Luís Antônio Leite, a Madalena – Forte, determinada e com fé em Deus

O nome de Luís Antônio Leite pode parecer incomum para os leitores do Jornal de Piracicaba e a população piracicabana em geral, porém Luís é mais conhecido como Madalena, vereador de Piracicaba entre os anos de 2013 e 2016 e um verdadeiro ícone da cidade. Pouquíssimas pessoas desconhecem essa figura simpática pelas ruas da cidade e os recém-chegados já se familiarizam com ela, sempre de bom-humor com as pessoas na rua. Filha de Luísa Leite e Inácio Leite, atualmente trabalha na Caphiv, mas em breve voltará a ser pauta entre os repórteres da cidade com mais frequência. O motivo você verá nesse Persona.

Você enfrentou preconceito por ser negra, pobre e homossexual?
Sim. Quando era vereador. Tenho um sobrinho, que é policial, e ele estava mexendo no Facebook e viu uma postagem com o meu nome em um corpo de macaco, peludo, com unhas grandes. Depois ele falou para toda a minha família e fomos na delegacia para denunciar esse caso. No dia do ocorrido estava em uma loja em Santa Teresinha comprando um terno e quando vi aquilo fiquei desesperado.

Teve uma audiência em Campinas, na qual conheci a pessoa que fez isso. Quando ele fez, era menor de idade, sendo que ele nem é de Piracicaba, é de outra cidade longe daqui. Teve a audiência e a advogada cobrou muito caro e não tinha condição de pagar para seguir o processo.

Depois disso trabalhei para um deputado em São Paulo e ele pegou o meu caso, só que até agora ele não liga para mim, não fala como está o caso. Aqui em Piracicaba esse processo está parado e quero continuar. Estou procurando um advogado para pegar esse caso. Fiquei tão chateado com isso.

Eram dois. O pai de um era promotor e o pai do outro era juiz dessa cidade. Tenho o papel da delegacia e o processo está parado, mas quero continuar. Quero continuar com um bom advogado porque estou muito chateado com essa situação.

Esse processo ainda te chateia. Você acha que ele pode te atrapalhar psicologicamente para se tornar candidato novamente?
Com certeza. Estou querendo sair candidato a vereador. Todos estão pedindo, mas estou ouvindo cada palavra sobre o processo. As pessoas me perguntam ‘como está o negócio do macaco, entre outras coisas’, tirando sarro da minha cara. Fiquei quieto, não falei nada. Agora irei ver se consigo outro advogado para resolver o caso, já que o antigo, que mora em São Paulo, ficou com os papeis. Mas ele não liga para mim, não fala nada, então quero tirar das mãos dele para passar para outro. Encontrei um aqui, mas ele falou, falou, falou e não continuou com o caso. Depois encontrei uma outra advogada, ela foi comigo a Campinas, só que o preço que ela pediu é muito caro e não tenho condições de pagar, tanto que quem pagou a primeira parte foi o meu patrão, sendo que o processo continua lá, mas quero levar em frente.

Como foram os seus primeiros anos de vida e a luta contra o preconceito. Como essas adversidades te moldaram para ser a pessoa que você é hoje?
Fico muito chateado com essas coisas, já que assumi a minha preferência sexual desde muito cedo, logo aos 7 anos de idade. Meu pai já era contra, me batia, me xingava, falando que não queria isso ou aquilo. Já a minha mãe sempre me apoiava, não só nessa questão, mas em tudo. Eu a acompanhava no serviço, então aprendi muito coisa com ela. Ela trabalhava em uma república, então me ensinava a fazer isso, aquilo. Trabalhei em muita casa de família. Perdi meu pai, depois perdi minha mãe e acabei ficando sozinho.

O meu primeiro quartinho que tive foi no Coreia, que na época era perigoso, só saía morte lá. Aluguei um quarto com uma cama de jornal e uma espiriteira que fazia café. Como trabalhava limpando casa, comia sempre no serviço. Depois de um tempo trabalhei na casa de uma advogada, na qual ela me deu uma boa casa e fiquei lá por um bom tempo. Aprendi muita coisa lá logo após perder meus pais.

