“In Extremis” (56) – Os miseráveis

O livro “Os Miseráveis” (Les Misérables) – um dos clássicos de Victor Hugo – traz-nos o retrato vivo e angustiante das carências da alma humana. Não se trata, tão somente, do amargo relato da indigência material. Ao lado dela, Hugo registra, também, a indigência moral e espiritual de uma sociedade.

Miséria é ausência, falta, carência, indigência, penúria, pobreza em seus extremos. E ela continua existindo mesmo num século, o nosso, em que as conquistas científicas e tecnológicas poderiam resolver muitos grandes problemas da humanidade. Qual lógica perversa permitir-nos-ia admitir que populações inteiras sofram o martírio da fome e do desabrigo? É humano assistir, passivamente, ao terror de uma criança vítima da miséria da subnutrição?

Nesses tempos assustadores da pandemia, creio não haver quem se tenha alheado dessa tragédia universal. E, de alguma forma, feito perguntas a si mesmo, ou apenas uma delas, talvez a mais angustiante: por que? E, seguramente, devemos ainda estar mais aturdidos. Pois, não há respostas e sobram-nos porquês. E, como sombras, fomos levados, de alguma forma, ao universo do mistério, do segredo, do além de nós – o mistério do desconhecido.

Tenho, porém, para mim, que – além das perguntas e dos temores – deveríamos atentar para o desnudamento dos seres humanos, para a revelação daquilo que somos e daquilo a que pertencemos. Com exceção de guerras e de conflitos coletivos, parece não mais haver dúvidas de estarmos enfrentando um momento histórico de profundas inflexões, de mudanças ainda imprevisíveis. Não deveríamos, porém – antes de prever ou de imaginar o que virá pela frente – tentar entender o que a tragédia desnudou, o que estamos sendo e fazendo, o mundo que havíamos criado a partir de ganâncias e individualismos?

De minha parte – se me vejo tentado a supor seja, a pandemia, algo de ordem sobrenatural – reflito a respeito da teoria dos maniqueístas, a de vivermos sob um conflito cósmico entre forças do bem e do mal, da Luz e das Trevas. Se assim fosse, quem haverá de vencer? E mais ainda: quais são as forças da Luz, quais as das Trevas? Pois – nesses meses agônicos – temos testemunhado maravilhas de solidariedade, de companheirismo, de fraternidade, pessoas e grupos sociais que se revelam de uma humanidade encantadora. Mas, por outro lado – e quase inacreditavelmente – assaltam-nos a face e as garras de seres e agrupamentos indignos de se considerarem humanos, tal a miserabilidade de suas ações. Numa peça teatral, estaríamos presenciando o confronto não declarado entre anjos e demônios.

A dolorosa pandemia já nos revela a terrível paisagem de milhões – podendo chegar a biliões! – de homens, mulheres e crianças miseráveis. Vítimas da miséria material, da miséria social, da miséria da injustiça e da crueldade. Desgraçadamente, essa multidão de sofridos miseráveis é a grande vítima dos miseráveis de amor, miseráveis de solidariedade, miseráveis de fraternidade – os que veem lucros e vantagens na dor e no sofrimento alheios. São abutres que se alimentam das lágrimas, dos cadáveres e do desespero da gente desprotegida e injustiçada.

São miseráveis as vítimas da miséria material. Mas, miseráveis, também, são governantes que priorizam a economia à dignidade humana; os que fraudam ministérios públicos, como os da saúde, da educação. Miseráveis, os que sonegam informações. E os que deturpam a verdade. Miseráveis os causadores da miséria da fome – miseráveis morais, miseráveis espirituais, miseráveis de amor, miseráveis em humanidade.