Frio e fome: relatos sobre a realidade da pobreza pandêmica

José Bonifácio: alta concentração de gente miserável. Foto: Alessandro Maschio/JP

A angústia de mães abandonadas por seus parceiros; o apoio de voluntários para amenizar a situação

Fome e frio. Eles são muitos e estão em condição de rua ou em barracos sem mobília, apenas um colchão no chão de terra batida. Em um diálogo com o grupo de ajuda, chega um pedido de um saco de arroz e um litro de leite. O relato continua informando que duas pessoas da família estão com dengue. Um deles, o marido, está de cama há dois dias. Caso a pessoa não tenha o que comer, a internação é certa.

No meio urbano, há um sinal de distribuição de cobertores no principal foco da população em situação de rua, na praça José Bonifácio, Centro, 20 cobertores somem como um pingo de água no deserto. Numa ida à padaria na região da Carlos Botelho, dois a três homens te interpelam pedindo comida. À noite, durante a distribuição de marmitas nas praças, um implorar por um par de meias. Famílias com 11 pessoas morando no mesmo barraco, oito delas são crianças. Nada para comer!

Este é o dia a dia do Ajudas do Bem Piracicaba. Este grupo de amigos, que começou com dois casais em 2014 distribuindo marmitas à população em situação de rua. Mas a pandemia de covid-19 chegou e a pobreza se alastrou. Entretanto, o grupo cresceu e hoje conta com 17 membros. Diante de tantos pedidos de ajuda, o trabalho nas ruas também teve que ceder espaço às necessidades das favelas. Desemprego geral e famílias abandonadas: mães se veem sozinhas com os filhos porque os pais simplesmente somem.

Todos esses relatos são de um dos fundadores do Ajudas do Bem, Felipe Cypriano, 37. Composto por pessoas simples, mas muito bem organizadas, elas atendem uma rede de gente muito carente e população em situação de rua. Tudo é feito por iniciativa própria, não recebem fundos governamentais. Também não há espaço físico para estocar doações. O que entra tem de sair no mesmo dia. A correria é grande, mas o trabalho é feito com amor. Somente neste ano, o grupo já entregou mais de 100 cestas básicas.

Talvez, o Ajudas do Bem tenha conseguido muito mais do que a Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social). Conforme dados do Seas (Serviço Especializado em Abordagem Social) da Pasta, no ano passado, houve 1.194 contatos dos assistentes com as pessoas em situação de rua. Considerando quase 100 abordagens ao mês em 2021, o último dado, de abril deste ano, a secretaria contabilizou 114. E abordar não é garantia de conseguir oferecer um serviço social. Também muitos recusam abrigo: das 33 vagas oferecidas em albergue, somente seis tem procura.

CAMPANHA
O Jornal de Piracicaba promove, a partir de amanhã (segunda-feira), arrecadação de itens para o Ajudas do Bem Piracicaba. Há dois pontos de coleta, na sede do jornal (avenida Luciano Guidotti, 2.525) e na filial (rua Boa Morte, 1.403). Para contemplar população em situação de rua e pessoas periféricas, o Ajudas do Bem pede a doação em três categorias: vestuário (cobertor, blusa de frio, meias), (alimento produtos de cesta básica não-perecível) e higiene (fraldas, escova de dentes, pasta de dente, sabonete, barbeador, pente, papel higiênico, toalha).

Cristiane Bonin
[email protected]

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