Antes eu dormia na rua, dormi em uma construção na época que era moleque, entre meus 14 e 16 anos. Assistia a missa na Igreja Bom Jesus e dormia no banco. A mulher abria a igreja e me via dormindo no banco. Ela me acordava e me dava um copo de leite e pão com manteiga. Comia e continuava andando. Depois fui trabalhar na república, logo após perder a minha família. Ela (república) ficava na Benjamin, na época do Canecão.

Como surgiu o nome Madalena?
Foram os estudantes desta república que colocaram. Fiz um jantar para eles no domingo para os amigos, na qual tinha estudantes que estavam prestes a se formarem. Eles decidiram que iriam criar um nome para mim. Todo mundo escrevia um nome e colocava em uma caixa de papelão. Depois que todo mundo jantou e comeu a sobremesa, começaram a abrir os papeizinhos. Eu não estava gostando de nenhum daqueles nomes. O último papel foi de um promotor, que estava escrito Madalena. Falei na hora que tinha gostado e assim me batizaram como Madalena.

Como você me o preconceito em Piracicaba? Acha que a cidade caminha para diminuir o preconceito?
Não. O preconceito em Piracicaba está demais, porque passamos por cada uma. Acho que tinha que acabar com isso. Acabar não vai, porque você como é. Tem sempre a classe alta que não gosta de preto. Estou falando isso porque sei que é verdade. A classe média já gosta, tanto que tenho amizade com bastante gente, como vendedores de lojas e advogados, até com promotor tenho amizade. É difícil e não é brincadeira. Acho que devia acabar esse preconceito, já que na minha opinião todos são iguais, é a mesma carne que fede. Acabou aquela carne, morreu.

Você irá se candidatar a vereador esse ano? Se sim, foi o desejo popular que te inspirou?
Estou pedindo para que de tudo certo, já que estava em um partido, na qual mandava as minhas fichas. Depois troquei de partido, no qual não recordo o nome no momento, e agora estou esperando uma decisão do juiz e do promotor para ver se sairei mesmo candidato ou não. Estamos esperando, mas a advogada está correndo atrás desta questão, mandando os papéis. Porque na minha opinião trabalhei muito bem quando fui vereador. Ia para todo lugar, atendi muita gente, o meu gabinete lotava de gente e até hoje todo mundo está pedindo para voltar, porque o meu trabalho foi bastante elogiado. Sou presidente do bairro que moro, o Boa Esperança, sempre vou na Prefeitura fazer requerimentos. Teve uma vez que pedi uma academia, ainda no meu tempo de vereador. Pedi em um bairro e fui atendido. Agora pedi uma no meu, em que todo mundo está pedindo e até hoje não saiu essa academia. Você vê bueiro entupido, calçada cheia de mato e o povo me cobra.

Fui reclamar nesta semana, fui bem atendido, mas agora quero que venham fazer algo no meu bairro. Tenho time aqui, que no momento está parado em razão da pandemia, mas as crianças querem que arrumem o campo, que está com areia. Fico triste em razão de não atenderem o meu pedido, atendem apenas o do vereador que está em um escalão mais alto (nem irei falar o nome). Isso me deixa muito chateado.

Você sentia algum tipo de resistência por parte dos outros vereadores durante o seu mandato?
Para ser bem sincero, lá tinha apenas seis vereadores que me respeitavam. Só que tinha vereador que não gostava de mim. Todo mundo ia lá e comia frutas na parte de cima, só que eu não ia naquela parte, na sala do presidente. Só aparecia naquela sala quando tinha alguma reunião, mas para comer uma banana ou tomar um guaraná, tinha que ir à parte de baixo. Na outra parte era só aqueles que eram doutores, médicos, entre outras profissionais de alto escalão.

Outro fato que me deixava mais triste é que quando entrávamos na Câmara dos Vereadores para ir para a sessão, todos os vereadores que entravam, eles apareciam no telão. Quando era comigo, só aparecia eu entrando e quando me sentava, ficava na última fileira, não aparecia no telão para todo mundo ver. Tinha aquele computador grande bem na minha frente. Depois falavam que aparecia todos no telão sentados e perguntavam o porquê eu não aparecia.

Passei por muita coisa lá, mas sempre pedia forças a Deus e consegui ficar os quatro anos lá. Agora o povo quer que eu volte.

