“In Extremis” (62) – Pranto no Cântico dos Cânticos

“Annus horribilis”. Todos os deuses do Olimpo, irados, parecem ter-se unido para punir os homens. É a cólera divina. Ou, então, os demônios, divertindo-se, resolveram atazanar as criaturas humanas. Tem que ser algo assim.

Enquanto isso, sinto começar a entender seja, a alma humana, hereditariamente transmitida pela semente geradora. Ao fecundar o óvulo fértil, ela, com a carne, já carrega a alma de quem ganhará a vida. Jung, de certa maneira, insinuava algo assim ao discorrer sobre o desenvolvimento progressivo da alma. E isso envolve o próprio mundo, “anima mundi”.

Percebo-o, especialmente agora, assistindo ao horror que, mais uma vez, agoniza o Líbano. Sou atingido não apenas por solidariedade humana. Vivo o luto. Na carne, no sangue, na alma, em tudo que herdei de meus ancestrais. Pois, vinda de meus avós paternos, corre-me, pelas veias, também a seiva libanesa. E ela chora no inconformismo diante da brutal estultícia humana armazenando aqueles explosivos letais. Tanta estupidez, até quando?

Carregamos, sim, relicários espirituais. Sem o perceber, sem mesmo atentarmos para o que eles significam em nossas vidas. E quão poderosos são, suplantando barreiras geográficas e temporais. Nem tempo, nem espaço conseguem eliminá-los. De repente, quando menos se espera, essa herança desabrocha como se recém-nascida. Em mim – e para mim – ela se revela tão vívida que parece palpável. Com cheiro, com sabor, com sonoridade.

Por vezes sem conto, vi-me solto naqueles espaços narrados por meus pais, que os ouviram de meus avós, que os vivenciaram e também deles souberam por histórias, por contos, lendas, fábulas. São imortais histórias das carochinhas. Ao ouvi-las contadas com tanta emoção, todas elas pareceram-me reais. E, então, cavalguei em cavalos brancos por vastidões ensolaradas, descansei em oásis, vi as miríades de estrelas e a Lua crescente prateando desertos, aspirei com embriaguez o perfume dos cedros do Líbano, extasiei-me com as Mil e Uma Noites – perambulei como beduíno por Ceca e Meca, conduzido por minha alma também oriental. Era um mundo só, uma só gente, sem guerras e sem conflitos, a Pérsia, o Iraque, a Síria, o Líbano, a Turquia –Teerã, Bagdá, Damasco, Beirute, a Istambul que fora Bizâncio, Constantinopla…

Meu pai me contava fantasias das maravilhas de seu imaginário, dos delírios que ouvira. Para ele, as ruas da milenar e síria Damasco eram feitas com barras de ouro. E as neves das montanhas de Beirute eram tão doces que pareciam flocos de algodão açucarado. Nunca duvidei disso. Como jamais duvidei – tendo-as como verdadeiras e reais – das aventuras de Sinbad, de Ali Babá. Ora, por que acreditar na estúpida realidade do dia a dia, se é possível viver-se um sonhado mundo tão belo?

Aprendi a acreditar no sonho. A crer que, sonhando muitos sonhos, podem, eles, vir a acontecer. Do Líbano, um homem da mais límpida alma árabe confirmou-me como tudo é possível: Khalil Gibran. Minha alma ainda voa em seus escritos, nas maravilhas de “O Profeta”. E, olhando o céu da noite, sou capaz de dizer: “Vejo a Lua guiando o rebanho das estrelas, levando-as a pastar noite a dentro…”

Esse Líbano ainda outra vez martirizado é eterno. Tão eterno quanto o fascinante erotismo do Cântico dos Cânticos, no qual Salomão e a Sulamita expressam a sua paixão jamais conhecida por outros amantes. O Líbano está neles: o perfume dos cedros, o encantamento, o mais propício lugar para se viver o amor. Agora, há pranto no Cântico dos Cânticos. Outra vez.