Fundador da Cozinha Solidária Axé: uma ação para todos compreenderem que a umbanda é a caridade

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Foto: Claudinho Coradini/JP

Ronaldo Almeida Sangô, 38, é um piracicabano ‘da gema’, filho da dona Madalena e do Zé Baiano. “Meu pai trabalhou a vida toda como caminhoneiro, puxava boi. Minha mãe sempre trabalhou em casa de família, como diarista e doméstica mensal. Nasci na antiga clinica Amalfi. Estudei minha vida toda na escola Olivia Bianco, no Jaraguá, onde eu nasci, na rua Luiz Arzolla. Conclui meus estudos no Jorge Coury.” Ele teve contato com a umbanda por uma tia carnal, Terezinha Silveira, adorava as festas de Cosme e Damião e acabou se apaixonando pela umbanda, para nunca mais abandonar a religião. Hoje, ele é sacerdote da Comunidade de Umbanda Sr. Zé Moreno das Almas.

Mas o olhar pelo próximo chama a atenção para fora do seu terreiro. Fundador da Cozinha Solidária Axé, ele reúne sua comunidade e boas almas para cozinhar e dar comida aos que passam fome – veja nas respostas como ajudar. Também abre seu centro religioso às pessoas que procuram por um passe, mas, mais que isso, querem um ouvido para escutá-las e boas palavras para seguir na luta. Em tempos de individualismo, de perseguições religiosas, preconceitos, o pai de santo fala sobre esses assuntos que afligem a vida e a humanidade.

1) O seu terreiro Comunidade de Umbanda Sr. Zé Moreno das Almas foi criado quando? Conte sobre perfil de atuação e atividades religiosas realizadas e quais atendimentos à população são feitos atualmente – incluindo dias e horários.

A Comunidade de Umbanda Sr. Moreno das Almas funciona desde o dia 26 de agosto de 2007. Os atendimentos públicos são feitos as segundas-feiras nas sessões de umbanda, a partir das 20h, na rua Moacir Martins, 360, Jardim Piazza Itália. Esse atendimento à população, no sentido religioso, acontece, pois, muitos precisam de uma palavra, alguém que possa lhe ouvir, ainda mais nesses momentos de pandemia. Por conta da Cozinha Solidária, a gente acaba recebendo outros tipos de doações, como agasalhos, roupas, calçados, onde fazemos uma triagem para fazer a doação a quem realmente precisa.

2) Agora sobre a Cozinha Solidária Axé, como surgiu a ideia e como e quando foi criada?

No começo desse ano, em uma das sessões de Umbanda a Vó Chica, um espírito de uma Preta Velha muito querida que abaixa no terreiro uma ou duas vezes por ano, pediu para que os filhos da casa organizasse uma entrega de comida a quem precisa, não somente por conta desse momento de pandemia, mas por conta da fome que assola muita gente, e desde esse dia começamos a nos organizar, pois, como a própria Vó Chica disse, fazer o bem não é só vestir roupa branca e ir pro terreiro, precisávamos fazer mais. No começo, apenas os filhos de santos participavam. Cada um doava algo. Daí fomos abrindo e hoje temos não somente os filhos da Comunidade de Umbanda, mas voluntários, inclusive de outras religiões que ajudam, seja nas doações, no preparo da comida. São nossos parceiros o Super Varejão Dois Irmãos, A Florista, Saideiras Moda e Decor, e Local Silvestre, Restaurante 45, Varejão Piazza Itália e a deputada estadual Professora Bebel (PT).

3) Esse projeto de socorro alimentar aos menos favorecidos começou com quantas pessoas e com quantas conta atualmente? Qual é a maior demanda nesta questão de mão de obra e como vocês estão lidando com a questão do covid-19 no momento da cozinha? Há a possibilidade de a população em geral ajudar cozinhando? Se sim, oriente como.

A intenção é continuar com o projeto mesmo depois da pandemia, porém, dependemos de doações. Ainda vamos conseguir fazer uma ou mais Cozinha Solidária por semana, mas precisamos de ajuda. No momento, estamos conseguindo fazer duas vezes por mês, nossa maior demanda maior é o alimento. Qualquer pessoa pode nos ajudar, seja com alimentos, seja cozinhando, temos duas responsáveis pela cozinha, a Samira e Juliana. Elas comandam a cozinha e os temperos, mas ajuda sempre é bem-vinda.

4) Quais grupos ou bairros foram atendidos no início deste projeto e como está essa distribuição atualmente? Quais são as suas expectativas quanto à ampliação da Cozinha Solidária de Axé? E, mais uma vez, como a população pode ajudar em relação à cozinha com foco em segurança alimentar?

