Jairo Ribeiro de Mattos, filho de Samuel Ribeiro de Mattos e Antônia Próspera, nasceu em Piracicaba no dia 29 de abril de 1931. Doutor em agronomia, empresário, escultor e dono de diversos outros atributos, sua história de vida está também entrelaçada a do Lar dos Velhinhos, primeira cidade geriátrica do Brasil. Jairo Mattos foi o fundador e é o atual presidente da entidade. Uma parcela desta vivência em comunhão foi repassada recentemente em “Anos de Minha Vida e a Cidade Geriátrica”, que Mattos lançou no último dia 26 de janeiro, numa edição bastante luxuosa que saiu via Icen (Instituto Cecílio Elias Netto). Ex-deputado federal, artista e amigo de muitos personagens icônicos da cidade e de todo o estado de São Paulo, ele é profundo conhecedor de diversos assuntos, de política à sociedade, de saúde à educação. Nesta entrevista, Mattos fala com paixão quando o tema é Lar dos Velhinhos, além de outras questões pertinentes a Piracicaba.

Como surgiu o convite para lançar o livro autobiográfico “Anos de Minha Vida e a Cidade Geriátrica”?
Estava escrevendo esse livro já há muito tempo e queria fazer uma edição bastante simples, branco e preto, com pouquíssimas ilustrações. No entanto, no decorrer do tempo, em conversa com o Cecílio Elias Netto e com a editora dele, eles me propuseram um livro como esse que saiu. Estudei e concordei. Fiquei muito contente, porque a aceitação do livro foi bastante grande. Todo mundo que leu um pouco, viu a apresentação, as figuras, ficou entusiasmado em adquiri-lo no dia do lançamento. Nesse dia foi a maior confirmação de que procedia fazer dessa maneira, porque é um livro revista que conta a minha história e conta a história da cidade geriátrica sem normas rígidas no assunto: entra num assunto, passa para outro, mas tudo relativo à minha vida e sobre Lar dos Velhinhos. As pessoas que estão lendo o livro gostam dos artigos, da apresentação e acredito que a repercussão será ainda maior.

O livro contempla tudo o que o senhor gostaria de contar sobre você e o Lar dos Velhinhos, e que caberia num segundo momento?
Não dava para colocar tudo, porque a medida que o tempo vai passando, vou lembrando de mais fatos que caberiam no livro. Conversando com um amigo, o doutor Olívio Nazareno Alleoni, que fez o livro do centenário do Lar dos Velhinhos, eu relatei 20 passagens que aconteceram na vida. Ele me chamou no escritório dele e pediu para ditar “essas coisas” e disse que faria um livro contando sobre esses conhecimentos e que não saíram nesse exemplar.

Nesse processo de rever e falar de fatos do passado, presente e futuro do Lar dos Velhinhos, mudou algum sentimento do senhor em relação a tudo que viveu junto à cidade geriátrica?
Não mudou nada. Comecei aqui com bastante entusiasmo, e a medida que fomos desenvolvendo os trabalhos, o Lar foi aumentando, assim como as dificuldades. Mas dificuldades vencíveis. Porque hoje tem que aumentar o pavilhão, amanhã tem que comprar um ônibus, depois um carro, um trator. Mas não é um plano pré-determinado. Vamos apagando incêndio pelo caminho e atentos às necessidades de acordo com demandas. Agora, por exemplo, o Lar está chegando no fim das vagas. Tem poucas, mas estamos reformando um pavilhão que aumentará 26 leitos, número bom para uma nova temporada. A hora que forem montados, pensaremos num pavilhão com 100 leitos, mas, para tocar, é preciso ter demanda. Porque a cada dez anos temos que reformar um pavilhão.

Hoje, quem repassava verba ao Lar dos Velhinhos?
Estou com o balanço do ano passado aqui. O Lar gastou, ano passado, em dinheiro, fora as doações, cerca R$ 10 milhões. Foram R$ 2,8 milhões em repasses da União, Estado e Município, sem isso seria impossível trabalhar aqui. Mas esse dinheiro que vem já é vinculado, para o médico, enfermeiras e parte de cuidadores. Vem principalmente para saúde. Tudo destinado antecipadamente, assinamos contrato com a prefeitura. Aliás, agora, o prefeito (Barjas Negri) assinou, por um ano, o aumento de R$ 10 mil no repasse. E tem as emendas parlamentares, como a da Ana Perugini, deputada federal, de R$ 300 mil, mas vai para a prefeitura, que coloca essa verba para saúde. O que vamos fazer? Vamos fazer uma espécie de mini-enfermaria com oito unidades, quase sendo uma UTI. Vamos investir o dinheiro nesta UTI porque permanentemente temos doentes terminais aqui, e não é justo que doente terminal fique em quarto com outras pessoas em outra situação. Acho que dentro de três meses estará pronta.

Dentre as tantas conquistas para o Lar dos Velhinhos, qual é aquela que o emociona bastante?
Sabe, aqui no Lar tem umas metas para serem atingidas, queremos a perfeição máxima, como a parte da higiene, por exemplo. O mundo é regulado pela higiene. As doenças estão espalhadas no mundo e as pessoas precisam ter uma higiene aprimorada, a começar pelo chão desinfetado, piso que não pega sujeira. O Lar dos Velhinhos é praticamente um hospital. Aqui é moradia permanente de idosos e eles são frágeis. Precisamos cuidar da acomodação, além da alimentação balanceada. Queiramos ou não, eles vêm passar os últimos dias da vida deles aqui, e precisa ser um fim da vida suprida das necessidades básicas deles. Não deixamos faltar nada para eles, inclusive medicamentos. Quando eu cheguei aqui, ainda jovem, jamais imaginei chegar nesta idade até a mais de muitos deles aqui. Sei, hoje, que 90% dos acidentes dá para prevenir, por isso fico atendo a cada canto daqui, para evitar levá-los ao hospital.

