Foto: Claudinho Coradini/JP

Bombeiro há 18 anos, o cabo José Ricardo de Vasconcelos, de 37 anos, teve uma nova oportunidade para a vida após sofrer queimaduras de 3º grau em 15 de junho, quando combatia um incêndio de grandes proporções em uma fábrica de velas na cidade de Capivari. Mais uma chance para aproveitar o amor da família e continuar a exercer a paixão pela profissão.


Cabo Ricardo atua no 2º Pelotão de Bombeiros de Piracicaba, na avenida Independência, que compõe – junto aos outros postos do 1º SGB (Subgrupamento de Bombeiros) – o 16º GB do Estado.

É casado com Elizabeth, bombeira e que também tem sido uma verdadeira guerreira ao auxiliar o marido em sua recuperação. Cabo Ricardo é pai da Emily, de 11 anos; do Kevin, de 2 anos; e do Leonardo, de 1ano.

Com o acidente, o bombeiro sofreu queimaduras ao redor do corpo entre as coxas até o tórax. Após receber os primeiros tratamentos na Santa Casa de Piracicaba, foi transferido para o Hospital de Queimados de Limeira, onde ficou internado por 18 dias. Foram dias de dores intensas e de muita luta para a vida. Cabo Ricardo teve alta em 3 de julho e continua o tratamento em casa para sua plena recuperação. Você conhece um pouco da história dele e os desafios pelos quais passou na entrevista do Persona deste domingo.

Pode me contar sua trajetória na corporação?
Depois de um ano de treinamento na Escola de Bombeiros de Franco da Rocha, me formei e fui trabalhar na zona leste de São Paulo por 16 anos. E trabalho em Piracicaba um pouco mais de um ano.

O que te trouxe a Piracicaba?
Minha esposa também é bombeira , quando ela se formou, foi trabalhar em São Paulo e trabalhou no mesmo quartel que eu. A gente trabalhou junto na mesma turma, durante um período de quase um ano e acabou se conhecendo, fomos namorando e, depois de um tempo de namoro, ela engravidou e precisou se mudar para cá porque a família dela é daqui, para poder ter um auxílio para ajudar a cuidar do filho. Aí a gente resolveu morar para cá e eu pedi transferência. Ela veio um pouco antes por conta de que estava gestante, não podia ficar viajando e depois eu vim para poder trabalhar e morar aqui também.

O que sua profissão representa para você?
Eu escolhi ser bombeiro porque na minha opinião é uma profissão muito digna, onde você consegue transmitir para as pessoas esperança. Quando a pessoa já não tem mais esperança nenhuma, onde ela acha que está tudo perdido, ela vê o bombeiro e ela vê esperança. Isso significa muito para mim. E também por ser uma profissão que é muito bem reconhecida pela população. É muito gratificante o carinho que a gente tem de retorno da população quando consegue fazer algum ato para ajudar alguém.

Como foi a ocorrência na fábrica de velas e como ocorreu o acidente?
Saímos daqui por volta de umas 7, 8 horas da noite e fomos para a cidade de Capivai apoiar os bombeiros de lá nesse incêndio de grande proporção. Chegando lá, nós estávamos no combater ao incêndio há quase duas horas e, em determinado momento, a gente precisava entrar na fábrica para poder fazer o combate interno, sanar, acabar com o incêndio de uma forma mais rápida. […] Já tinha uma equipe com dois bombeiros lá e eu e outro parceiro fomos entrar para combater em um outro ponto. Quando eu dei um passo após onde estava a outra equipe, eu afundei numa cisterna, numa reserva d’água que ficava no interior da empresa, que estava com água fervendo e parafina derretida. Então eu afundei até a altura da região do tórax, do peito, e eu consegui me segurar na mangueira, fazer um giro e tentar sair desse local.

