Inculta e Bela

Quando fui chamado pelo secretário geral do MRE, à época, à institucionalização da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP, trabalho que me possibilitou juntar-me a notáveis escritores de toda parte, de quem pude ouvir expectativas variadas ao novo grupo de países acirandados em torno de uma língua que é nossa, por minha conta e risco, saí, por onde andei, a ouvir a voz da gente do lugar, para, com isso, conhecer a voz de Deus. Tinha comigo que não encontraria, em cada pedaço de chão colonizado, a mesma língua falada em Portugal. Não deu outra. Encontrei um português amorenado, carregado de graça e beleza.
Quanto aprendi. Uns e outros me permitiam sentir, na essência, a última flor do Lácio, inculta e bela, como escreveu, carregado de sentido e de verdade, em soneto rebuscado, o parnasiano poeta.
Muitas estórias, poderia contar. Junto destas, outras de cunho popular, impregnadas de tradição e história. Faltaria espaço para tanto. Haverá quem diga que trato de faxinar lembranças para deixar, no texto, o pó recolhido. Gosto disto. Passo-lhe os olhos, entrelaçando o que me conta uma e outra estória, entrelaçando tudo.
Quem, dentre tantos que me leem aqui, não gostaria de ouvir Cesária Évora, a dama de pés descalços, como os franceses a chamavam sempre que se apresentava nos palcos de Paris, repetir de modo incessante, o que achava de Cabo Verde, seu pequeno país.
Quem, em seu português miscigenado saberá que “la no céu bo é um estrela/ Ki catá brilha/ Li na mar bô é um areia/ Ki catá moja/ Espaiote nesse munde fora/ Sô rotcha e mar/ Terra pobre chei di amor/ Tem morna tem coladera/ Terra sabe chei di amor/ Tem batuco tem funaná. Oi tonte sodade sodade sodade/ Oi tonte sodade sodade sem fim”.
“Sodade, sodade, sodade que sentia des mia terra San Nic’lau”, canta num sotaque aportuguesado, num português mestiço, deixando ver o quanto o poema assim rudemente vestido, diz de seus sentimentos e emoções.
Agora é lembrar-me da emoção e da beleza disto e contar nesta conversa nossa para entreter o leitor, dando ao texto maquiagem discreta que beira à ficção. Se entender que sim, chamá-lo às redes sociais para confirmar na belíssima voz de cantora nascida do mesmo tronco, capaz de entoar, de modo sublime, versos como estes.
O dia da Língua Portuguesa, mudado recentemente pela CPLP, e mensagem recebida é que me fizeram lembrar isso. Uma conversa de apresentador da televisão portuguesa com Gregório Duvivier (por sorte, ele, genial sempre), semelhante a uma a que fui convidado quando, vivendo lá, tratei de defender o nosso jeito brasileiro de falar português, certeiro, doce, agradável, me estimulou ainda mais a conversa de hoje.
Há divergências, bem sei, mas a língua falada aqui, falada lá e acolá vem carregada de malemolência, de ritmo, de molejo, dum não sei quê brasileiro, Se aqui, “na tonga da mironga do cabuletê” é possível, imagine em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné, Timor Leste, quanto não se enriquece a língua.
Cida Bilac, uma de minhas professoras, sem dúvida a que me indicou caminhos para ir além do que supunha e imaginava, a melhor lembrança escolar que tenho, enquanto vivi em Lisboa, ao chamar-me ao telefone, de cara me perguntava como era tratado pela pátria mãe. E ria ao ouvir-me dizer ser bem tratado pela madrasta, sentir-me bem, apesar de, por vezes, entender que a adoção fora indevida, já que alguns irmãos portugueses por vezes se incomodavam com presença tupiniquim e caipira e se incomodavam com o jeito largado de falar português.
Caio Fernando Abreu, em deliciosa crônica publicada na Folha de São Paulo, pelos noventa, pouco antes de sua morte, veio a meu encontro, revelando igual sensação. Estivemos por lá na mesma época, ele, descansando em casa de amigos, eu, a serviço de meu país.
Amava Lisboa, a velha cidade, e outros tantos lugares que pude encontrar, a partir dela, no país e no velho continente. Quanto andei por aqueles espaços, pensando a história de antes, de muito antes de salgar-se o mar com lágrimas de Portugal. Se valeu? Tudo vale a pena para quem consegue vencer as pedras do caminho tentado a ir além do Bojador e muito além da dor.
Em outros países, por onde andei, falantes do português, já não tão castiço quanto desejam os portugueses, encontrei vocábulos e construções linguísticas inusitadas e me embebedava delas.
Havia, para além disso, em especial nos países africanos, o jeito próprio de casar o português com as línguas que falam, criando, com isso, expressões inesquecíveis. Desejava saber o sentido em que usavam. Bom sentir que o português castiço se permitiu temperar com sabores outros, distintos e distantes do original, mesmo que Portugal reclame disto.
Minha pátria, minha língua. Em cada país, por herança, o povo, senhor absoluto dela.

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