de reiki custa em média 40 euros. O reiki está tão poderoso comercialmente que até mesmo clínicas de estética e spa estão inserindo ele nos serviços, com pacotes “massagem + reiki”, por exemplo.

Para quem não sabe, o reiki é uma “medicina alternativa”. Ele é baseado na pseudociência. Seus praticantes, por meio da imposição das mãos, transferem “energia vital universal” para o paciente. Já ouvi pessoas dizendo maravilhas sobre sessões de reiki e eu as invejo. Gostaria de ser assim, mas basta alguém impor as mãos sobre mim que tenho um ataque de riso. Meus chakras devem ser todos fechados, minha aura escura e meu espírito de porco. Quem sabe um dia?

O pior é que muitos praticantes agem como verdadeiros crentes, que ficam nas esquinas distribuindo livros. Outros, colocam nas mãos de completos desconhecidos sua saúde, acreditando que aquela energia (e não uma consulta médica) vai curá-los. Há casos de casais, por exemplo, onde um acredita que vai mudar o outro por meio da conspiração do universo e uma relação abusiva segue tóxica, mas com “muita energia vital rolando” até a próxima decepção.

A espiritualidade dos millennials virou até piada. A página Eu Não Aguento Mais o Jovem Místico, no Facebook, replica publicações de seguidores desta onda que saíram completamente da casinha. Pérolas como a cura de doenças por meio do perdão. Ou até dicas veterinárias onde é melhor trocar uma consulta do seu gato por pedras que vão filtrar as energias negativas que ele absorveu.

É mais uma prova que a espiritualidade vai sempre nadar contra a ciência seja qual crença for. Basta uma massagem no seu chakra, pintar uma mandala, colocar uma pedra no cóccix, fazer uma posição da yoga, tapar o umbigo… e todos os males se vão.

Nada contra o jovem místico. Quer dizer, só um pouco. Mas é esse exagero, que aliás é um belo mote dessa geração lacradora-gratitude, não é nada saudável. Que os meus amigos místicos me perdoem (olha que o perdão cura), mas assim como penso sobre outras religiões, a espiritualidade excessiva nada mais é que ego. A busca pelo conforto espiritual para si e para os seus.

Outro dia li o pensamento do astrofísico Hubert Reeves. “O homem é a mais insana das espécies. Ele venera a um Deus invisível e destrói a Natureza visível… sem se dar conta de que essa natureza que ele destrói é o próprio Deus invisível que ele venera”. Quando vamos aprender a pisar no chão e enfrentar os problemas desse mundinho cara a cara e sem a luz do invisível?

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite o seu comentário!
Por favor, entre com seu nome

quatro × 5 =