Fausto Bérzin: Um feito importante para a minha carreira acadêmica

O professor da FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba) Fausto Bérzin atingiu recentemente a expressiva marca de 100 teses sob sua orientação. O feito foi devidamente comemorado em fevereiro deste ano, em uma grande sessão solene. Bérzin é graduado em Odontologia pela Universidade Estadual de Campinas (1966), realizou Especialização em Anatomia pela Universidade de São Paulo (1970) e obteve o título de Doutor em Ciências, pela Faculdade de Odontologia de Piracicaba (1974). Docente da área de Anatomia da FOP/Unicamp desde 1968, aposentou-se em 2010, como professor Titular, e atualmente, é Professor Colaborador, mantendo suas atividades de pesquisa e orientação, em eletromiografia e neurociências, no Programa de Pós-Graduação em Biologia Buco-Dental

Pessoal e profissionalmente, o que significa atingir a expressiva marca de 100 teses/dissertações sob sua orientação?
Todo pesquisador tem o seu currículo Lattes na Plataforma do CNPq onde deve constar toda a sua vida acadêmica. Ao fazer um levantamento de atividades para um relatório, uma aluna que me ajudava disse: Professor, reparou que a próxima tese sua será a 100ª? Fiquei agradavelmente surpreso, pois, nunca imaginei chegar a esse número. Considero um feito importante para a minha carreira acadêmica que já dura mais de 50 anos. A experiência de orientar tantas pessoas nem sempre foi fácil.




Especialmente nos primeiros anos, quando elaborar uma tese era muito mais difícil do que atualmente. Não havia computador, internet, o acesso à bibliografia era difícil, os equipamentos de pesquisa eram rudimentares. No entanto, mesmo diante de tais dificuldades, bons trabalhos puderam ser desenvolvidos, sendo hoje, referências para muitos pesquisadores.

Uma centena, por certo, significa cem histórias. Destas, quais o senhor pode destacar entre as significativas em termos acadêmicos?
Inicialmente é importante considerar que a relevância acadêmica de um trabalho científico pode ser identificada por vários indicadores. Um deles é o número de citações que cada trabalho recebe da literatura científica. Outro indicador de importância são os prêmios e menções honrosas recebidos por esses trabalhos. Considero particularmente relevantes aqueles trabalhos que conseguem mudar paradigmas conceituais já consagrados na literatura. Para minha satisfação, ao longo dos anos, inúmeras pesquisas de teses e dissertações que tive a oportunidade de orientar foram muito citadas por outros pesquisadores e premiadas em diferentes eventos científicos consagrados. Destacaria aqueles que se mostraram relevantes para o avanço do conhecimento científico nas áreas de Eletromiografia e Neurociências. Posso citar, como exemplo, os estudos que descrevem a etiologia e os mecanismos da dor musculoesquelética. Da mesma forma considero importantes as pesquisas sobre a epidemiologia de diferentes quadros dolorosos e disfuncionais na população geral e seus impactos na vida das pessoas.

E quanto às teses que ficam na memória por questões sentimentais, por diversas naturezas. Quais destacaria?
A primeira tese orientada a gente nunca esquece. O trabalho versou sobre a rotação medial do braço. Outra tese ficou em minha memória como um grande feito: estudar a musculatura sublingual (suprahioidea) utilizando agulhas especiais para captar os potenciais elétricos dessa musculatura, técnica posteriormente muito utilizada por muitos pesquisadores. Lembro-me também da tese sobre a musculatura extrínseca do pavilhão auditivo ao descobrir que ela não é atrofiada e sim, age ativamente durante o sorriso. Conseguimos demonstrar que as orelhas também sorriem.

