Habemus vaccinum!

A semana começou com um raio de luz sobre a escuridão: ‘habemus vaccinum’. Ou melhor, já tínhamos a vacina, mas domingo, ela finalmente foi desencarcerada, libertando-se de suas amarras para se tornar o centro das atenções em todo o Brasil, em uma tarde que entrou para a história da ciência. Mônica Calazans, enfermeira, negra, hipertensa, obesa e diabética nos deu uma lição de patriotismo e de esperança: “não sou cobaia, não tenham medo”.

Medo? Da ciência? Medo do conhecimento admirável e do brilhantismo de um instituto centenário como o Butantan? Medo do talento dos cientistas de Oxford, uma instituição cujos registros apontam ter iniciado suas atividades há quase mil anos? Medo da Fiocruz, a fundação que carrega o honroso nome do sanitarista Oswaldo Cruz, uma das maiores referências científicas do nosso país? Não. Não tenho medo. Tenho orgulho deste país. Tenho orgulho da ciência, que começa ainda na escola, com uma educação inclusiva, plural e livre de ideologias negacionistas que desconstroem uma sociedade cada vez mais dividida pelo ódio, pelo fanatismo e pela ambição política.

Estamos na lanterna, nessa corrida mundial contra a morte, mas temos um trunfo, que é a expertise construída pelo SUS, Sistema Único de Saúde. Um conhecimento que se desenvolveu pelas memoráveis campanhas de vacinação em massa contra doenças que vitimaram centenas de milhares de pessoas por malária, febre amarela, poliomielite, sarampo, tétano, varíola, e pasmem, até gripe.

O fato, é que agora temos a primeira vacina. Não importa de onde veio ou quem a trouxe. O que interessa, é que esse antígeno representa esperança, a possibilidade de viver, de respirar e ter os nossos conosco, pelo tempo justo que lhes foi atribuído.

Meu sentimento é de apreensão e expectativa. Apreensão, porque o populismo e o medo, podem levar os que não têm a coragem e a responsabilidade de assumir que não há tratamento precoce contra a Covid-19 a cometer equívocos e a desperdiçar recursos públicos que poderiam ser investidos em mais respiradores, mais leitos e mais oxigênio. Quanto à expectativa, posso afirmar que ela vem da alma, de uma certeza que a ciência vencerá o ceticismo, imunizando até mesmo os que hoje se recusam a ser vacinados.

Sou grata, mesmo sem saber quando será a minha vez de receber a vacina da vida. Sou grata aos cientistas, que, extraordinariamente, em um período de menos de um ano, conseguiram extrair do seu conhecimento, o antídoto dessa doença maldita, injusta e implacável. Sou grata a todos os profissionais de saúde que não mediram esforços para ajudar o próximo, para lutar pela vida, muitas vezes, colocando a sua em risco para salvar desconhecidos. Sou grata pela solidariedade internacional com nossos irmãos da Amazônia. Sou grata pela compreensão de muitos, que ainda acreditam no Brasil como nação e que conseguem relevar a insanidade da alma de quem dá as costas à ciência, sabe-se lá por qual razão.

Sim, Habemus vaccinum! Que ela se multiplique, e chegue aos recantos mais longínquos desse país, sem discriminação, preconceito, divisão nem restrições burocráticas, porque, acima dos interesses políticos e ideológicos a vida deve prevalecer. E, como nos lembra a frase do portal do Cemitério da Saudade: “Omnes similus sumus”, somos todos iguais.

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