Lembranças e orgulho dos pais que foram para a luta em defesa dos direitos e da democracia

Foto: Acervo Pessoal

JP conversou com três piracicabanos cujos pais foram para o front defender seus ideais por Piracicaba

O JP conversou com três familiares de voluntários piracicabanos que participaram da Revolução de 32: dona Teresa Simionato, 76 anos, filha de Antônio Simionato; Pedro Vicente Ometto Maurano, 78 anos, filho de Arthur Maurano; e Eduval Fogaça, 82 anos, filho de Leônidas Andrade Fogaça. Os três filhos relatam uma característica em comum em seus pais, que foi o orgulho de ter participado da Revolução e dado sua contribuição cívica em um momento histórico no Brasil.

“Naquela época, os paulistas estavam imbuídos pelo espírito de liberdade, pela democracia, e papai, que era formado em farmácia pela USP, foi lutar na Revolução, e ele sempre teve muito orgulho disso. Foi lutar em Cunha, perto do Estado do Rio de Janeiro, onde tiveram muitas batalhas com o Exército Brasileiro. Ele, inclusive, foi ferido em batalha e voltou para fazer tratamento em São Paulo. Foi uma guerra curta e ele guardava uma cicatriz no braço esquerdo devido a um acidente no caminhão de guerra”, conta Maurano, que mora no Bairro São Dimas e já foi presidente do IHGP. Arthur, nascido em 3 de agosto de 1904, morreu em 5 de maio de 1983, aos 79 anos.

Entre as recordações que Maurano tem desta época estão o cinturão que o pai Arthur usou, o capacete de combate e a música “Paris-Belfort”, marcha da guerra de 32. “Ele se orgulhava de ter participado”.

Já Antônio Simionato foi para a Revolução com 29 anos e morreu em 15 de outubro de 1984, com 81 anos. “O que eu lembro é que ele contava que ficou com os pés cheios de bolha, por causa das botinas que ele usava nas trincheiras e que ficavam cheias de água”, diz Teresa, segurando a foto do pai com a farda. “Ele sempre foi muito bravo como pai, mas era muito amoroso também. Ele tinha medo que eu saísse, que eu dirigisse, não queria que eu tirasse carta. Tinha muito cuidado comigo, pois era a mais nova dos filhos”.

“SOLDADO NÃO TEM MÃE”
Edu Fogaça também tem muitas lembranças de seu pai, Leônidas, que participou da luta aos 27 anos e morreu com 64. “Ele contou que quando se alistou, foi contar para os pais dele, os meus avós. A mãe chorou e o pai disse ‘você não fez nada mais que sua obrigação’. Depois, no dia que meu avô foi levar meu pai na Estação da Paulista, para ele ir para a Revolução, ele acabou chorando também”, conta Edu.

Outra lembrança que Edu tem, de histórias que seu pai contou, envolve a “xepa” – que seria os alimentos que os soldados tinham à disposição durante o combate. Havia um problema de transporte e, em algumas ocasiões, o grupo ficava sem comida. “Meu pai propôs ao comandante de ir buscar os alimentos e falava ‘eu vim aqui disposto a morrer por bala e não de fome’”. Leônidas, que tinha um problema de visão, chegou até a ser promovido a tenente por ato de bravura.

Edu contou mais histórias ao JP. Que o pai achou durante o combate uma medalha de Nossa Senhora Aparecida, a qual o “protegeu” no combate, e também um episódio envolvendo uma vestimenta de um comandante do alto escalão. “Meu pai recebeu uma carta da irmã que a mãe deles, minha avó, estava doente. Ele pediu a um comandante autorização para voltar a Piracicaba para vê-la, e foi negada. ‘Soldado não tem mãe. A mãe é a pátria’, disse o superior ao meu pai. Ele não desistiu e procurou um outro comandante, que autorizou. Como estava muito frio, este comandante lhe emprestou sua capa para fazer a viagem e quando meu pai chegou à Estação da Luz, em São Paulo, pensou: ‘como farei para chegar até Piracicaba, se não tenho um tostão no bolso?’. E acredita que, por estar usando a capa do alto comando, ele conseguiu pegar um trem e ver sua mãe? Isso aconteceu! Ele visitou minha avó e depois voltou para o front, devolvendo a capa para o comandante”, conta Edu.

Nani Camargo
Especial para o JP

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