Essa possível volta caso seja eleito, seria mais por você ou pelo povo?
Quero voltar para ajudar o povo e estou esperando as decisões dos promotores e dos juízes, já que está nas mãos deles. Estamos torcendo para ser candidato. Sendo bem sincero, sei que tem vereadores lá que estão mexendo os pauzinhos para não ter a minha candidatura aprovada. Essa parte é complicada, mas Graças a Deus trabalhei muito bem, atendi tudo mundo, pegava o ônibus e ia atender todo mundo.

Você foi vereadora entre 2012 a 2016, porém não tentou a reeleição quatro anos atrás. Você se arrepende desta decisão?
Me arrependo sim. Porque o povo queria que eu voltasse. Não tentei a reeleição em razão do poder, já que fizeram uma sem vergonha tão grande comigo lá. Preenchi a papelada certinho, porém em razão do poder acabaram puxando o meu tapete.

Como foi a sua vida após ser vereadora?
Não irei dizer que estou bem, já que a situação está bem apertada. São contas para pagar e coloquei algumas pessoas para tomarem conta do gabinete, mas foram sacanas comigo, no banco. É muito conta que tenho que pagar, sendo que não foi nem para mim que comprei, já que fizeram uma atrapalhada com meu nome, na qual tiravam dinheiro meu do banco. Foi uma palhaçada. Olhando para o outro lado, foi uma coisa boa para mim, para poder escolher as pessoas certas para trabalhar comigo.

Caso seja eleita, esse mandato seria diferente da primeira legislatura e quais projetos ela pretende implementar?
Em primeiro lugar, o problema é que tem muita família reclamando comigo sobre inscrição de casa. O que acontece é que eles se inscrevem e nunca ganham a casa, agora outras pessoas fazem e ganham apartamentos. Tem gente que conheço que não era para pegar, já que já tem casa própria, tem o carro do ano. Se passar pelos predinhos, você vê bastante gente com apartamento lá, sabendo que tem casa na cidade e alugam apartamento. Estou com mais de 20 famílias que faz tempo que fizeram a inscrição e nunca ganharam um apartamento. Essa será a minha briga e será dura.

Outro problema e em relação as creches. Tem muita mãe que precisa trabalhar e não consegue em razão da falta de creche. Tem várias ‘madames’ que procuram e conseguem creche, sem ao menos precisar. Agora, a classe baixa, que precisa trabalhar para colocar a criança na creche, infelizmente não consegue.

Qual é a sua avaliação em relação ao atual momento político do Brasil?
A situação está feia. A situação da polícia nem se fala. Na minha opinião, não só em Piracicaba mas no Brasil inteiro. Deveria tirar todos os políticos, aqueles que já estiveram no poder há muito tempo atrás e que voltaram agora, tem que tirar tudo. Tem que pegar políticos novos, começando do zero.

O que vejo na televisão é roubo, roubo e mais roubo, dinheiro e mais dinheiro. Agora, os culpados desta situação somos nós mesmo que não sabemos votar nas pessoas certas. Se o povo decidisse escolher um presidente bom, da classe que realmente vai ajudar os pobres, seria difícil, já que quem realmente ajudaria os pobres.

Gostei por um tempo da época do (José) Sarney (1985 a 1990), já que naquele tempo ele congelava todas as coisas. Ficava quatro anos congelado. Naquela época a pessoa comia, bebia, tinha seu dinheiro. Agora você vai no supermercado, um quilo de feijão, pagava R$ 2,50. Agora vou comprar feijão (que não é o bom) e paguei R$ 7,50. Agora o feijão bom está R$11, o pacote de arroz R$25. Você tem que procurar o pacote que está metade do preço, sendo que o preço não para de subir. Está complicado.

Aqui no Boa Esperança falta água todo dia. Chega o talão de água você tem que pagar. Se for reclamar, não tem acordo. Quando era vereador já veio uma conta de água no valor de R$ 10 mil. Até perguntaram se tinha piscina na minha casa. Procurei um advogado na época e ele me ajudou muito, tanto que não paguei aquele talão.

Passo por cada uma, mas sempre peço a Deus que dê muita força para mim.

Mauro Adamoli

Crédito da foto: Amanda Vieira/JP