João sem Deus

Nojo, desespero, vergonha, angústia… esses são alguns dos sentimentos e reações que tive ao assistir à série documental Em Nome de Deus, produzida pela Globo, sobre os crimes cometidos por João Teixeira, o autoproclamado João de Deus.

Tais sentimentos eu já havia experimentado quando, em 2018, assisti às entrevistas de mulheres ao programa Conversa com Bial. Elas denunciaram os abusos sofridos dentro da casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, interior de Goiás, onde esse tal João dizia “curar” as pessoas há décadas.

O documentário mostra um oceano de novos acontecimentos criminosos descobertos pela equipe investigativa da polícia e da reportagem da Globo.

Mulheres estupradas, tentativas de assassinato, mortes obscuras, dinheiro escondido em porões, pedofilia, incesto, mentiras e mais mentiras. O roteiro parece mais um filme de terror. E é!

Tudo choca, a cada minuto que a série vai sendo exibida. E uma pergunta ecoava a todo momento na minha cabeça: como um homem conseguiu por mais de 50 anos enganar tanta gente?

O documentário responde de forma praticamente didática. Afinal, João não foi o primeiro nem será último a inventar, com truques, curas milagrosas. E as pessoas que o procuraram também não serão as útimas nesta busca constante por um curandeiro, um salvador, principalmente na sociedade carente de boa saúde e riqueza como a é brasileira.

Foi até fácil para João Teixeira se tornar João de Deus. Bastou uma boa atuação, cara de pau, uma cidadezinha cheia de crenças e tradições religiosas e longe de tudo, onde ele pôde se fazer acreditar e se tornar “santo”.

Abadiânia se tornou “abençoada”, mas sob um esquema perverso, onde tudo quanto é tipo de crime era cometido e abafado por um manto “sagrado” de ameaças e violência.

João de Deus atravessou o oceano e se tornou John of God. Austrália, Estados Unidos, Canadá. A ânsia de poder, dinheiro, fama e a fome voraz deste monstro por fazer de mulheres suas vítimas sexuais eram imensas.

Entre as centenas de casos relatados, as vítimas contam as atrocidades sexuais que João fazia, dizendo que era a forma de as “libertar”. “Ele fazia tudo aquilo rezando a Ave Maria”, diz uma delas.

Outras vítimas acreditaram no poder milagroso, mas não resistiram às promessas. Uma senhora relata o caso de seu irmão que, HIV positivo, foi consultado por João. O “médium” pediu para que parasse de tomar os remédios, pois ele seria curado. “Me entregaram as cinzas dele dentro de um saco. Elas ainda estavam quentes”, narra a irmã em um choro pesado e soluçante, de emocionar.

Na parte técnica, o documentário é impecável. As provas apresentadas pelo programa são incontestáveis. Um jornalismo sério, feito com propriedade, capacidade, faro e talento, coisa para deixar os docs de crimes internacionais — na moda nos streamings atualmente — no chinelo.

Poder ver diante dos meus olhos cenas de tamanha brutalidade e horror só me fez confirmar o meu desprezo pelos “donos” de Deus, aqueles que se intitulam provedores de qualquer palavra divina. Os que se autoproclamam instrumentos da palavra de um ser superior. Basta ver as bancadas evangélicas, os políticos envolvidos com corrupção, que roubam “em nome do Senhor”, os crimes cometidos pela Igreja Católica no passado e aqueles cometidos pelos seguidores do Alcorão no presente.

Seja Buda, Jesus, Alá, a energia do cosmos, o poder das estrelas, os signos ou os xamãs. Posso ser chamado de cético, ateu, sem fé ou agnóstico, mas não é à toa que uma palavra bem longe de qualquer ser divino define o que é fazer o bem ao próximo: humanidade.