Guido e os sons da terra

Foto: Pexels

Adolpho Queiroz é Secretário Municipal de Cultura

No próximo sábado, 26, em Live conduzida pelo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, mesmo na pandemia, vou lançar meu livro de número 51. No começo de 2019, o amigo e advogado Pedro Maurano me convidou para um café em seu escritório e entre uma talagada e outra, foi se entusiasmando em contar a história do seu sogro, o meu também amigo e conhecido, Dr. Guido Ranzani. Em princípio não sabia onde ele queria chegar, mas logo veio o convite, “você aceita escrever a biografia do Dr. Guido, vai ser minha homenagem e da nossa família a ele”. Nem o deixeiterminar o convite e respondi igualmente entusiasmado, “eu topo”.
Delineamos o projeto, onde pesquisar as origens do nosso biografado em Santa Rosa do Viterbo, passando pelos estudos que fez para formar-se em Engenharia Agronômica aqui em Piracicaba, pela ESALQ. A evolução dos seus sonhos para tornar-se professor da casa até virar catedrático e os desafios profissionais que encontrou numa área de estudos até então pouco explorada pelos agricolões. O estudo dos solos.
Então o novo Guido virou mateiro, saia com excursões aos sábados pelos arredores da cidade, com bandos de alunos e uma cesta com ovos fritos por dona Giselda, esposa, mãe de seus quatro filhos, grande amor de sua vida inteira. Não contente com o que via para além das barrancas do Rio Piracicaba, conseguiu uma bolsa de estudos para fazer o doutorado nos Estados Unidos, levou na bagagem os quatro filhos ainda pequenos e passou alguns anos por lá, aprendendo tudo que podia sobre solos, com os grandes mestres da época.
Na volta, ajudou a desmatar parte de onde está ainda hoje o restaurante universitário e ajudou a pensar, construir e arrumar recursos para construir o primeiro prédio para o Departamento de Solos, projetado pelo amigo Walter Naime. Com o prédio e a bagagem adquirida, vieram os livros, palestras, envolvimento com sociedades científicas, realização de congressos locais, regionais e internacionais sobre o tema. E um gosto cada vez mais crescente pelo tema.
Numa das histórias mais saborosas que colecionei no período da pesquisa está uma singular, que me foi remetida via zap pelo ex aluno e amigo Luís Ramos de Lima, o Limão, amigo do Sud e igualmente agricolão. Ele não participou dessa aula, mas costumava lembrar-se da história contada por um colega. Dr Guido fazia da chamada inicial aos alunos, uma verdadeira aula. Chamava o aluno pelo nome, pedia que ele identificasse a cidade de origem e, com isso feito, passava a comentar sobre as características principais do solo da cidade de onde vinha cada aluno. Para surpresa, espanto e diversidade do conhecimento que possuía. Na mesma história, o Limão lembrava também que Dr. Guido colhia pequenos frascos com amostras de terras, passava entre os dedos e “ouvia uma música” deste ato, informando propriedades físico-químicas de cada amostra, com seus tons e semitons, algo inimaginável, menos para Guido Ranzani.
Trabalhou por quase 60 anos entre a Esalq, Inpa- Manaus, Embrapa-Brasília e Universidade de Tocantins-Palmas. Construiu uma família maravilhosa, a partir de quatro filhos, genros, netos, bisnetos. Italiano marrento, não abria mão da família ao seu lado nos almoços dominicais. E eram imperdoáveis os “nãos” em festas natalinas, onde saboreava bom vinho (espremia as garrafas até a última gota) e contava histórias igualmente saborosas, que vocês só vão conhecer se lerem o livro, que será disponibilizado impresso pelo IHGP e também em modelo digital.

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