Luís Fernando Magossi: “Eu vivo do rio, no rio e para o rio”

Foto: Claudinho Coradini/JP

Piracicabano apaixonado pelo Rio Piracicaba, Luís Fernando Magossi, conhecido como o Gordo do Barco, vive do rio, no rio e para o rio. Presidente do Instituto Beira Rio, que já há 10 anos realiza ações de cuidado com a manancial que dá nome à cidade, também é uma das personalidades da Rua do Porto com o passeio de barco que executa há 12 anos e meio, impulsionando o amor pelo Rio e o turismo da cidade.


Nascido em 1962, o Gordo do Barco é filho dos professores Persão Magossi e Maria José Jordão Magossi. Desde menino, já nutria um amor sem igual pelo Rio Piracicaba, sempre pedindo aos pais que o levassem ao rancho do tio para comer mandi frito. Estudou na EE. Professor Elias de Mello Ayres, no Colégio Técnico Piracicabano e no CLQ Piracicaba.


Começou a trabalhar cedo, aos 15 anos, em um escritório contábil e também já atuou como programador de computador na Cooperativa dos Plantadores de Cana, na antiga fábrica de bolachas Júpiter e em empresa em São Paulo. Ele é casado com Lucimar Regina Custodio, com quem tem a filha Juliana Nathalia Custodio, 30 anos.


O passeio de barco, que hoje é um cartão-postal de Piracicaba, foi sonhado pelo Gordo do Barco no decorrer de 24 anos, com idas e vindas para acertar a burocracia com o município. Hoje é sua principal fonte de renda ao proporcionar contato íntimo dos visitantes com a beleza das águas do Piracicaba.
Você confere no ‘Persona’ desta edição um pouco mais da história de Luís Fernando Magossi, o Gordo do Barco.

Como surgiu a ideia e como colocou em prática o passeio de barco no Rio Piracicaba?
Eu trabalhei na Cooperativa dos Plantadores de Cana como programador de computador, há mais ou menos 30 anos, e um dos meus chefes, Antonio Mendes de Barros Filho – diretor da cooperativa, um dia pescando aqui no Rio Piracicaba de barco (esperando um outro amigo chegar para gente descer pescar mandi) ele encostou o carro e me chamou, falava “Luisinho”, e perguntou se eu poderia levar os parentes dele que vieram para um casamento dar uma volta de barco. Falei ‘opa, vem cá que eu levo’. Aí descarreguei as coisas do barco e levei cinco pessoas e por incrível que parece eu fiz exatamente o mesmo passeio que eu faço hoje. Passei a ponte, voltei. Na segunda-feira ele me chamou na sala dele e disse que o pessoal gostou muito, adorou. Perguntou por que eu não faço isso como profissão, meio de vida. Eu falei que já havia pensado nisso, mas aí fui me aprimorando.


Ele fez um projeto, depois o Jairo Mattos, que é meu primo, também deu uma força junto à prefeitura, indicou para quem eu falasse na prefeitura. Aí eu tentei por 24 anos fazer o passeio e nunca deu certo. A documentação da Marinha eu tinha, como a carteira de piloto. Depois na primeira gestão do Barjas, o secretário na época era o Omir Lourenço, fui lá, explanei de novo o projeto, gostaram de ideia e comecei a fazer o passeio. O primeiro barco foi da Levefort, uma embarcação muito boa. Levei para eles verem, gostaram e é um sucesso até hoje.

Tem uma média de quantas pessoas fazem o passeio por mês? De quais cidades, países?
Tem dia que eu dou 20 viagens, mas com uma pessoa, duas, cinco. É muito relativo o número. O passeio de sábado é mais fraco, domingo depois das 14h lota. O pessoal vai almoçar, depois vem todo mundo junto no barco, então dá aquela fila grande. Todas as cidades da região e muitos países. Japão, Coreia, China, Estados Unidos, Nova Zelândia, África do Sul. Tem um senhorzinho da Espanha que vem sempre – ele é apaixonado pelo nosso rio.

O Rio encanta todos que passam pela cidade, qual é sua ligação com ele?
Eu vivo do rio, no rio e para o rio. Eu tenho o Instituto Beira Rio que nós fazemos várias ações, mas eu adoro o Rio Piracicaba desde criança, desde que eu estava na barriga da minha mãe, ela e meu pai vinham pescar aqui no vai e vem, perto do trampolim. Depois que eu nasci, o meu tio Maneco Rios tinha um rango aqui nas Ondinhas e eu pedia para ir todo dia no rancho para comer mandi frito, tinha foto segurando peixe do meu tamanho. A minha ligação com o rio é amor mesmo. É paixão. Tanto é que, como eu acordo muito cedo, quase todo dia 5h, 4h30 da manhã já estou na beira do rio vendo, fiscalizando, matando a saudade.

