(Foto: Amanda Vieira/JP)

O piracicabano Júlio César Ferraz Amstalden, 52 anos, possui um currículo versátil com graduação em engenharia mecânica, mestrado em artes e doutorado em educação. Mas foi na música que o terceiro filho do casal Maria Cecília Ferraz e Luiz Amstalden dedicou parte de sua vida acadêmica e que agora exerce as funções de organista, regente e docente (não necessariamente nesta ordem).

Júlio é irmão do sociólogo e professor Luis Fernando Amstalden e da psicóloga Ana Lúcia Amstalden, que atua no Ministério da Saúde. Ele fez Curso Livre em Música pela Empem (Escola de Música de Piracicaba Maestro Ernst Mahle), graduação em Engenharia Mecânica pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), é mestre em Artes pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) e doutor em Educação pela Unicamp.

Apesar de a presença da música ser constante em sua vida, desde a infância, nas horas vagas Júlio prefere a leitura. Do contato com a música – ainda muito novo – ele recorda a amizade com a família Mahle e das missas com coro e órgão na Igreja dos Frades. Experiências que, em sua avaliação, foram vitais para o desenvolvimento pessoal, sensibilidade e visão de mundo.

Nessa entrevista ao Persona o músico fala de suas influências, experiências e do seu trabalho. Neste último tópico, ele cita a filósofa política alemã, de origem judaica, Hanna Arendt, que definia trabalho como algo que realiza a humanidade de uma pessoa e deixa sua marca no mundo.

Por que o senhor escolheu a música como carreira?

A música esteve presente em minha vida desde a mais tenra idade. Venho de uma família onde muitos possuem uma musicalidade espontânea e gostam de cantar. Quando criança era paroquiano da Igreja do Sagrado Coração de Jesus (Frades), onde antigamente se fazia muita música com coro e órgão. Além disso, fui vizinho da família Mahle e cresci na Escola por eles fundada, bem como costumava brincar com seus filhos em sua casa, sempre ao som de muita música de qualidade. Na Empem, eu cantei primeiro no Coro Infantil e, depois da adolescência, no Coro Misto. Foram experiências fundamentais para meu desenvolvimento pessoal, bem como de minha sensibilidade e visão de mundo.

Por que organista?

Devido ao fato de ter crescido ouvindo o órgão da Igreja dos Frades e o instrumento que há na Empem. Na paróquia, o órgão era tocado todos os domingos na missa e foi, aos poucos, sendo substituído por violões. O instrumento da EMPEM era tocado em recitais de organistas estrangeiros que visitavam a cidade, bem como na prática de música de câmera. Deve-se lembrar que isso é muito raro para uma cidade do interior paulista.

Quais foram as influências até decidir pela carreira?

Mahle foi uma influência muito forte em minha infância e adolescência, tanto para a música quanto para a Engenharia. Ele criava e construía brinquedos mecânicos em sua casa, onde, além de vários pianos, existia também uma oficina.

O senhor tem uma formação acadêmica e especializações no Brasil e exterior, ser docente sempre foi o seu ideal ou a carreira o levou a essa função?

Ambas as coisas. A docência é uma profissão comum em minha família e, como sempre gostei muito de estudar, lecionar e pesquisar foram consequências naturais. A carreira de músico dialogou com o estudo e a pesquisa num sentido interdisciplinar. A divisão do conhecimento em “caixinhas” é um empobrecimento sem sentido e constitui uma visão estreita de mundo. E, quando se desenvolve qualquer atividade com prazer e atenção, sempre é possível, na relação com a realidade, desenvolver-se questionamentos que, por sua vez, conduzem a mais estudo e à pesquisa, isto é, à prospecção da realidade.

Todo organista é um pianista necessariamente?

Para ser um organista na acepção correta do termo, uma pessoa deve antes estudar muito piano, de modo a conhecer bem sua técnica e repertório. Isso constitui a base para o estudo do órgão. Mas nem todos os organistas mantêm carreira dupla como pianista. Isso é muito raro, porque as técnicas são muito diferentes. Eu mesmo deixei o piano há muitos anos, para me dedicar ao órgão e ao cravo. No entanto, como no Brasil não existe uma tradição de se tocar órgão, é comum o brasileiro pensar que quem toca piano toca órgão. Em geral, quem estudou somente piano não entende a estrutura e a natureza do órgão.