Qual é o atual investimento em infraestrutura do Lar?
Hoje estamos fazendo novas construções. Investindo tem retorno, mas só devemos investir em coisas ligadas ao Lar. Agora vamos fazer o que chamo de refeitório do Lar, mas, na verdade, é um restaurante. Vamos atender o hotel do Lar dos Velhinhos. O hotel vai pagar uma mensalidade mensal ao Lar – a construção é do Lar, mas uma empresa investiu. Então faremos um refeitório para atender tanto o Lar como o hotel (uma construção de primeiro mundo), e acho que vai dar certo. Vai atender 1.000 pessoas, entre os moradores, hóspedes e pessoas de fora – Piracicaba inteira poderá vir.

Como ficará a relação do Lar com o hotel?
O Lar terá três apartamentos no hotel. Pessoas do Lar poderão morar lá ou, então, atenderemos preferencialmente idosos para de alguma forma ocupá-los. O hotel é a parte do Lar. Chamará Hotel Class, é de um especialista que tem sete hotéis, uma rede, todos com esse nome. Por 20 anos vai explorá-lo. A diária não será cara, será por volta de R$ 140 com pouso e café da manhã.

E quanto ao boulevard do Lar?
No momento não estamos pensando nisso, e não seria no Lar dos Velhinhos, pensei fora daqui, com ajuda da iniciativa privada. Mas, mais pra frente, vamos incentivar aqui a exploração da área remanescente, mas sem vender o patrimônio. Podemos fazer um contrato se a proposta for boa. Como um supermercado, por exemplo. Boa parte das pessoas que moram aqui saem para ir comprar nos supermercados. Um grupo até vai vir estudar a área. Afinal, Piracicaba está em franco crescimento. Conversei com diversos investidores, eles falaram que é a cidade que mais progride no estado de São Paulo, e o Lar tem cerca de 30 mil metros quadrados à disposição para receber investimentos – num local maravilhoso: acesso fácil, às margens do rio Piracicaba, com trânsito fácil. É uma área privilegiada e temos um muro à volta, somos um condomínio fechado.

Voltando ao livro, o senhor destaca uma personalidade piracicabana nele, o comendador Luciano Guidotti. Ele é, ainda hoje, uma das figuras mais relevantes de Piracicaba?
O Luciano Guidotti foi um dos estadistas de Piracicaba. A cidade teve outros estadistas, como Luiz de Queiroz, Mario Dedini. Estadista enxerga o que vai acontecer no futuro. Tinha uma cultura elementar, mas enxergava longe. Era “fora de série”. Hoje, com a legislação vigente, teria dificuldade de praticar o que praticou, mas durante o período da 2ª Guerra Mundial, por exemplo, enxergou mais do que todo mundo. Importou o GMC 40/41, que encalhou nos Estados Unidos e trouxe pra cá, e foi o pioneiro no biodisel. E era um homem carinhoso e caridoso.

Quem é o piracicabano ilustre mais injustiçado pela história?
Lamento bastante coisas. Lamento que o piracicabano Adhemar de Barros, tenha sido execrado, condenado por uma urna marajoara que ganhou da Bolívia. Pela história que eu sei, ele ganhou como presente pessoal, mas dentro do palácio do governo, e levou para sua casa. Foi absolvido de vários processos, mas nesse não. Mas ninguém lembra que foi ele quem fez o Hospital das Clínicas, que quem comprou o Palácio do Morumbi para o Estado de São Paulo, dos Matarazzos, foi Adhemar de Barros; ninguém lembra que ele fez a Anhanguera (de Jundiaí para frente) também é responsabilidade dele; ninguém lembra que o complexo artístico de Campos de Jordão foi Adhemar quem fez. Ele era um líder, briguento, rico de berço (se formou médico na Alemanha), mas pegou fama de ladrão. Progressista que tentou ser presidente, mas quando foi colocado o busto dele na Anhanguera, tiraram com tiro. O segundo busto foi eu quem fiz.

E quanto aos feitos do senhor como deputado?
Tive a felicidade de ter o prefeito de Piracicaba, Barjas, no dia do lançamento do livro e ele fez meu retrato. E ele lembrou de alguns feitos exatamente desta época. Ele lembrou que fui eu que consegui a verba para a construção do atual Fórum da cidade, além de conquistar a escola do bairro Morumbi, do Cecap – meu mandato fez oito escolas. A educação é importante, mas a saúde ainda é a base, é saúde preventiva. Fui o primeiro presidente do Conselho de Saúde de Piracicaba. O que fizemos? O médico da época disse que não teríamos dinheiro para trabalhar. Disse que trabalharíamos com prevenção: fazer a carteira de vacinação, água filtrada, boa, inclusive para a zona rural. Fazendo a saúde preventiva, já faz muita coisa. O problema é comer coisa suja e fala de higiene, e por isso que insisto nos quatro S: saber, saúde, sentir e servir.

O senhor ainda acompanha a política?
Valorizo sem muito entusiasmo. A democracia como está não é democracia. Está anárquica, se transformou numa libertinagem. O pessoal se aproveita para se enriquecer indevidamente. Precisa de uma reforma de base.

Erick Tedesco

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