Flávia de Sá Molina: Esperança, ‘Dias Melhores Virão’

Foto: Amanda Vieira/JP

A superintendente da urgência e emergência da Saúde municipal, Flávia de Sá Molina, entrou para a história da cidade ao ser a segunda pessoa a receber a primeira dose da vacina contra a covid-19. Na linha de frente contra a doença, a médica tem enfrentado de cabeça em pé desafios diários para dar suporte aos demais profissionais e garantir o melhor tratamento para os pacientes.

Logo após tomar a vacina, em 21 de janeiro, Flávia lembrou das dificuldades que toda a equipe da linha de frente enfrentou durante o ano passado, perdendo vários ‘guerreiros’, e abordou a sensação angústia de todos ao ver os casos aumentarem entre o fim de 2020 e o começo de 2021. Sendo assim, vê a vacina como a esperança para que todos nós tenhamos dias melhores.

Baiana nascida em Ilhéus (BA), Flávia vive em Piracicaba desde 2008 e em 2018 lembra que teve a honra de se tornar “cidadã piracicabana”. O título – aprovado por unanimidade – foi entregue pela Câmara de Vereadores de Piracicaba em 26 de outubro daquele ano, com autoria do então vereador Paulo Serra pela dedicação da médica à cidade, onde sente-se em casa.

Ao receber o título de “cidadã piracicabana”, Flávia foi identificada na homenagem como uma pessoa de garra, resolutiva, competente e dedicada.

Na ocasião, foram evidenciadas melhorias que a médica implantou no sistema de saúde do município, que otimizaram o atendimento, segundo o então secretário municipal de saúde, Pedro Mello. Sua atuação adotando protocolos para atendimentos de pacientes vítimas de infarto ou AVC também foi lembrada pelo vereador autor da homenagem.

Filha e neta de médicos, Flávia conta que desconhece outra profissão que lhe traria tantas realizações. Ela é formada em medicina pela Universidade Iguaçu, no Rio de Janeiro, com especialização em pediatria. Logo que se formou em 2008 já começou sua atuação em Piracicaba. Após longa trajetória profissional passando pela saúde da família, UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e na atenção básica, hoje, além de superintendente da urgência e emergência, a médica também é coordenadora geral do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e da unidade respiratória UPA-1, a UPA do Piracicamirim, onde fica o Centro de Triagem do Coronavírus.

Mãe do Lucca Molina, de 16 anos, e do Matteo Molina, de 5 anos, a família é o porto seguro de Flávia, onde encontra força e coragem para enfrentar todas as dificuldades. Com a vacina e a esperança de que dias melhores estão logo ali brilha, a médica não vê a hora de viajar para a Bahia e rever a família.

Você conhece mais sobre a médica Flávia de Sá Molina no Persona deste domingo (7).

Para começar, pode nos contar um pouco da sua formação, especialidade e carreira no município?
Sou formada em 2008 pela universidade Iguaçu, no Rio de Janeiro. Fiz pós-graduação em pediatria e comecei a trabalhar em Piracicaba como médica da família e na UPA-2 do Vila Cristina, onde me tornei diretora técnica. Trabalhei por dois anos na atenção básica e depois fiquei apenas na urgência e emergência. Há 10 anos comecei a trabalhar no Samu/central de vagas. Depois do triste acontecimento no Samu [morte de médicos, sendo que um era coordenador da central de vagas municipal] fui chamada para assumir a central de vagas, depois a superintendência, coordenação geral do Samu e por último a nossa unidade respiratória UPA-1.

Agora um pouquinho sobre a vida pessoal. Você é casada? Tem filhos?
Sou divorciada. Fui casada por 16 anos com quem tive meus dois filhos. Lucca Molina, 16 anos, e Matteo Molina, 5 anos.

O que a família significa para você?
Sem eles eu nada seria! Por eles eu me tornei uma mulher corajosa e batalhadora.

Quais têm sido seus maiores desafios como superintendente da urgência e emergência do município em meio à pandemia?
Manter o trabalho em equipe, dar suporte aos profissionais, fechar escala, a busca incessante de leitos, agilizar os exames. Na verdade, cada dia temos uma batalha a ser vencida!

Com mais de dez anos em Piracicaba, o que a cidade representa para você hoje?
Piracicaba é a minha cidade, um lugar que me acolheu com braços abertos.

Por que você escolheu medicina e o que a profissão representa para você?
Sou filha e neta de médicos, desde pequena falava que queria ser médica, ajudar o próximo. Eu amo o que faço, não consigo nem imaginar outra profissão que me trouxesse tantas realizações.

