Isolamento social prejudicou a saúde emocional das crianças

Na volta às aulas, é necessário um diálogo claro com as crianças sobre essa “nova realidade” (Foto: Claudinho Coradini/JP)

Assim que as aulas foram suspensas, a assistente social Maria Helena de Melo Braz percebeu que o filho de 5 anos sentiu falta da rotina que levava na escola e com os colegas. O comportamento da criança mudou, ficou até mais triste. “Foi tirado tudo de uma vez, ele sempre frequentou desde um aninho e meio a escola, os amiguinhos, as atividades, as professoras, a referência da escola é muito importante”, diz.

A observação de Maria Helena não foi isolada, conforme apontam pesquisas, como a da Universidade de Bath, no Reino Unido, publicada no começo de junho, que constatou que as crianças e adolescentes tendem a vivenciar altos níveis de depressão e ansiedade depois de períodos de isolamento social ou “lockdown”. Já outra, realizada na província chinesa de Xianxim, com 320 crianças, aponta aumento na dependência dos pais, desatenção, preocupação, problemas de sono, falta de apetite, pesadelos e agitação.

Quem lembra dessas pesquisas ao analisar o comportamento das crianças com o isolamento social é o doutor em psicanálise e especialista em inteligência emocional, Júnior Ometto. “Não acredito que devemos entender a Escola apenas no âmbito da educação cognitiva, mas também na educação emocional”, comenta.

Esses e outros pontos devem ser considerados nas discussões sobre retomada das aulas presenciais, com a flexibilização da quarentena e a tomada de decisões pelos pais. Maria Helena, por exemplo, pondera que é necessário dar o próximo passo e “aprender a conviver com o vírus”, porém não tomou a decisão se vai ou não enviar o filho de 5 anos para a escola. Já decidiu que a menor, de 2 anos, não vai. Para sentir-se segura, precisa que os números de novos casos diminuam a cada dia.

“Não julgo mãe que queira ou precisa mandar. Meu marido segura as pontas e eu fico cuidando deles, mas tem gente que não tem as mesmas condições que eu. Precisa deixar com vizinho, com avó”, avalia.

Outra preocupação da mãe é quanto às crianças estarem preparadas ou não para seguir os protocolos de segurança, como o distanciamento e uso da máscara longe dos pais. De acordo com a pediatra Suzana Jagle, a partir dos 5 anos a criança compreende melhor as mudanças. “E aí é possível você estabelecer que é obrigatório o uso da máscara”, diz.

PAPEL DA ESCOLA
O papel da escola no desenvolvimento das crianças, conforme lembra Ometto, tem papel importante na socialização das crianças, sendo a fase inicial a mais importante, “pois dá todas as ferramentas para a criança se envolver em escolhas, projetos e atividades que serão imprescindíveis para seu futuro.

Visando a desigualdade do país, Suzana lembra ainda que a escola era a única fonte de uma alimentação balanceada para muitas crianças, comprometendo a nutrição delas. “As crianças que dependem da merenda escolar para ter acesso a uma alimentação de qualidade tiveram um impacto negativo muito grande com o isolamento social. Não digo nem tanto que a doença da covid-19 não teve esse impacto, mas o fato delas ficarem sem a merenda, isso sim foi um impacto negativo para as crianças.

DECISÃO
A covid-19 tem afetado em sua maioria os adultos, porém, como 60% das crianças são assintomáticas, elas podem transmitir o vírus sem saber. Assim, além da orientação sobre a máscara, higienização, distanciamento e não compartilhamento dos materiais, Suzana avalia que é preciso levar em consideração a saúde, emocional e financeira da família como um todo na tomada de decisão da volta às aulas.

Para o pediatra Antonio Ananias Filho, os cuidados com o ambiente também devem sr levados em consideração, tendo certeza de que haverá boa ventilação e higienização constante das salas, por exemplo, e que não haverá aglomeração.

O diálogo ainda também é fundamental, segundo Ometto. “Os pais devem orientar as crianças sobre as mudanças que estamos passando, porém, de uma forma leve, tranquila, sem assustá-las. Tudo de modo equilibrado, pois, alertar demais também pode causar travas nas crianças e prejudicar o retorno e o aprendizado”, comenta o psicólogo.

Andressa Mota