Como o senhor percebe o interesse dos jovens pela carreira musical?

O campo da música é vasto. A formação acadêmica compreende a interpretação, a licenciatura, a regência, a composição. Mas nem todo músico possui grau acadêmico. Muitos possuem formação autodidata e atuam de diferentes formas: tocando em bares, bailes, casamentos etc. Eu diria que, proporcionalmente a outras carreiras, não há um número grande de jovens que se matriculam em cursos superiores de música, uma vez que o mercado é restrito e há mais procura de emprego em música do que sua oferta. Além disso, o momento atual supervaloriza as carreiras técnicas. Existe, inclusive, a representação social de que a atividade do músico não constitui trabalho. Ou seja, pensa-se que o músico “não trabalha” e disso decorre que há uma tendência de sua atividade ser mal remunerada ou até mesmo não remunerada. A fábula “A cigarra e a formiga” é, talvez, o melhor exemplo dessa mentalidade na cultura ocidental.

Nesse sentido, como o senhor avalia o mercado para atuação do profissional músico?

O mercado é restrito. O que acontece em Piracicaba e no estado de São Paulo segue a tendência nacional. Investir em cultura não faz parte do projeto brasileiro de sociedade e há reduzido espaço para a área no setor público. Existem poucos empregos formais (com carteira assinada) para músicos. Tais empregos são representados por vagas em corporações mantidas pelo Estado, que nunca foram muitas no Brasil. Além disso, o cenário atual é de desativação de orquestras mantidas pelo Poder Público.

A situação é melhor ou pior para quem possui uma carreira e atividade voltadas para o erudito?

Eu diria que a área erudita tem menos espaço. O gênero não atrai grandes contingentes de ouvintes, mesmo no exterior. Vários fatores explicam esse fenômeno, que não acontece apenas no Brasil. Aquilo que a mídia mostra pelas mãos de alguém como André Rieu não é representativo, uma vez que Rieu está mais próximo de um empresário do que de um artista, além de apenas vender chavões da música erudita. Isso é um aspecto da cultura contemporânea. Pode-se apontar a atuação da indústria cultural como um dos agentes responsáveis por isso. A música erudita tem outra dimensão temporal e liga-se aos contextos dos diferentes períodos históricos vividos pela humanidade, de modo que se torna pouco vendável. Não é exagero se afirmar ser necessário uma cultura geral mais ampla para entendê-la. Em outras palavras, a música erudita depende de uma educação de melhor qualidade. E como a educação em geral se empobrece, de modo a ser entendida mais como informação do que como formação, a tendência da música erudita é se tornar esquecida, infelizmente. É um momento muito preocupante. Pessoalmente (e há colegas músicos que comungam dessa minha visão), penso que a música erudita, hoje, segue um caminho parecido com o do latim. Mas penso também que caminhos de resistência devem ser procurados e praticados.

O que o senhor pensa a respeito da extinção do Ministério da Cultura, pelo atual governo federal?

Lamentável, extremamente lamentável. Faz parte do cenário de crise de valores do Brasil atual e da afirmação de uma ignorância proposital e generalizada. E, sim, claro que há prejuízos! Há muitas organizações culturais sendo desarticuladas ou mesmo fechando as portas, num grande gesto de recrudescimento, como muitas outras coisas no país.

Não fosse a música, qual carreira o senhor gostaria de ter seguido e por quê?

Minha formação acadêmica passou por três áreas distintas. Minha graduação é em engenharia mecânica (Unicamp), meu mestrado é em artes-música (Unesp) e meu doutorado é em educação (Unicamp). Sou profundamente grato à Universidade Pública, agora ameaçada, por poder ter trilhado esse caminho interdisciplinar. Isso não teria sido possível de outra forma. Assim, creio que tive a oportunidade de ter uma visão bastante ampla do conhecimento humano e aprendi a estudar, de maneira a entender que o saber é um só e tudo se relaciona. As reduções e empobrecimentos são feitos pela sociedade, que não raramente esquece o sentido verdadeiro do que é trabalho. Na concepção de Hanna Arendt, trabalho é aquilo que realiza a humanidade de uma pessoa e deixa sua marca no mundo. Assim, respondendo sua pergunta, sinto-me pleno no caminho que trilhei, embora as dificuldades e desafios sejam reais e concretos. Mas isso já não depende de mim, pois é conjuntural.

Beto Silva

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