Lucineide Maciel: Corporação perto da população

Integrante da primeira turma feminina da Guarda Civil de Piracicaba, em 1992, e desde 2016 também a primeira comendante mulher da instituição, Lucineide Maciel gosta de desafios e vê como essencial o uso da tecnologia para aprimorar e aproximar a Guarda do cotidiano da população piracicabana.

Formanda em Direito pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) e com especialização em polícia comunitária com área de conhecimento em segurança pública pela Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), para a comandante a representatividade feminina em cargos de liderança é importante para transformar a visão da sociedade e deixar como legado para as próximas gerações que mulheres podem ocupar diferentes cargos e funções em pé de igualdade.




Uma das implementações que marcam a gestão da comandante foi a criação, em 2016, da Patrulha Maria da Penha, que visa proteger e encaminhar para serviços sociais, de assistência psicológica e jurídica mulheres vítimas de violência doméstica. Para Lucineide, romper o silêncio é o primeiro passo.

Lucineide Maciel é casada com Marcos Antônio Corrêa Júnior, é mãe da Bruna Corrêa Maciel, de 13 anos e tem as enteadas Gabriele Polisel Corrêa, 20, e Tatiane Polisel Corrêa, 28. No tempo livre, não perde a chance de ficar em família, viajar, fazer caminhada, assistir filmes e ler livros para relaxar.

Como foi sua trajetória na Guarda Civil?
Eu entrei na Guarda Civil em 1992 – na verdade foi o primeiro concurso que teve da Guarda Civil onde podiam entrar mulheres. Entrei nesse concurso, participei, fui aprovada, fiz todas as provas ali necessárias e em 1992 assumi como guarda civil. Depois, com o estatuto da Guarda Civil, onde previa já um plano de cargos e carreira, eu fui subindo na carreira por meio de concurso interno. Passei em 1996 para a classe distinta, depois em 1998 para subinspetora e em 2012 para inspetora. Nesse período, trabalhei em vários setores dentro da Guarda tanto parte operacional na rua, como também na parte administrativa, comandei o pelotão ambiental alguns anos também. Em 2016, devido a adaptação da nova lei 3.022, onde os comandantes de Guardas Municipais têm que ser de carreira, aí eu assumi então em agosto de 2016 como comandante da Guarda Civil.

Qual é a sua formação?
Sou formada em direito pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), também fiz especialização pela Unisul [Universidade do Sul de Santa Catarina] no policiamento comunitário para que a gente pudesse realmente fazer um bom trabalho na Guarda.

Como foi a experiência de fazer parte da primeira turma feminina da Guarda Civil?
Teve vários desafios, primeiro realmente concretizar a nossa presença na Guarda, para a sociedade era muito positivo, sempre foi muito positivo e também dentro da Guarda [foi] uma situação nova, a mulher dentro da Guarda, uma Guarda centenária, uma está com 116 anos e, de repente, em 1992 entrar a primeira turma de mulheres. Então foi um período de adaptação tanto para os guardas que já estavam lá quanto para as mulheres também para dar forma à maneira de trabalho da Guarda Civil, até porque a questão da presença da mulher era uma necessidade também no atendimento das ocorrências, tanto ocorrência que atende mulher, atende criança, atende idosos, que atende a população em geral. Então essa representatividade da mulher na sociedade dentro da instituição foi necessária para que a gente pudesse melhorar ainda mais o atendimento da Guarda Civil.

Como sentiu na rua a receptividade das mulheres?
Ah, sim, era muito interessante porque daí vinha senhora e [falavam] ‘ah, minha filha também quer entrar na Guarda’, porque até então era uma das pioneiras a Guarda Civil de Piracicaba a incluir mulheres nos seus quadros profissionais. Quando muitas mulheres viram, elas se espelhavam na gente para que também seguisse essa carreira, então foi bem gratificante. Até hoje, como comandante da Guarda a gente vê essa receptividade por parte das mulheres em sentir orgulho de ter uma mulher à frente da instituição.