O senhor, hoje, está envolvido com orientação e pesquisa em eletromiografia e neurociências, no Programa de Pós-Graduação em Biologia Buco-Dental. O que de relevante está em curso nesta área que acompanha de perto?
Há uma revolução em curso sobre os conhecimentos da neurociências. Está havendo uma grande mudança de paradigmas conceituais nesta área. Pensava-se antigamente que a neurogênese terminava aos 6 ou 7 anos de idade. Sabe-se hoje que a plasticidade do sistema nervoso se estende por toda a vida. O cerebelo que tem um pequeno volume comparado a toda a massa do sistema nervoso, concentra 70% dos neurônios. E o córtex cerebral, tão festejado é pobre em nº de neurônios.

Minha homenagem ao prof.Lent que foi um dos que desenvolveu esse método de contagem de neurônios. Assim, o cerebelo não deve ter a função somente de equilíbrio do corpo. Deve ser responsável por muitas e muitas outras funções.

Tal revolução no conhecimento das neurociências ainda deve nos surpreender muito.

Como um dos responsáveis pela implantação de empresas fabricantes de equipamentos de eletromiografia no país, como o senhor vê o desenvolvimento e avanços da técnica no meio acadêmico e profissional do Brasil?
Infelizmente, muito decepcionado. Desde o início da EMG brasileira e durante muito anos as pesquisas eram feitas com equipamentos importados e de alto custo. Tal condição representava um grande obstáculo para o desenvolvimento de pesquisas na área. Era necessário desenvolver uma tecnologia nacional e de qualidade que facilitasse as pesquisas eletromiográficas brasileiras. Nessa época, tive a oportunidade de conhecer um engenheiro da Universidade de Uberlândia, Prof. Alcimar Barbosa Soares, especialista em sinais biológicos, que se dispôs a desenvolver um eletromiógrafo totalmente nacional. Consegui, por meio do CNPq e da Fapesp, verbas suficientes para dar andamento a esse projeto. Surgiu assim, o primeiro equipamento nacional, cuja tecnologia era considerada de ponta e seu custo era bem mais acessível do que os equipamentos importados. Baseado neste protótipo, foi criada uma indústria nacional de equipamentos eletromiográficos com grande sucesso o que incentivou outra grande empresa a também desenvolver e produzir equipamentos desse tipo. Apesar do sucesso essas duas companhias deixaram de fabricar os equipamentos pelas muitas dificuldades burocráticas bem conhecidas pelo empreendedor brasileiro. Hoje os pesquisadores têm importado equipamentos eletromiográficos de alto custo, em torno de US17.000,00.

Do que o senhor mais sente falta da docência? 
Sinto falta de ministrar aulas e conviver com meus alunos numa relação harmoniosa e próxima. A docência para mim sempre foi muito mais do que dar aulas. Sempre achei que o meu papel é de educador, de formar o aluno não apenas profissionalmente, mas, principalmente para a vida, ensiná-lo a pensar e internalizar valores que repercutirão no seu papel de cidadão.

E fora das salas de aula e dos trabalhos de orientação, como o senhor tem aproveitado a aposentadoria?
Tenho aproveitado meu tempo de aposentadoria para ler, ouvir música, assistir programas da Discovery History, curtir a literatura e meus filmes da Segunda Guerra Mundial, praticar aquarismo, trocar mensagens com meus ex-alunos e amigos. Gosto de cozinhar e relembrar com minha esposa de todas as viagens que fizemos pelo mundo. Tem sido um grande prazer para mim, ainda poder receber meus alunos em casa para orientações e visitas sociais. Devo lembrar ainda da minha grande paixão que é curtir a minha neta Eliza que, infelizmente, mora na Europa.

