“In Extremis” (53) – Quem pariu Mateus que o embale”

É verdade, plena verdade: “o lobo perde o pelo, mas não perde o vício”.

Digo-o por mim. Confirmo-o. Faço-o por estar próximo, daqui a poucos dias, de meus 80 anos. E – insisto – com eles, 64 de jornalismo, de atividades culturais. E a angústia – própria do fazer jornalístico – não passou. Ou, melhor: não consegui, ainda, deixá-la passar. Feito um masoquista, alimento-a. Um viciado que se acovarda diante da possibilidade de não mais alimentar-se de seu vício.

Quando, porém, se chega ao momento da opção totalizante, da escolha decisiva, o amor pela vida e o instinto de sobrevivência prevalecem. Impõem-se. A mim, chegou-me esse momento. Acho que finalmente. Não por meu desejo pessoal, mas pela simples alternativa, esse e/ou das coisas incontornáveis: continuar ou perecer. Pois – se ainda me sobram energia, lucidez – forças já me faltam. E, se tolo já fui muitas vezes, tolices fatais não posso e nem devo tentar cometê-las. Não se abusa da generosidade dos céus.

Não resisto a essa “era dos Bolsonaros”. Compreendo, porém, o que Jung nos revelou sobre sincronicidade, as coincidências significativas nas quais fatos e acontecimentos ocorrem simultaneamente, relacionando-se entre si. O que ocorre aqui ocorre, também e em outras partes do mundo, simultaneamente. E não apenas a tragédia do vírus assassino. Pois há a hecatombe de valores econômicos, sociais, políticos, ideológicos, religiosos. A isso, tem-se chamado “tempestade perfeita”, com ventos, raios, trovoadas, destruições. Dois governantes, em especial, despontaram para manipular essa tragédia macabra: Trump e Bolsonaro – o primeiro, como oficial maior; o segundo, como obediente servidor.

Ora, não sou eu – obscuro escrevinhador interiorano – quem o diz. Dizem-no as mentes mais lúcidas do mundo, as explosões populares que se rebelam após o estopim ser aceso. É hora de, com honestidade, reconhecer os responsáveis pela hecatombe política. Hora de abandonar as desculpas esfarrapadas. Hora, pois, de admitir que, no Brasil, Bolsonaro não tem culpa. Pois ele é, sempre foi, essa figura tosca que aí está. Os que já o conhecíamos temíamos pelo que aconteceria. Mas aconteceu.

De nada adianta, agora, muitos admitirem o que chamam de equívoco: “A gente não sabia que o homem era isso que aí está.” Não sabiam? Pior ainda, mais irresponsável ainda. Quem daria um cheque em branco a um desconhecido? Quem entregaria um filho seu à guarda de um estranho? Ninguém, com um mínimo de lucidez e bom senso. Por que, então, votar num candidato desconhecido? Aconteceu.

Há que se compreender com firmeza: da mesma maneira como a nobreza obriga (“noblesse oblige), a ignorância também obriga. A ignorância compromete. Se, numa sociedade democrática não se pode alegar desconhecimento da lei como justificativa, a ignorância também não justifica determinadas decisões. Recorro a Kant:

“A ignorância é INCULPÁVEL nas coisas cujo conhecimento ultrapassa o horizonte comum. Mas é CULPÁVEL nas coisas cujo saber é necessário e atingível.”

A ignorância diante desse vírus amedrontador é INCULPÁVEL, pois ele “ultrapassa o horizonte comum”, até mesmo da ciência. Mas a ignorância numa decisiva escolha eleitoral é, sim, CULPÁVEL, pois, ao assumir o seu direito de votar, é “necessário e atingível o saber” do que se irá fazer.

Confesso, pois, não mais ter forças para participar dessa nova realidade. Nem me sinto obrigado a isso. É o que mo dizem razão, alma, coração. Como já nos ensinaram os antigos, “quem pariu Mateus que o embale”.

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