Confidenciei, ao amigo antigo e querido, temor ou espanto diante da sensação de estar tornando-me um homem místico. Ou de, apenas, começar a enlouquecer. Seja, no entanto o que for, há um quê de deslumbramento, de ação de graças. Chego, até mesmo, a pensar em véspera de despedida, de celebração. Mas não desejo esteja assim sendo. Ainda, não. Pois tão repousante é, que me parece, enfim, um diálogo com a alma.

O ser humano pode ter – vez que outra – a visão, a percepção do Inefável. Sei disso, já o conheci em outras circunstâncias. Agora, porém, não se trata de tal maravilhamento. Sinto-o como encontro, comunhão, novidade. É leveza que me apequena acho que à minha mais próxima dimensão de pessoa humana. Uma pequenez que não sabe a humilhação. Ao contrário. Parece despertar para o reconhecimento – acima de ser e de estar vivo – do privilégio de ter nascido.

Comecei a perceber – sei lá como dizer com palavras – mudanças no que sempre me fora corriqueiro, tão parte do cotidiano. Ainda a tempo, porém, senti ter havido uma estranha mudança interior. E ela se me refletia no olhar. E na audição. As mesmas coisas, passei a vê-las diferentemente; os mesmos sons, a ouvi-los com mais autenticidade. E não mais me soavam apenas como límpida poesia aquelas tão tocantes palavras: “Olhai os lírios dos campos; olhai as avezinhas do céu”. Eram, sempre foram um convite. Que tão somente admirei. Mas que olhei e não vi.

A pandemia levou multidões ao recolhimento. E eu já estava recolhido. Há muitos, muitos anos. Ruídos, porém, ainda me acompanhavam sem que eu o percebesse. Ressoavam por dentro, como que escondidos no pedacinho do coração que, mais sentidamente, latejava. Não os ouvia. Sentia-os. E eram sons que pesavam, como que abafando a maviosidade da presença de Schumann, de Schubert, de Mozart daqueles que me pareciam companheiros da solidão espontânea, escolhida. Sinfonias, sonatas, cantatas, cantochões tornavam-se mais nítidos como se, antes, estivessem poluídos. De acreditar de, antes, ter sido, eu, melófilo, amante da música, eis que percebi, talvez, estar sofrendo de melomania, enlouquecido por ela. Dela.

Na realidade, deixei-me fascinar pela experiência de viver no meu tempo, esse estar “in extremis”. Apenas não sei se isso é verdadeiro, se sou eu a criá-lo como meu mundo desejado. Às vezes, porém, sinto estar recebendo-o como algo mais. De lambujem, talvez. É quando, então, sinto a existência, em mim, de algo além do corpo. Ora, sei, obviamente, ter um corpo, estar nele. Sinto-o a todo momento. Sinto-o, ainda, nas emoções, nos sentimentos, em desejos. Mas, adoravelmente, parece-me descobrir não ser tudo o que há em mim. Há mais. E quero acreditar seja aquilo que, na Antiguidade, filósofos, pensadores chamavam de a “não-coisa”. Seres humanos, haveríamos de tê-la em nós? Quero crer nisso. Espero.

O amor é uma não-coisa. Saudade, também. E lembranças e recordações e alegrias e tristezas. Tudo, enfim – arrisco-me a dizer – o que lateja no coração, acelerando-lhe o ritmo ou fazendo-o repousar, como que adormecido. E condoo-me de mim. Mas, condoendo-me, apaziguo-me. Pois, é, realmente, preciso ser assim. Devagarinho, tal e qual a semente acolhida pela terra. Sempre esteve lá, quase não o percebemos: “Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança.”

A razão, sinto ter, ela, pedido para descansar. E a não-coisa de tal maneira se faz intensa que começo a sentir-me, também eu, um não-coisa. Aquilo que era, que pensei fosse, agora não é mais. Fascinante, sim.

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