O senhor dedicou muitas décadas à FOP. O que poderia falar da relação do senhor com a faculdade?
Quando retornei do meu estágio em São Paulo, em, 1970 a FOP tinha ganho um terreno da Esalq. Após concorrência pública, um projeto já estava pronto. Como possuía alguma experiência em construção por ter trabalhado com meu pai, pedi para ver as plantas. Logo a primeira me chamou a atenção por apresentar uma depressão no terreno característica de córrego de água e passagem de aguas fluviais. Perguntei sobre a planta de canalização. Não havia. E assim foi com outros problemas que surgiram. Por fim, levado pelo Diretor, fui conversar com o Reitor e mostrei os problemas. O projeto inteiro foi refeito aproveitando alguma parte já construída. Fui nomeado assessor de construção para acompanhar a execução da obra da FOP. Terminada a obra e já com uma arritmia cardíaca de presente, continuei por mais 10 anos como responsável pela área física da FOP, o que atrasou tremendamente a minha carreira acadêmica científica. Após deixar o cargo, descobri um circuito de TV fechado ainda na caixa. Resgatei-o e acabei produzindo uma serie de vídeos de ensino sobre esqueleto cefálico que até hoje pode ser vista no YouTube. Além disso, consegui da Kellog’s Foundation financiamento de um estúdio portátil completo de TV, muito utilizado na faculdade. Nunca deixei de participar e colaborar em todos os eventos da FOP desde os eventos acadêmicos, culturais e políticos. Sempre adotei uma postura neutra em relação aos vários grupos políticos. Por mais de 25 anos coordenei a aplicação do Vestibular Nacional da Unicamp.

Ao longo dos anos fui responsável pelo plantio de muitas árvores no Campus da faculdade. Minha ultima contribuição foi presidir a Comissão dos 50 anos de fundação da FOP, ocasião em que plantamos 50 árvores brasileiras, uma para cada ano da FOP. Os festejos culminaram no Teatro Municipal de Piracicaba com a Orquestra Sinfônica da UNICAMP onde homenageamos os precursores da FOP desde o saudoso Dr Losso Netto até o Prof. Liberalli.

O senhor também se ocupa, hoje, de atividades politico-sociais. Pode comentar um pouco sobre elas?
Sempre fui muito ativo na parte político social, embora não sendo comunista nem esquerdista. Expulso do colegial em Rio Claro por promover greve e passeata no ensino médio por melhorias no ensino, mudei para Piracicaba. Fui aceito no Colégio Piracicabano mediante o compromisso de não fazer política. Passei então a fazer teatro e escrever peças históricas para as alunas da antiga Escola Normal, hoje, Pedagogia. Entrei na Faculdade de Odontologia. Fui cassado pelo Golpe Militar e o Centro Acadêmico lacrado. Organizei um Coral com os alunos da FOP e saíamos fazer serenata todos em cima de um caminhão para a namorada de quem fosse sorteado. Convidado para ser monitor de Anatomia e futuro professor, fiquei quieto politicamente por um bom tempo.

Voltando à Piracicaba, após meu estágio de 3 anos na Faculdade de Medicina da USP, voltei a meter-me em política. Desta vez, coordenando campanhas eleitorais para prefeito.

Por fim, fui eleito presidente da Comissão Suprapartidária Pró Diretas Já e organizei passeatas e comícios contra a ditadura. Dentro da Academia, sempre estive envolvido em eventos políticos, embora nunca tenha sido candidato a nada. Talvez, por isso, conquistei a confiança da instituição em diferentes grupos políticos.

Sempre estive envolvido em atividades ecológicas. Duas experiências foram relevantes para mim. Uma delas foi a criação da chamada Operação Gota D’Agua, ocorrida há mais de 40 anos. Quando era presidente do grupo Escoteiro organizei uma campanha para reflorestar a margem direita do Rio Piracicaba, situada entra o Engenho central e a ponte do Morato. Foram plantadas 1.000 mudas de arvores frutíferas brasileiras que podem ser vistas até hoje na Rua do Porto. Outra experiência da qual me orgulho foi a iniciativa de criar uma Estação de Tratamento de Esgoto na FOP, já na época de sua construção pela qual fui responsável e que funciona até hoje.

Hoje, vivemos diante da pandemia de covid-19. Como a odontologia pode ajudar no combate ao vírus?
A odontologia clínica sempre foi uma profissão que procurou atender muitos aspectos ligados à biossegurança. Pode ajudar na identificação de casos suspeitos, na veiculação de informações adequadas sobre o vírus para pacientes e equipe de saúde, na educação ligada à Biossegurança de modo geral.

Erick Tedesco