Livro “Cartas a Piracicaba” vai trazer relatos escritos por piracicabanos nos fronts de batalha

Foto: Amanda Vieira/JP

Edson Rontani Júnior, jornalista e presidente do IHGP, vai lançar em outubro livro sobre voluntários de Piracicaba

Edson Rontani Júnior sempre se interessou pela história da Revolução de 32 não só por ser jornalista e presidente do IHGP. Ele tem uma relação familiar com esse momento histórico. “Cresci ouvindo minha avó, Julieta Meira Barros D’Abronzo, falar de seu irmão, Natal Meira Barros, que havia falecido aos 17 anos após se voluntariar, de forma escondida dos pais, na Revolução. Ele foi alvejado no pescoço durante uma ação de reconhecimento na cidade de Registro, falecendo três dias depois pela hemorragia no Hospital do Sangue da cidade. A ‘carta de despedida de Natal’ era guardada a sete chaves pela família que anualmente se unia para celebrar o 9 de julho e trazer à lembrança sua memória. O livro serve-me como um espelho e reconhecimento de tudo o que a família passou nestes 90 anos”, conta Edson ao JP.

Autor do livro ‘Cartas a Piracicaba’, que será lançado em outubro, Rontani trará um rico material sobre o tema e diversos relatos escritos pelos piracicabanos nas trincheiras e nos fronts de batalha. “Acredito que aí esteja o real correspondente da imprensa piracicabana da época. Diariamente, os jornais da cidade (Jornal de Piracicaba, O Momento e Gazeta de Piracicaba) reproduziam cartas de piracicabanos enviadas à suas famílias. A comunicação na época não era instantânea como hoje. Demorava dias para chegar do front para Piracicaba ou, se viesse pelo rádio ou pelo telegrama, era filtrada demais, dando noção macro da situação e não do micro que interessava mais aos familiares por aqui residentes”, explica.

JORNAL DE PIRACICABA
O jornalista fez muitas consultas no JP sobre a Revolução e sobre como o assunto era retratado à época. “Após ser adquirido pela família Losso, o Jornal de Piracicaba teve papel importante na perpetuação do ideal paulista, em especial pelo engajamento de sua proprietária Antonietta Rosalina da Cunha Losso Pedroso, sendo que seu pai, Losso Netto, foi um dos participantes no levante.

O JP foi consultado e lido totalmente por mim durante o período pré e pós Revolução de 1932. Teve um papel importante na propagação das ações em Piracicaba. A família Losso teve papel importante na propagação e perpetuação da causa piracicabana constitucionalista ao longo das décadas seguintes. Dona Antonietta estava na praça José Bonifácio para protestar contra o desmonte e retirada do Monumento ao Soldado Constitucionalista em 1980 (ele foi levado para a praça em frente ao Cemitério da Saudade, retornando a José Bonifácio em 1988 por decisão do Supremo Tribunal Federal). Seu pai, o dr. Fortunato Losso Netto, teve papel importante no traslado dos restos mortais do piracicabano Romário Nery, falecido e sepultado durante a Revolução na cidade de Itapira. A ação ocorreu em 1957, quando se lembrou os 25 anos da causa. Nesta ocasião, as prefeituras de Piracicaba e Itapira se uniram para resgatar os restos do voluntário piracicabano, possuindo à frente da iniciativa o dr. Losso Netto, do Jornal de Piracicaba”, detalha Rontani.

FUNERÁRIA LAUDINO
Trechos do livro tratam do fervor da população de Piracicaba à época, que “ajudava a criar uma comoção para que todos participassem, seja consumindo menos pão e gasolina, como doando uma jaqueta” (a Revolução ocorreu em pleno inverno), e das iniciativas curiosas como “fulano doou duas balas de espingarda”, “jovem estudante cria campanha do ovo para mandar o item aos soldados”, “égua procriadora é doada para a cavalaria”.

O livro também conta o caso da Funerária Laudino, situada na Rua Alferes José Caetano, nº 54, que foi procurar veículos de comunicação para anunciar que a empresa, diante da comoção e da crise que se instalara, faria cerimônias fúnebres a preços módicos e, se preciso, de forma gratuita. “A empresa utilizou um anúncio pago em jornal para dizer que não cobraria pelos seus serviços! Na época, São Paulo ficou sem provisão. Navios que vinham com munição eram parados antes de chegar ao porto de Santos. Assim, durante os três meses do conflito houve escassez do combustível, das munições, da farinha para o pão… Não era como hoje que você vai ao supermercado e compra farinha pronta. Na época, você ia a uma beneficiadora que triturava o trigo e o comprava à granel. Alguns carros na época funcionavam com querosene e a produção não era feita aqui. Vinha de outros estados. O prefeito Luis Dias Gonzaga instituiu o ‘pão de guerra’, em tamanho e peso menores para dar uma produção constante de um item que não podia faltar na época. Há registro de doações de ovos, blusas de lã e até cigarros levados depois aos voluntários que estavam na linha de frente do confronto”, diz o jornalista.

Nani Camargo
Especial para o JP

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