Tem aumentado o número de mulheres na Guarda Civil de Piracicaba?
Sim, tem aumentado. As mulheres concorrem normalmente com os homens na questão das provas escritas, os exames psicotécnicos. Os exames são todos iguais tanto para homens como para mulheres. Os salários é igual também, então é uma seleção feita em pé realmente de igualdade. Os treinamentos em sala de aula são iguais para todos. Então realmente as mulheres têm trabalhado nessa questão junto e é um progresso, uma evolução. Hoje em dia, agora já está tão consolidada a presença da mulher dentro da Guarda que não há questionamentos nem internos nem externos, porque já se entende – as outras turmas, quando a gente vê que a mulher já estava comandando quando entrou outra turma em 98 entrou outra turma, 99, 2000, 2010, várias turmas de profissionais na guarda que entraram já se acostumaram com a mulher em cargo de liderança então fica uma coisa bem tranquila. Quando eu assumi como comandante, eu já era inspetora, já coordenava toda uma parcela da Guarda e até toda parte administrativa também, então foi uma coisa bem natural dentro da Guarda.

Como é hoje ser a primeira comandante mulher da Guarda Civil?
Sempre há desafios, a gente quer inovar também, porque embora seja uma Guarda Civil de 116 anos, a gente também quer estar sempre junto com a população, atender aos anseios, e foi nesse pensamento que a gente criou a Patrulha Maria da Penha quando eu assumi, em 2017, período do prefeito Barjas Negri que me reconduziu ao posto. Então quando assumi também propus essa questão da Patrulha Maria da Penha para dar um atendimento, acolhimento especial para as mulheres. A gente entende essa questão da violência doméstica, ela existe infelizmente dentro dos lares e a gente precisa que aquela mulher rompa o silêncio, denuncie e a gente precisa dar esse acolhimento, ter um atendimento humanizado para essa mulher, para que depois que ela se fortaleça e saia, que faça a denúncia, para que ela também tenha esse atendimento de outros encaminhamentos que a Patrulha Maria da Penha também dá para serviço social, para psicólogas, serviços judiciários, porque é toda uma cobertura que a prefeitura faz, por meio do Centro de Referência de Atendimento à Mulher, e que é necessário que a mulher tome conhecimento para se fortalecer e deixar esse ciclo de violência. Nesse trabalho como comandante, vi realmente que a gente poderia trabalhar mais especificamente essa questão da mulher, a gente implantou e teve bons resultados.

O que dá para fazer de melhorias para a Guarda ficar ainda melhor?
Sempre há campo para melhorar, a gente não cansa de vislumbrar novas oportunidades, novos desenhos de policiamento. Então o que eu verifico agora e a gente já está iniciando a questão da parte de monitoramento, a nossa Central de Monitoramento. Esse investimento em tecnologia, nós substituímos um software antigo que nós tínhamos na Central ainda de 2008, então estamos instalando novas câmeras de monitoramento, que a gente entende que quando a gente utiliza a tecnologia ela acaba favorecendo o trabalho da Guarda. Você consegue ampliar o seu atendimento, você tem uma visão maior de uma determinada área com menos profissionais, atentos na utilização dos recursos da tecnologia. Acredito que o desafio é realmente trazer mais tecnologia para que a gente possa abranger um número maior ainda da população. É criar mecanismo para se aproximar mais e ao mesmo tempo ter uma resposta mais rápida.

Como mulher, como se sente ao ser comandante e estar à frente da Patrulha Maria da Penha?
Como comandante eu me sinto bem realizada, como mulher. A gente ter começado em 1992 e ter todos estes 28 anos de caminhada dentro da Guarda e poder mostrar o serviço de uma maneira justa para todos, que crie oportunidades para todos. É importante nesse papel também quando as mulheres também assumem postos de destaques, seja na iniciativa privada ou no setor público, é também deixar como referência para as outras gerações que é possível estar assumindo todos os postos de serviços, que a mulher pode estar sendo o que realmente ela quiser.

