Uma mistura de Amy Winehouse com Frida Kahlo, meio Madonna, meio Marina Lima, batida com Clarice Lispector, Hilda Hilst e com um “q” de Audrey Hepburn, Amélie Poulain e Elvira. São tantas as tentativas de defini-la, que chega a ser patético. Fernanda Young é uma daquelas pessoas que você não sabe bem a fonte de onde bebe. Mesmo que chupinhando ideias daqui e dali, seu trabalho sempre foi original e criativo.

Há um ano, esse ser “freak”, nada convencional, com humor ácido e poesia sutil nos deixou. Se ela foi para muitos uma ídola da literatura — autora de sensacionais obras como Vergonha dos Pés, O Efeito Urano, A Louca Debaixo Do Branco e Pós-F — , para outros foi musa da adolescência ou quem não se lembra da super artística capa da Playboy de 2009? Edição que, aliás, eu guardo no meu baú de preciosidades.

Há quem goste dela sem nem ao menos saber seu nome. Isso porque ela foi responsável, junto com seu marido, Alexandre Machado, pelo roteiro de produções de sucesso como Os Normais, Os Aspones, O Sistema, Shippados, entre outras.

Eu, porém, conheci e me apaixonei por aquela figura via frequências televisivas. Era um aprendiz das coisas da vida, do amor, do sexo, da poesia, da dor e da vã filosofia. Era abril de 2002 quando eu, lá com meus 16 anos, sentei pela primeira vez em frente à televisão, em uma noite de quarta-feira, para assistir ao programa Saia Justa, exibido no canal GNT. E não parei mais!

Além de Fernanda, integravam o programa Mônica Waldvogel, Marisa Orth e Rita Lee. Durante dois anos eu fui fascinado pelo Saia Justa, gravando semanalmente as edições que guardo até hoje em fitas VHS.

Durante a atração, as meninas falavam absolutamente de tudo e eu sempre prestava muita atenção quando FY falava. Tresloucada, com opiniões que tiravam a gente do prumo ou nos deixava pensando por dias.

Hoje em dia, às vezes, pego-me vendo horas e horas de Saia Justa em cenas que ainda estão no Youtube e na minha memória. É hilário! A risada de Fernanda com as piadas de Rita ou as viagens filosóficas sobre assuntos diversos, de Freud a Madonna, a opinião sinceramente suicida ou brilhantemente embasada. Fernanda seria, de fato, uma cancelada em dias atuais.

Certa vez, ela disse que todos os velhos eram filhos da p*. O que ela quis dizer foi que não é porque ficou velha que a pessoa não foi ruim durante a fase adulta. Muita gente não entendeu e ela apanhou da mídia, de associações, de outros programas TV.

Mas ela não tava nem aí. “Eu posso fazer o que eu quiser da minha vida, porque eu já queimei o meu filme já faz tanto tempo”, disse ela certa vez. E eu saía de lá pensando a mesma coisa. E daí passar vergonha? Pra que me preocupar com o que os outros vão dizer? A liberdade de FY me deixava meio liberto também.

O Saia Justa foi minha aula de educação comportamental até 2004, quando já beirava os 20 anos. Foi sensacional para formação de meu caráter, com certeza. Aprendi muito com as mina, em especial com FY e seu humor mais ácido que a baba do Alien.

Fernanda era uma feroz inimiga dos caretas, de gente sem caráter, sem arte, sem sensibilidade, hipócritas. Essencialmente, uma arqui inimiga dos cafonas. Em seu último texto ela definiu mais do que bem o que se tornou a sociedade brasileira, regurgitando sem dó:

“O cafona quer ser autoridade, para poder dar carteiradas. Quer vencer, para ver o outro perder. Quer ser convidado, para cuspir no prato. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos.”

FY, que falta você faz.

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