Eu fiquei aproximadamente de cinco a dez segundos dentro desse local e, na hora que eu caí, de imediato já senti me queimando, porque entrou por dentro da nossa roupa de proteção de combate a incêndio. […] Queimou as costas, em volta do corpo todo, uma parte da coxa e uma parte da genital também. As duas pernas queimaram e uma pequena região da coxa.

Quando eu caí, o pessoal tentou me puxar uma primeira vez, mas escorregou devido à parafina e, na segunda tentativa, conseguiram me tirar. Eu saí correndo do interior da fábrica e fui até a rua. Quando eu caí na rua, o pessoal começou a abrir o meu EPI e eu pedia para eles jogarem água no meu corpo, que estava queimando bastante. Eu sentia muita dor e sentia queimar muito. Nesse momento, o pessoal conseguiu abrir minha roupa de proteção e jogar água para poder aliviar a queimadura.

Como foi o seu socorro e por quais procedimentos precisou passar?
Após o pessoal ter jogado água, fui socorrido por um resgate dos Bombeiros até a Santa Casa de Capivari, onde lá começaram os tratamentos com medicações e bastante soro, mas a dor não passava, era muito constante. Nesse momento, achei que eu não ia conseguir sobreviver, porque a dor era muito intensa e não sabia a que gravidade estavam os meus ferimentos. Depois disso, eu fui transferido para a Santa Casa de Piracicaba, lá foi feita a primeira limpeza, que foi a retirada das peles, da pele que estava queimada, e no dia seguinte eu já fui transferido para Limeira, para a Unidade de Tratamento de Queimados, onde eu fiquei 18 dias.

No terceiro dia de internação [em Limeira], fui submetido a uma cirurgia de limpeza de raspagem de toda aquela pele que estava necrosada, que tinha sido queimada no acidente, fui sedado e intubado na parte da manhã e fó fui acordar na parte da tarde. Desde então o tratamento de troca de curativos era diário, era realizado toda parte da manhã. Foram 15 dias dos 18 de dor muito intensa, tendo em vista que o meu nível de queimadura de segundo para terceiro grau deixava exposto todos os nervos sensitivos. É o tipo de queimadura que gera mais dor. Passado isso, tive alta no dia 3 de julho, após 18 dias, e sigo o tratamento em casa, fazendo curativo todos os dias – quem está cuidando e fazendo os curativos é minha esposa.

Tive também ajuda de uma enfermeira do GRAU aqui de Piracicaba, que trabalha com a gente no Corpo de Bombeiros, nos três primeiros dias. […] Eu retorno duas vezes por semana ainda em Limeira para fazer avaliação médica de como está evoluindo a cicatrização.

A rapidez da equipe foi muito importante. Para você qual foi o papel do trabalho em equipe dos bombeiros para salvar sua vida?
Se não fosse eles, eu não conseguiria sair da cisterna, tendo em vista que, como eu estava usando um equipamento de proteção, estava escorregando para subir e eu não tinha apoio na borda. Já tinha caído uma grande estrutura da fábrica. Toda vez que tentei subir, os escombros não deixavam ter contato com o piso e a roupa estava muito pesada porque estava molhada. Eu não conseguiria sair sozinho e, se tivesse ficado mais tempo, teria me queimado muito mais.

Qual é o sentimento de estar de volta para a família?
Após a alta, claro que estar em casa de novo com a família é muito bom, reviver os momentos da esposa e do filho. Minha esposa e meu filho Leonardo que estão em casa me auxiliando nessa recuperação. Leonardo tem um aninho e meio e minha esposa que está sendo a guerreira para ajudar nessa fase bem complicada. Eu ainda sinto dor na hora de troca de curativos. Tenho um pouco de dificuldade para dormir.

Com o acidente, o que mudou para você na vida?
Em relação ao que mudou ainda estou tentando descobrir, eu vejo que eu tive uma nova oportunidade, uma nova chance, acredito eu, que foi um livramento. Eu poderia ter morrido, mas não foi o dia.

