Covid-19: insegurança e ansiedade marcam moradores ainda em isolamento

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No domingo, 25 de outubro, diferentes moradores de Piracicaba completaram mais de sete meses em isolamento social. São mais de 210 dias longe de familiares e de amigos. Mais de 5 mil horas longe de atividades prazerosas, que faziam parte da rotina de cada um deles. Mais de 300 mil minutos trancados em casa. O medo de se contaminar com o novo coronavírus ou de contribuir para a propagação da doença são os principais motivos para que essas pessoas permaneçam isoladas, apesar da crescente flexibilização e retomada de atividades no Estado de São Paulo.

A aposentada Daise Judite Zaratin da Cruz, 82 anos, afirma que não sai de casa de jeito nenhum. Ela sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) há sete anos e também padece de hipertensão e diabetes. “Antes da pandemia eu ainda saía um pouco, hoje o meu médico não libera nem uma volta no quarteirão”, afirma, destacando que essa situação mexe bastante com seu estado emocional. “Meus filhos só telefonam, não vêm em casa. Não vejo a hora disso tudo acabar”, desabafa.

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Trajetória do novo coronavírus: população está a cerca de 210 dias em isolamento social.

A psicóloga Silvia Helena Ferrero, 48 anos, também tem respeitado o isolamento. Ela e a filha, de 8 anos, apenas saem de casa para atividades essenciais, mantendo o distanciamento das demais pessoas, sempre usando máscaras. “Eu, que raramente tive insônia durante a vida, hoje tenho dificuldades para dormir, além de taquicardia noturna. Também acordo assustada e ando com medo de sair. Minha filha tem estado mais agitada, mais irritada e tem chorado com facilidade”.

O estudante Vinícius Paulo Ramos Alves, 22 anos, aluno do curso de Direito, é outro morador da cidade a seguir a quarentena rigorosamente. “Saio apenas quando realmente necessário: para ir ao mercado ou ao médico. Já tomava todo esse cuidado antes, mas me policio ainda mais depois do susto que minha família e eu levamos”, afirma. A mãe dele, moradora de Boituva, contraiu o novo coronavírus e ficou em estado grave numa UTI (Unidade de Terapia Intensiva). “Por sorte, o restante da família teve apenas sintomas leves. Eu vim para Piracicaba antes disso acontecer. Não sei como meu organismo teria reagido”, destaca o estudante, que tem histórico de hipertensão e arritmia. O isolamento forçado tem provocado ansiedade no estudante.

Para a infectologista Raquel Stucchi, pesquisadora da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, o isolamento prolongado pode levar a um quadro de depressão, de muita ansiedade e de medo. A psicóloga Natália Morandi, da rede de Hospitais São Camilo, de São Paulo, também aponta que o isolamento social desencadeou incertezas, inseguranças, assim como preocupações acerca da saúde individual e dos familiares. “Passamos a sentir solidão e tristeza. Ao estarmos privados da nossa rotina pessoal, profissional e familiar, desenvolvemos quadros de insônia, ansiedade, estresse intenso, depressão, entre outros transtornos mentais. Muitos que nunca tiveram questões emocionais significativas desenvolveram transtornos, enquanto outros que estavam estáveis ou em tratamento se desestabilizaram”, explicou.

RETOMADA DO CONVÍVIO

A pandemia e o consequente isolamento social atingiram as pessoas de forma diferentes, mas certamente afetaram a rotina todos. A psicóloga Elaine Mobilon Kühl, especialista em hipnoterapia e em terapia de casais, jovens e adultos, aponta que crianças foram privadas do convívio com amigos e professores; adolescentes foram obrigados a ficar longe das baladas; já os pais se tornaram mais temerosos, tanto em relação à doença, quanto ao possível desemprego e à dificuldade em sustentar a própria família. “Em todas as idades, sem exceção, observamos aumento do nível de ansiedade, estresse, sinais de irritabilidade, pânico e depressão. Este ano foi ‘tirado’ de todos nós”, afirma.

Para a psicóloga, respeitando o distanciamento e fazendo uso dos novos acessórios (máscara e álcool gel), as pessoas deveriam se permitir voltar ao convívio social. Ela aponta que os espaços públicos se adaptaram a esse novo momento e, por isso, sugere que as pessoas voltem a passear em parques, shoppings, assim como a visitar os pais e os avós. “Volte à missa ou ao culto. Saia para comer em algum restaurante. Vá ao cinema”, sugere.

Ana Carolina Leal
Especial para o JP

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