Qual sua opinião sobre as ações conjuntas das polícias Civil e Militar no município?
São imprescindíveis estas ações, porque somam as forças, seus trabalhos em conjunto. É um atendimento em comum que é para toda a população. Nós tivemos vários trabalhos em conjunto com a Polícia Militar, inclusive nos eventos que têm na cidade, somando os efetivos e compartilhando as informações. São feitos planejamentos anteriores aos eventos ou planejamentos em determinadas áreas específicas justamente para a gente otimizar as equipes que nós temos e fazer um trabalho bem mais coordenado. Então essa integração entre os órgãos e policiais que atuam no município é necessária para que a gente obtenha bons índices.

Como é o trabalho de conscientização da Guarda Civil nas escolas?
Nós temos o Pelotão Escolar da Guarda Civil já há vários anos e ele vem intensificando cada vez mais o trabalho nas escolas, principalmente para os 5os anos, que são ainda pré adolescentes. São trabalhados, além dos temas de drogas, bullying, os perigos da internet, a gente trabalha também a violência contra a mulher e a violência doméstica. São temas que a gente inseriu, está renovando cada vez mais, dando passos maiores, porque a gente acredita que esses pré adolescentes precisam entender essa questão da violência doméstica, porque às vezes eles vivenciam também nas suas casas. É preciso que eles estarem modificando aquele pensamento, porque hoje em dia algumas pesquisas que a gente levantes, os jovens ou os adolescentes e crianças que são vítimas nesses relacionamentos abusivos onde as mulheres são vítimas, as crianças também acabam vivenciando aquela situação e no futuro, nos próximos relacionamentos, entendem que aquela agressão ou deixar a mulher cada vez mais inferior fazem parte do relacionamento. Então é importante a gente mostrar que a violência contra a mulher é um crime, até para as meninas não aceitarem relacionamentos abusivos.

Se defina como pessoa?
Eu sou bem determinada quando tenho meus objetivos em mente, mas eu sempre procurei pautar as minhas atitudes, minhas ações, na questão do que eu acho justo e correto. Não sei se é por isso que acabei fazendo curso de Direito. O senso de justiça, para mim, é muito importante. Eu não gosto de ser injusta com ninguém. Eu pauto minhas decisões no que eu acho que é justo.

Qual seu conselho para as mulheres que sofrem violência e para as que estão num relacionamento abusivo?
Às vezes o que ocorre? A mulher está naquele relacionamento e ela nem percebe que ela é vítima de um relacionamento abusivo, porque o próprio relacionamento, ela com o agressor, às vezes ela acaba acreditando que ela deu causa para a agressão, é um absurdo, às vezes isso ocorre, não muito difícil, mas com uma certa frequência. Então ela tem que se perceber que ela está sendo vítima daquela violência ou conversar com uma amiga, com a mãe, com familiares. Ela tem que romper o silêncio e procurar ajuda e informações, seja através da Patrulha Maria da Penha pelo 153, seja através do Centro de Referência de Atendimento à Mulher. Mas ela tem que entender que [tem que] falar para que a gente possa ajudá-la, porque dentro das casas, ali no silêncio do lar, se essa informação não chegar para nós, não tem como a gente auxiliar. Então a gente precisa que ela faça essa denúncia. Quando ela fala, a gente previne situações mais graves. O silêncio, na verdade, só vai perpetuar aquela violência que ela está vivendo.

Qual é a importância da família?
Família posso dizer por mim que é meu porto seguro, onde a gente tem todo trabalho durante o dia e quando a gente chega em casa, a gente quer ter a paz e o sucesso, ficar junto com a família, se sentir bem, sair. Eu relaxo estando junto com a família. Tenho uma filha, marido, enteadas. Então quando a gente sai ou viaja todo mundo junto realmente é um momento de lazer e que reestabelece as forças da gente.

Nas folgas, como aproveita o tempo livre?
Bom, além de estar junto ali com a família e viajar e que amo, eu gosto de ler alguns livros bem tranquilos para relaxar a mente ou assistir filme com a minha filha. Filmes que não tem anda a ver? [risos] Mas só para relaxar? Você sabe que não existe aquilo, mas é realmente relaxar e curtir o momento de estar junto. Gosto [também] de fazer caminhada ao ar livre. São coisas que me relaxam, que me deixam bem.

Andressa Mota

Foto: Amanda Vieira/JP