Como fica o emocional em meio a essa crise sanitária?
Já chorei, surtei, deprimi, mas sempre “saí e acreditei”, porque uma coisa que não me falta é fé e coragem para trabalhar.

Chegou a perder amigos nesse caminho que já dura quase 11 meses?
Perdi dois grandes amigos de trabalho e da vida: Dr José Henrique e Renan Prado.

Agora falando sobre a vacina, esperança por dias melhores. Qual foi a sensação de ser a segunda pessoa a receber a primeira dose da vacina contra a covid-19? Ansiosa para a segunda dose?
Na verdade fui pega de surpresa, mas ser vacinada me deixou bastante emocionada. Chorei a tarde porque, para nós que estamos ali todos os dias, o significado é de esperança e que dias melhores virão e que logo isso vai passar. Não tive nenhum efeito colateral e preparada para a segunda dose!

Além da vacina, quais momentos te deixou marcas durante a pandemia?
Entrar nas UTIs de covid lotadas de pacientes, ver os meus colegas exaustos de tanto trabalhar. Mas aprendi a aproveitar cada segundo ao lado dos meus filhos e valorizar os pequenos detalhes.

Mesmo com a vacina, sabemos que ainda temos uma grande caminhada pela frente. Qual é sua mensagem para os piracicabanos nesse momento – em especial sobre o aumento de casos e óbitos?
O aumento de casos tem vários fatores: o aumento da testagem, as praias, as aglomerações, a falta do uso da máscara, enfim, o relaxamento da população. Pacientes de risco são expostos por eles mesmos por descumprimento das regras ou por jovens que frequentam festinhas e aglomerações e acabam sendo o vetor para o domicílio que existe um idoso, acamado que na teoria estaria protegido em seu lar.

Qual é o seu maior sonho assim que a pandemia terminar?
É viajar com meus filhos para a Bahia e visitar minha família!

Qual é a lição que a pandemia te ensinou?
Dar valor aos pequenos momentos e falar todos os dias para os meus filhos o quanto eu os amo e o quanto são importantes para mim.

Falando em lições, você atua com cuidados paliativos na Santa Casa de Piracicaba e teve um momento muito bonito em que a equipe realizou o sonho de um paciente que era de ir à praia. Pode nos contar um pouco sobre essa história?
Temos uma equipe empenhada em implantar cuidados paliativos na Santa Casa de Piracicaba, o enfermeiro Devandro, a psicóloga Paula, a doutora Astrid e eu somos parte dessa equipe. O paciente em questão fazia tratamento de câncer de pulmão, porém o estágio de sua doença já se encaixava em cuidados paliativos. Acolhemos a família durante três meses diariamente até sua partida. Durante as consultas, surgiu a pergunta do que ele gostaria de fazer se fosse possível, e ele disse que seria ver o mar. Ele foi caminhoneiro durante a vida, percorrendo todo o litoral, e esse seria o desejo dele de se despedir do mar. Alinhamos com a família e a equipe para levá-lo até a praia durante o dia e retornar à noite. No dia não pude acompanhá-los, mas foi emocionante. Chegamos bem cedinho e ele já estava todo arrumado de chapéu e ansioso para ir logo, acho que nunca o vi tão feliz! E assim foram os dias dele aqui, festa de aniversário, ele era o nosso príncipe e até hoje ele e a família dele moram em nossos corações.

O que essa ação significou para você?
Na verdade, a gente para e pensa o que levamos dessa vida. O sonho do Luciano… Se perguntar para mim agora qual é o meu sonho, é ficar viva para poder cuidar dos meus filhos. Luciano já não tinha mais essa proposta. Não uma data e uma hora marcada, mas ele tinha uma doença grave e avançada. Então ele sabia que cuidar dos filhos dele por muito tempo ele não poderia fazer essa programação. Então a gente conseguiu trazer para ele uma aceitação e fazer ele buscar o que ia trazer felicidade para ele naquele momento. Então que a vida é curta, que a gente tem que aproveitar cada momento ao lado de quem a gente ama. Isso não só com o trabalho de pacientes em paliatividade, mas na pandemia também.

Sua rotina profissional é bem intensa, mas e no tempo livre o que faz para relaxar?
Tempo livre está difícil, trabalho todos os dias, amo o meu trabalho, sou extremamente exigente e fico sempre em contato com a equipe da unidade respiratória diuturnamente. Mas, quando consigo uma folguinha, adoro ficar em casa, tomar uma cervejinha, ouvir música e dançar.

Andressa Mota

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite o seu comentário!
Por favor, entre com seu nome

dois × 5 =