José Machado: Defender a democracia é essencial

Aos 74 anos, o tanabiense José Machado, tem no currículo duas gestões como prefeito de Piracicaba: de 1989 a 1992 e de 2001 a 2004, ambas pelo PT (Partido dos Trabalhadores). Filho do casal Hilda Gomes e Oswaldo Machado e irmão do historiador Oswaldo e do sociólogo Renato. Machado é  economista formado pela USP (Universidade de São Paulo), pós-graduado em economia, pela Unicamp e no ano de 1977, foi convidado a dar aulas de economia na Unimep (universidade Metodista de Piracicaba).
Na época, o professor residia em Campinas, onde fazia o mestrado em economia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Duas vezes por semana Machado viajava para dar as aulas.
Em 1979, ele recebeu o convite para assumir, em tempo integral, a coordenação do curso de economia na Unimep. Foi nessa época que se mudou definitivamente para Piracicaba com a família.
Casado há 47 anos com a socióloga Janet Raquel Teixeira Machado, é pai de Joana, Júlia e Virgílio, e avô de Davi, João, Helena e Valentina.
Antes de ser prefeito da cidade que escolheu para viver, Machado foi funcionário público concursado da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, bancário concursado do Banco do Estado de São Paulo, assistente técnico de Economia no setor privado e professor de Economia na PUCC (Pontifícia Universidade Católica de Campinas) e na Unimep.
Na política, o ex-prefeito foi deputado estadual (1987-1988) e deputado federal (1995-1998 e 1999-2000).
Após deixar a prefeitura piracicabana ele foi presidente da Ana (Agência Nacional de Água de 2005 a 2009 e secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente em 2010.
Nas horas vagas, o palmeirense não perde um jogo do time do coração, além da leitura de romances, assistir a filmes e se reunir com familiares e amigos.
Nesta semana, ele aceitou o convite para ser o entrevistado do Persona e respondeu as perguntas sobre sua atuação na prefeitura, desafios da cidade e situação política do Brasil. Diplomático, preferiu não comentar a atual administração municipal.

Qual período o senhor foi prefeito de Piracicaba?
Fui prefeito por dois períodos: 1989/92 e 2001/2004.

Quais conquistas o senhor destaca para a cidade nesse período?
Empenhei-me de corpo e alma à frente da Prefeitura nos meus dois mandatos. Governei em tempos de crise econômica nacional, sem acesso a financiamento para projetos estruturais e sem ajuda de outras esferas de governo, tendo que buscar solucionar os inúmeros problemas da cidade com orçamentos muito apertados. Apesar disso, houve muito investimento nas áreas sociais, sobretudo nas áreas de Educação e Saúde, e foi criada uma atmosfera instigante trazida pela criação de espaços de participação cidadã (orçamento participativo, conselhos, conferências), pelo diálogo amplo e aberto com toda a sociedade e pelo estímulo aos valores culturais da cidade. Além disso, com a criação do Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba e Capivari, alavancamos a agenda pela recuperação do nosso rio. Requalificamos a orla do rio Piracicaba com a implantação do Projeto Beira-Rio. Desapropriamos e ocupamos o Engenho Central, tornando-o um bem público. Realizamos muitas obras estruturais, segundo a sua essencialidade e não segundo a sua visibilidade. Construímos o Terminal Central de Integração e implantamos o sistema integrado de transporte. Inovamos com o Desporto de Base e com o Cultura nos Bairros. E por aí vai.

O senhor projetou a orla do Rio Piracicaba, esse projeto previa adequações ao longo do tempo, como o senhor avalia a situação desse ponto turístico de Piracicaba?
O Projeto Beira-Rio teve sequenciamento nas administrações que vieram depois da minha e isso deve ser comemorado. A orla é sucesso de charme e de público. Preocupa-me, contudo, é que a gestão e a manutenção desse emblemático sítio urbano percam efetividade e o degradem. 

O senhor pretende voltar a ser prefeito de Piracicaba?
Não pretendo. Avalio que já dei minha contribuição ocupando com muito orgulho esse honroso cargo. Minha opinião sempre foi a de que é necessário renovação, ideias novas, sangue novo. Sigo fazendo política sem pretensão de ocupar cargo, como dever de cidadão, sobretudo no atual momento, quando sinto que nossos ideais democráticos e sociais inscritos em nossa Constituição de 1988 estão sendo solapados. Gostaria de gozar melhor minha aposentadoria, curtir mais meus netos, mas, infelizmente, não posso abdicar de seguir lutando e dando minha contribuição.