Você tem recebido bastante apoio, qual é a importância disso?
Outra coisa que eu também pude notar que foi muito importante foi que isso gerou uma corrente de solidariedade para a minha melhora muito grande. Eu recebia diariamente vídeos de apoio de amigos da corporação de todo o Estado de São Paulo, de artistas através de contatos que os meus comandantes e meus amigos faziam com outros bombeiros; jogadores de futebol de times famosos – antigos jogadores já das épocas passadas, mas que mandaram vídeo de apoio. Várias pessoas se mobilizaram para fazer essa corrente de oração. Teve também vídeos de bombeiros americanos através do Instagram. Teve um vídeo de um bombeiro chamado Raphael Port, que trabalha no complexo da Disney nos Estados Unidos, que ele fez uma publicação pedindo orações para a minha melhora e esse vídeo teve mais de 120 mil visualizações e mais de 2 mil compartilhamentos. Foi muito importante para a minha melhora toda essa corrente de oração. […] Mandaram muitas mensagens de apoio, muitos vídeos também, pessoas de outras empresas, da Santa Casa de Limeira, que cuidaram muito bem de mim que – graças a eles – eu tive uma recuperação boa e rápida.

Com a nova oportunidade que ganhou da vida, quais são seus planos para o futuro?
Estudar para me promover internamente e também fazer uma graduação para exercer no futuro quando me aposentar.

Tem previsão de volta à ativa?
Quanto à minha profissão, eu ainda amo muito. Não tenho previsão de volta ainda, vai levar alguns meses para recuperar. […] Após a recuperação total tem que ficar seis meses sem poder tomar sol. E como eu trabalho na parte operacional, não vou poder sair na rua para atendimento de ocorrência, então ainda não sei quando que eu vou voltar.

Qual é a mensagem que você deixa para a população e para os colegas de profissão após o acidente?
O comandante de bombeiros do estado, Coronel Maxmena, junto com o comandante do 16º Grupamento de Bombeiros, o tenente-coronel Harley, me visitou no hospital e o Comandante do Corpo de Bombeiros de São Paulo, Coronel Luciano, que comenda toda a região do interior, veio de São Paulo para me visitar na minha casa. A ideia deles é que, quando eu estiver totalmente recuperado, eu faça algumas palestras motivacionais e também na questão de segurança para os demais bombeiros, tanto para os bombeiros mais antigos – que já têm mais experiência assim como eu, e para os bombeiros que estão começando agora, em questão de segurança, acreditar nos nossos equipamentos de proteção individual, que eles são realmente muito bons e – talvez se não fosse eles – eu não estaria aqui.
A mensagem que eu tenho para dizer é que, independente do que aconteceu, eu tenho a pretensão de voltar a trabalhar no que eu fazia, que eu sempre gostei muito de fazer.

Eu entrei no Corpo de Bombeiros com 18 anos de idade e foi minha primeira profissão, então eu amo muito o que eu faço. A gente tem um carinho pela nossa profissão diferenciado, acredito, de outras. Ainda mais por questão de ser gratificante. E eu acredito também que uma mensagem que eu possa deixar é que a fé move montanhas. A fé de todas as pessoas que acreditaram e pediram pela minha melhora foi sentida de uma forma positiva, deu para sentir essa energia. Eu também tive muita fé e vontade de sair logo do hospital e voltar para a minha família.

Andressa Mota

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns Tio Ricardo pela sua melhora e por sua fé nunca há perca, Deus sempre estará com você nunca se esqueça disso e você tem familiares e amigos que nunca deixou em nenhum momento de orar por você e por sua família… É muito honroso saber a forma que você vê o seu trabalho e me orgulho muito de você ❤️ e quero que saiba que me apaixonei por essa profissão , e me inspiro em você e sei que vou me tornar uma bombeira tão boa e dedicada quanto você! Deus te abençoe e continue te dando forças pra estar 100% Um abraço meu e da Hellena

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