Se não estiver enganado, estamos na 12ª edição, já atendemos a Comunidade Renascer, Caiubi, Vida Nova 1234, Novo Horizonte, Alvorada. Não temos a preocupação em quantidade, e sim em qualidade. Se as pessoas virem nossas ações, irão notar que estamos preocupados com o valor nutricional da comida. Pensamos em fazer um cardápio e que não estrague rápido sem refrigeração, isso porque muita gente não tem geladeira para guardar a comida. Nós vamos até a comunidade, fazemos uma triagem de quantas marmitas precisam e fazemos a quantidade exata.

5) Há outras iniciativas da Comunidade de Umbanda Sr. Zé Moreno para auxílio às famílias periféricas e carentes, como doação de roupa? Se sim, informe quais canais a população pode auxiliar com doações.

Com o projeto da Cozinha Solidária, várias pessoas nos ligam querendo doar roupas, agasalhos. A gente aceita, separa e faz a doação para as famílias. Inclusive outros terceiros de Matriz Africana se organizam e fazem as suas doações. Quem quiser doar é só entrar em contato que algum voluntário passa retirar (19 98258-8692).

6) Qual é a mensagem do seu orixá nesses tempos atuais de pandemia, de recessão econômica, pobreza e fome?

Que precisamos pensar mais no ser humano neste momento tão difícil. Vai ser muito difícil voltarmos a normalidade de três anos atrás.

7) Entre sua infância e fase adulta, você passou anos identificando-se com religiões afro-brasileiras. O que mudou de lá para cá em relação ao preconceito da sociedade tradicional. É possível dizer que religiões mais comuns – como catolicismo – passou a entender e respeitar outras devoções porque tem acesso à informação ou não?

O preconceito ainda existe, parece ser menos por conta que hoje a informação chega muito rápido, então, qualquer ato de preconceito você tem a possibilidade de denunciar rápido. Mas o preconceito contra a Umbanda e Candomblé ainda existe por parte de todas as religiões. Eu já ouvi de várias pessoas, que se nos tirássemos o Axé do nome do projeto, receberíamos mais doações. O Axé vai continuar, é Cozinha Solidária de Axé!!!

8) A umbanda é considerada uma religião brasileira por excelência com um sincretismo combinando o catolicismo, a tradição dos orixás africanos e os espíritos de origem indígena. O que as pessoas não sabem sobre a sua religião que aproximaria qualquer um dela?

A Umbanda é aberta a qualquer pessoa, independente da sua classe social ou religiosa. A umbanda é acolhedora, muitas vezes as pessoas estão em um terreiro e não sabem, mas ela tem os seus fundamentos, seus atos fúnebres, batismo, casamentos. Na Umbanda não há um livro sagrado, mas ela tem seus próprios fundamentos.

9) Por definição, a umbanda é uma religião monoteísta e afro-brasileira, surgida em 1908, fundada por Zélio Fernandino de Moraes. Baseia-se em três 3 conceitos fundamentais: luz, caridade e amor. A palavra umbanda pertence ao vocabulário quimbundo, de Angola, e quer dizer arte de curar. Como você aplica isso na sua rotina? As pessoas, de uma forma geral, atualmente estão precisando de cura? Por quê?

A Umbanda, na verdade, vem antes de Zélio, que serviu apenas para colocar a Umbanda na sociedade branca no começo do século passado. Ela tem a raiz nos negros que foram escravizados, hoje a principal bandeira da Umbanda é a caridade. Mais do que nunca é o acolhimento dos mais fracos, dos negros, que cada vez sofrem mais, a Comunidade LGBTQIA+, as mulheres que sofrem violência. Essa é a Umbanda acolhedora, é acolher quem precisa.

10) Como militante desde jovem na área da política pelo bem-estar social, qual é sua análise do Brasil hoje? Você acredita que a sociedade está mais preparada para entender sobre o peso político como principal influência no dia a dia de cada um ou ainda estamos nos comportando politicamente como uma torcida de futebol? Como melhorar este debate em prol do bem comum e, principalmente, dos menos favorecidos economicamente e das pessoas que sofrem diferentes tipos de preconceitos?

Quando somos de movimentos sociais, movimentos democráticos, e somos de uma religião de matriz africana, muita coisa temos que jogar fora: ser sempre contra violência, ódio, discriminação, o pré-conceito. Um outro mundo é possível!

11) Com quem gostaria de se encontrar espiritualmente e por quê? O que diria a um grande líder religioso como o Papa Francisco ou o pastor Silas Malafaia?

Sobre me encontrar espiritualmente, gostaria muito que fosse com a minha mãe. Sobre o Papa Francisco, ele tem a minha admiração, parece que foi o único Papa a se desfazer de bens da Igreja Católica para ajudar os pobres. Já o Silas Malafaia, se eu me encontrar com ele, mudo de calçada!

Cristiane Bonin
[email protected]

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