“Faz escuro mas eu canto”

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Os mais antigos, muitos de nós não nos lembramos de ter vivido tempos assim tão angustiantes. Há dor demais. Místicos diriam forças ruins, todas elas, terem-se organizado para desafiar a humanidade. Ou para nos alertar. A essa conjunção de sofrimentos, o povo brasileiro vê somar-se o desatino da irresponsabilidade governamental, de loucuras ideológicas. Mas há, porém, que resistir. Mesmo por ser tudo o que nos resta.

São tempos de trevas. E, por isso mesmo, busco luzes naquele de quem elas jorravam com abundância: Thiago de Mello. Thiago, o sábio, o preferido das musas; Thiago, alma de passarinho que chegou aos 95 anos. A juventude foi-me marcada por sua obra prima, universalmente reconhecida: “Os estatutos do homem.” E que maravilhoso seria se – especialmente nesta tão depressiva época – os nossos jovens fossem a ela apresentados, uma bíblia de esperança, fonte de reanimação.

Permito-me um parêntese. Mais um. Conhecer e ter estado próximo de Thiago de Mello foi uma das dádivas de minha vida profissional e pessoal. Aconteceu-me o privilégio de entrevistá-lo quando ele se recolheu em Itatiba, ao lado de sua jovem amada, Aparecida. Fui atingido por um golpe de luz. Lá estava ele, todo de branco, cabelos prateados, à meia luz da saleta. Silencioso, mas sorrindo. Parecia um anjo adulto acolhedor. Envolvendo-nos, a magia de Mozart, vinda de um pequenino aparelho sobre a escrivaninha. Foi mágico.

Nestes tempos sombrios, penso nele, em Thiago de Mello. E, em especial, noutro de seus poemas inspiradores: “Faz escuro, mas eu canto.” Pois, nas aflitivas e desgastantes trevas destes tempos, um outro e breve canto fez-se ouvir na riqueza de uma só frase: “Eu sou gay”. E a declaração do governador gaúcho, Eduardo Leite, despertou o Brasil de seu torpor, da quase desesperada ansiedade a que fomos levados. “Eu sou gay!” – tão poderoso em sua simplicidade, tão digno em sua naturalidade, o canto de Eduardo Leite envolveu o país. Em meio a tantos ódios, a medos, a violências, a crueldades de mandatários ignorantes, a fala do jovem político despertou o fundamental esquecido: somos humanos, somos gente.

O canto encantou, sim, o país. Pois encantar é deslumbrar, maravilhar, seduzir, arrebatar, como que na revelação de joia oculta. E estávamos desencantados, um Brasil de desencantos num tempo desencantador. A imprevista afirmação de Eduardo Leite iluminou trevas que teimam em ocultar a nossa verdade: eu sou branco, eu sou negro, eu sou homem, eu sou mulher, eu sou fraco, eu sou feio, eu sou bom, eu sou mau… Nossa humanidade tem sido vítima de estupidezes preconceituosas, de ódios insuportáveis, de malquereres propositais. E, enfim, de um projeto de vida que nos vai roubando alma, individualidade, sentimentos, solidariedade. Eduardo Leite disse apenas: “Respeitem-me como pessoa humana. Eu sou o que sou.” E eis o de que nos esquecêramos: cada um é aquilo que é.

O poema de Thiago de Mello tem a simplicidade da sabedoria. Os primeiros versos:

“Faz escuro mas eu canto/porque a manhã vai chegar./Vem ver comigo, companheiro/ a cor do mundo mudar.”

Fomos convidados a despertar. Faz escuro. Até o Sol parece empalidecer. Nossos olhos toldaram-se de lágrimas, de cansaço. O amanhã não é dom, mas busca. O Sol não se põe, nem se levanta. É o eterno girar da Terra que nos conduz à noite e ao dia. Não é verdade que tudo passa. Somos nós que passamos, que vamos passando. Cabe-nos, apenas, saber o que fazer da aventura de viver. Por isso, mesmo como requiém, cantar é preciso.

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