“In Extremis” (58) – “Ele não passou vontade…”

Mariana, a mãe de meus filhos, costumava dizer que, quando eu morresse, escreveria no túmulo do maridinho: “Ele não passou vontade”. Mas não pôde fazê-lo. Pois ela morreu antes de mim. Se o fizesse, porém, não estaria, não, de todo certa. Eis que – embora muito do que desejei consegui fazê-lo – vontade, vontades, ainda as tenho. E muitas. Afinal de contas, a criatura humana é, antes de mais nada, um ser desejante.

Ainda atualmente, por exemplo, desejo voltar a tocar piano, mesmo que, apenas, “tocar de ouvido”. Isso porque nunca consegui aprender música, a ler uma partitura. Aos seis anos de idade, minha irmã Marlene, a Leninha – pianista exímia – quis e tentou ensinar-me. Mas, às primeiras lições, lá me ia, eu, “tocando de ouvido”. Rapidamente, ela desistiu: “Você nunca irá aprender”. E não aprendi. Mas tocar, toquei.

Estou, ainda, com vontade crescente de aprender matemática. Até que eu ia bem. Mas um professor horroroso – por um erro que tive – me deu o castigo de “copiar 100 vezes o enunciado do teorema de Pitágoras”. Foi minha ruína. O bloqueio tornou-se total, digo que absoluto. Agora, porém, quero reconciliar-me com ela. E até cheguei a telefonar ao meu grande amigo, professor e matemático Ricardo Abe, pretendendo me desse algumas aulas. Fui despachado imediatamente: “Agora, com essa idade? Não dá mais.” Entristeci. Mas me resta a vontade – quase insana, aliás – de aperfeiçoar-me no grego. E aprender aramaico, por que não?

E os desejos, as vontades irrealizadas? No amor, ainda agora eu me lembro – com um estranho calor no coração – do meu quase infinito pela Ava Gardner, então considerada “o mais belo animal do mundo”. Ao mesmo tempo que a amava, odiei o Frank Sinatra, com quem ela se casara. Como pudera fazê-lo, casar-se com aquele homem miudinho se eu, aos meus 15 anos, estava inteiramente pronto para servi-la? E a Caroline, princesa de Mônaco – meu amor casto, doce, idílico? Por que não soube, ela, nunca, de minha existência? A Mariana – que dizia eu não passar vontade – sabia desse meu desmedido amor pela Caroline de Mônaco. E zombava de mim…

Vontade, vontades… Tive-as, tenho-as. Mais do que isso, foram e são ardentes sonhos meus: ter um cavalo como o Trigger, do Roy Rogers. Ou o Phantom, do Cavaleiro Solitário. E – um desejo que também não passa – ter um cão collie, igualzinho à Lassie. Quanto ao cavalo, até cheguei a me satisfazer na adolescência, quando, na fazenda de um tio muito querido, Flávio, ele me reservou um cavalo no qual montei ao longo de diversas férias. Mas fiz besteira, mais uma. Meu tio me disse ser um manga-larga e eu pensei fosse o nome de minha adorável montaria. Pelos campos, no galope, eu gritava: “Aiôô, Manga Larga” – como se fosse o nome dele. Jamais fui ouvido.

A Lassie, até que eu poderia ter uma. Mas foram-me penosas demais as condições impostas para levar um collie para casa. Mariana, cordata, amorável, me estimulava: “Ótimo, querido. Você irá realizar seu sonho e estou a seu lado, concordo. Vá em frente. Mas vamos combinar que, com aqueles pelos sem fim, você é que dará banho, que escovará a sua tão querida Lassie”. Foi chantagem demais. Desisti. Mas a vontade não passou.

Vontade de ir a Cuba, de alisar as barbas de Fidel e de Che; vontade de esganar o primeiro namoradinho de cada filha; vontade de voltar a comer “carne de Sol” num boteco inesquecível de Recife; de fazer seresta para um inexistente novo amor… E essa quase desesperadora vontade de – na atual pandemia – abraçar e beijar meus filhos e netos.