“In Extremis” (40): O marido e a marida

A pesada cruz literária, comecei a carregá-la ainda nos meus treze anos. Meus coleguinhas escolheram-me para orador da turma, na conclusão do então chamado curso ginasial. Confirmado pela diretoria, tremi. Pois o discurso, eu mesmo – aquela criança – teria que escrevê-lo, submetendo-o à aprovação do rigoroso e severo Padre Conselheiro. Eram, ainda, os 1950. E ninguém imaginava que, ao final da década, aconteceria o Concílio Vaticano II, trazendo a “Primavera da Igreja”.

Foram diversos dias de escrever e reescrever. Quando, porém, concluí, acreditei ter escrito o mais belo discurso da história humana. Senti-me um herói. Levei a minha obra-prima ao Conselheiro e fiquei à espera de seu veredicto. Passaram-se os dias e o insuportável padre – que, depois, se me tornou grande amigo – não se manifestava. A poucos dias da formatura, atrevi-me a ir a seu encontro e lhe indaguei do meu fantástico trabalho. Ele me olhou, olhar fulminante, falou: “Discurso? Você acha que isso é discurso?” E atirou minha obra-prima num cestinho de lixo.

Não direi da indignação que ferveu na alma da criança. E ela, em vez de desanimar, resistiu, mesmo com o coração em frangalhos. Fez outro discurso e o sucesso foi compensador. O padre, no entanto, lhe dera uma lição inesquecível: “Se você for discursar ou escrever, lembre-se de que sempre haverá pessoas que sabem mais do que você.” E isso acho que se transformou numa neurose. Pois o sentido de cada palavra, seu significado, sua origem tornaram-se, para mim e até hoje, o martírio da luta para corresponder àqueles que sabem mais do que eu. E que são muitos e muitos. Escrever é um atrevimento insuportável.

Ora, a língua é construída por alterações, desde que o povo as aceite. Há, atualmente, quase que um desprezo em relação às palavras, à palavra. O mundo está – penso que poucas vezes como atualmente – em ebulição. Parece que nada mais é, que tudo era. Foi, passou. Mas muitas coisas estão retornando a ser. Até mesmo palavras. Quando o novo surge ou quando se ressuscita o antigo, é imprescindível nomeá-lo, dar-lhe nome. Ora, se estamos numa transformação avassaladora em relação a gênero, as uniões conjugais, afetivas, sexuais – como designar essa nova realidade?

Com a legalização e universalização das uniões homossexuais, a palavra marido, por exemplo, começa a alterar-se em seu significado tido como tradicional. Casados, um homem refere-se a seu companheiro como marido. Até recentemente, falava-se em marido e mulher. “Este é meu marido” – diz um homem em relação ao outro. E os mais antigos, tradicionalistas estranham, ficam perplexos e, até mesmo, irritados.

Sei que “em briga de nhambu, jacu não pia”. Permito-me, no entanto, tentar colaborar para evitar atritos. Tenho um tesouro ao qual recorro assiduamente: o “Magnum Lexicum Latinum et Lusitanum”. É um dicionário de latim-português, editado em 1863. E, para sossego ou intranquilidade de muitos eis a revelação: segundo Cícero, a palavra “maritus” (marido) se refere a homem casado. Não especifica com quem. E, segundo Ovídio, “marita” (marida) é a mulher casada. Também não interessa com quem. Logo, um homem é, realmente, marido de outro marido. E mulher, a marida de outra marida.

Descubro, assim que nós, crianças de minha geração, profetizamos ao cantar: “hóme cum hóme; muié cum muié. Faca sem ponta, galinha sem pé”. Portanto, nada de novo sob a luz do Sol… Talvez, a dificuldade esteja nos casais heterossexuais. Que – quando não divorciados – ainda são tidos como marido e mulher. É a vida.

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