Como o senhor avalia a atual administração municipal de Piracicaba?
O atual prefeito, Barjas Negri, e eu, fomos colegas na Unimep e estivemos juntos na trincheira pela redemocratização do país. Depois, seguimos rumos distintos. Perdi para ele as eleições de 2004 e não guardo nenhum ressentimento.  Sendo eu uma pessoa pública, que já esteve à frente do poder público municipal, não me sinto à vontade para atacar a administração de Barjas. Soaria oportunista e deselegante de minha parte. O que posso dizer é que fizemos governos com pensamentos, estilos e olhares distintos, que se refletiram nas escolhas das prioridades administrativas e políticas. Quem tem todo o direito e a legitimidade para avaliar a administração Barjas é o povo de Piracicaba.  
O senhor acredita que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e a provisão (prisão) do ex-presidente Lula tenham sido prejudiciais ao Partido dos Trabalhadores para o lançamento de futuros candidatos?
O impeachment da ex-presidente Dilma e depois a condenação e a prisão do ex-presidente Lula fazem parte de uma mesma trama golpista, cujo objetivo era e é impedir que o PT dispute e galgue o poder. Ao governar o país, o PT contrariou muitos interesses poderosos, o que ensejou a decisão, aqui e lá fora, de bloqueá-lo. A História um dia passará em pratos limpos o fato de a descoberta pioneira do pré-sal ter sido um dos elementos essenciais, embora não o único, que motivou o golpe. O impiedoso massacre midiático, o derrame de fake news, a captura de parte do sistema judiciário e outras manobras orquestradas visam aniquilar o PT e suas principais lideranças e inviabilizá-los política e eleitoralmente. Isso não é teoria da conspiração, isso é fato. O golpe abateu o PT? Com certeza sim. Contudo, a extraordinária votação de Haddad demonstra que o partido segue vivo. E sobreviverá. Quem viver, verá.

Como o PT tem se organizado para a disputa das eleições?
O PT resiste. Ele é composto de mulheres e homens dedicados e ferreamente comprometidos por uma sociedade melhor. Apesar dos percalços, a vida partidária interna segue vibrante, com intensos debates e reflexões, na busca do reconhecimento dos erros e acertos e do vislumbre de avanços. Em Piracicaba, o partido já definiu o nome do professor Adelino de Oliveira, uma pessoa íntegra e preparada, e que tem meu entusiástico apoio, como seu pré-candidato a prefeito, e buscará lançar chapa completa de vereadores, munido de um programa ousado que reflita os anseios de dias melhores para a população. Estou muito confiante.

Nas últimas eleições à presidência da República o Brasil viveu o fenômeno da polarização, como o senhor avalia o impacto para a democracia?
A polarização não é um problema para a democracia, sobretudo quando temos eleições em dois turnos. Negativo foi a ausência de debates entre os dois postulantes, pelo desinteresse tático de um deles. A facada que Bolsonaro recebeu foi-lhe muito conveniente, não é? Negativo foi o derrame criminoso de fake news na campanha, sob o olhar complacente do Tribunal Superior Eleitoral.  

Como o senhor avalia a atuação da esquerda hoje, no Brasil?
A esquerda resiste aos tempos porque é fundamental existir um campo de esquerda que defenda a democracia e os direitos sociais, que defenda a sustentabilidade ambiental, então a esquerda existe uma definição, ela tem como objetivo promover a transformação social. Todos aqueles que lutam pela transformação social são de esquerda. Agora é preciso, o tempo todo, rever as práticas, os objetivos e as estratégias. Eu penso que a esquerda precisa se reinventar o tempo todo, precisa se modernizar, se atualizar programaticamente, rever os seus métodos de ação. Ela tem de ser questionadora e ela tem de questionar sua própria prática.

O senhor deixou de fazer algo por Piracicaba, que estava em seus planos,  mas que não foi possível a concretização?
Matutei muito e não consegui identificar algum projeto especial que tenha deixado de ser realizado. Sinto-me feliz por ter iniciado projetos emblemáticos para Piracicaba, como o Engenho Central, por exemplo. Desde logo, contudo, compreendi que esse não era um projeto para um único mandato, mas para muitos mandatos. Em praticamente todas as áreas deixamos projetos iniciados e inacabados, na perspectiva de que fossem continuados. Governei tentando resolver problemas presentes, mas pensando no futuro. E não me arrependo.

Qual mensagem o senhor deixaria ao povo piracicabano?
Bem, eu sou muito ligado a Piracicaba, tenho muitos amigos, me sinto muito grato por ter tido a oportunidade de ser prefeito da cidade. Tenho verdadeira paixão pela população, pelo seu povo humilde, simples trabalhador, então quero deixar aqui uma mensagem de otimismo, para que 2020 seja um ano de muitas realizações, muitas conquistas. Nós temos enormes desafios pela frente nesse momento difícil que o país está passando. Estou aposentado, mas não estou encostado, não estou parado, continuo muito ativo, pensando, continuo contribuindo com ideias, reunindo pessoas, enfim, estou dando a minha contribuição como cidadão e quero conclamar o povo de Piracicaba a não deixar, de maneira alguma, de pensar, de contribuir e de participar, porque sem participação acredito que não vão fazer as grandes mudanças que essa cidade precisa e que o País precisa fazer.

E quais são os principais desafios para Piracicaba nesse início de década?
Eu acredito que os desafios refletem a situação nacional, acredito que o desemprego está muito preocupante, o aprofundamento das condições de vida da maioria da população, portanto o combate à miséria e à pobreza, a retomada do crescimento econômico para gerar emprego são questões que vão afetar em muito a nossa população.

Beto Silva

(Foto: Amanda Vieira/JP)