In Extremis (67) – … e surgiu nova história

Depois da pandemia nos anos 2020, aconteceu o seguinte:

“O Criador não desistiu de seu projeto universal. Mas resolveu reformulá-lo. Não por considerar ter errado, mas pela certeza de o ser humano – sua principal criação – não ter compreendido quase nada do que ele fizera. Então, recomeçou pelo começo, sabendo que recomeçar é começar do começo.

Chamou Eva e Adão, já criados anteriormente. E explicou-lhes não precisarem desobedecer novamente. Bastava, apenas, que entendessem. Ora, da primeira vez, nada fora proibido, nem mesmo que comessem o fruto da Árvore do Conhecimento. Ele avisou, apenas, que o comessem quando já adultos, amadurecidos para a grande surpresa. Pois, se o fizessem infantilmente, não saberiam o que fazer com o resultado: comer do fruto da Árvore iria dar outros frutos. E eles, Eva e Adão, não estavam, ainda, preparados para educar, ensinar e, nem mesmo, para eles próprios saborearem o que haviam experimentado.

O Criador, então, explicou direitinho como poderiam se tornar humanos mais decentes, mais dignos de todas aquelas maravilhas. Foi quando, pela primeira vez, surgiu a lição: “Olhem os lírios dos campos, as avezinhas dos céus…” E as cascatas, as borboletas, as matas, a limpidez dos céus, o milagre da chuva, a luz do Sol, a meia-luz produzida pela Lua, como alcoviteira de amores e de cochichos.

Ao novo primeiro casal, foi ensinado que tudo lhe seria permitido, se realizado com amor, com solidariedade, com respeito. E enfatizou: respeitar não apenas os humanos, uns aos outros; respeitar tudo o que existe, o que foi criado e o que haveria de ser criação do próprio homem. Não se tratava mais daquele exigência anterior, quase impossível de ser cumprida – Eva e Adão haviam entendido mal – de “amar uns aos outros incondicionalmente; de amar o inimigo como a si mesmo”. Não, não tinha sido isso. Ao primeiro casal antigo, fora ensinado que eles deveriam respeitar, apenas respeitar, aquele “não fazer ao outro o que não deseja que lhe seja feito; fazer ao outro o que desejaria fosse feito para si mesmo.” Tinha sido, antes da pandemia, tão difícil entender esse simples segredo da convivência, da coexistência?

O Criador, preocupado em explicar da maneira mais fácil de ser entendida, orientou os novos Eva e Adão: “Vocês irão fazer tolices, não tenham dúvida. Viver, tornar-se humano é uma experiência difícil, eu sei disso. É preciso ir aprendendo aos poucos. E você, Adão, quando errar não precisa se esconder, bobinho. Eu sei onde você vai estar. Errou? Aprenda, não repita. E não se esqueça de ser, essa, uma outra oportunidade aqui na Terra. Como os animais, como as plantas, como tudo o que é vivo – você também terá um fim. Aqui. O que virá depois eu não conto, pois é meu segredo. Aproveitem – você e Eva – isso tudo que haverão de ver ao longo de sua curta existência. Nunca pensem, novamente, sejam donos disso ou daquilo. No máximo, vocês serão condôminos, hóspedes, visitantes. Não estraguem, portanto, a Criação, pois outros virão depois de vocês, não revelo se serão vocês mesmos…”

Eva quis dar um palpite, mas Adão – sem repetir a bobagem que fizera antes, mandando-a calar-se – falou, gentilmente: “Calma, meu amor. Vamos conversar antes e, depois, a gente vê quem estava com a razão, se você, se o Criador”.

E a nova história começou. Mas o Criador não contou que, após a nova lua de mel, viriam filhos, netos, sobrinhos, tios, sogra e sogro, genros e noras, vizinhos, parentes, amigos, patrões, empregados, padres, pastores, políticos…