Já deve ter tido muitas experiências no rio, não?
Nesses 12 anos e meio de passeio de barco, como a gente fica muito tempo dentro d’água, a gente vê coisas de tudo quanto é tipo. Eu já participei de 43 salvamentos. Dos 43, foram 41 afogamentos e duas tentativas de suicídio, todas elas bem-sucedidas. Até hoje não perdi nenhum. Você fica aqui e percebe gente nadando, em apuro, corre e é uma missão de todo piloto da Marinha. A gente vê, corre, pega e, graças a Deus, desses 43 nenhum morreu.

Como a quarentena pela covid-19 impactou o turismo e o passeio de barco?
Por volta de 16 de março nós paramos o passeio. Foi muito difícil, porque nós recebíamos muitas ligações, e-mail, mensagem de turista. Ficamos 6 meses e meio parados, nesse entre meio, como antigamente eu fabricava linguiça caipira para vender, eu voltei a fazer isso, vendia 100, 120 Kg por semana, enquanto eu não estava trabalhando com o barco. Agora eu voltei para o barco, mas o pessoal continua pedindo. Então vou ter que voltar a fazer mais um pouquinho, pelo menos para os amigos. Mas foi muito difícil. A gente tem isso como receita, só tem esse emprego, então não é fácil. Nós passamos bem apertados, mas com a volta nós estamos seguindo todos os protocolos: máscara, álcool em gel, pulverização dos coletes do barco, distanciamento. Não é fácil, mas eu procuro seguir à risca para não colocar nem a nossa vida em risco nem a dos outros.

Como avalia que tem sido a retomada do turismo com a flexibilização da quarentena?
Com a flexibilização, nós voltamos há uns 2 meses, você percebe que o turista está louco para sair, passear. Mas é o que falei, nós estamos seguindo os protocolos. Já teve vez de eu ter que devolver dinheiro para pessoas que estavam sem máscara – se bem que eu tenho máscara na cabine – mas a pessoa recusava em usar, então devolvia o dinheiro e não deixava andar no barco. Se não tiver seguindo os protocolos, não vai no barco. Tanto o protocolo da covid-19, que são os municipais e estaduais, quanto o protocolo da Marinha. Os coletes salva vidas, os meus são todos novos, trocados periodicamente. Como ficam muito no sol, desbotam, então ficam feios, então sempre troco. Ninguém sobe no barco sem colete salva vida.

Em sua análise, quais devem ser as prioridades da nova gestão para alavancar o turismo na cidade?
Eu nunca tive problema nenhum com gestão. Antigamente foi a gestão do Barjas, sempre tive todo apoio possível da prefeitura. Com essa gestão nova do novo prefeito, que é o Luciano Almeida, eu percebi que ele tem nomeado secretários bastante técnicos. Isso é muito bom, principalmente na área de turismo que nós precisamos de relacionamento muito bom com outras cidades, estados e governo. Isso ajuda bastante se a pessoa for técnica, especializada na área de turismo. Estou bastante confiante que o turismo de Piracicaba vai retomar esforços, na hora que terminar a covid. O turismo de Piracicaba é maravilhoso, a Rua do Porto, essa orla, os restaurantes, esse ponto gastronômico da cidade aliado com o passeio de barco, trenzinho e com as maravilhas do Rio Piracicaba, isso aí só tem que dar certo, não tem como dar errado. Igual você fazer uma queijadinha de mandioquinha. Vai mandioquinha, leite condensado e parmesão, tem como dar errado? Não tem como dar errado.

Pode contar um pouco sobre o objetivo e atividades do Instituto Beira Rio?
Ele existe há 10 anos. Era um sonho antigo que eu tinha de fazer alguma coisa pelo Rio e nós tivemos, junto a alguns amigos, [um inclusive] que hoje é o vice-presidente do Instituto, que é Paulo Roberto Fredericci, também topou a ideia. Nós montamos uma ONG, ela se chama Instituto Beira Rio e a gente vem prestando serviço para o rio e ao meio ambiente há 10 anos. A princípio foi limpeza de rio, das margens, plantio de árvores. Depois nós entramos na soltura de alevinos, pelo convite do Josias Zani Neto, que hoje ele foi eleito de novo prefeito de Santa Maria da Serra, do Benedito Moura da Silva, que era responsável pelo passeio de barco de Piracicaba, que já é falecido.

Nós começamos a participar da soltura de alevinos, proporcionada por uma parceria que tem que ser muito elogiada e ressaltada que é com a AES Tietê, a concessionária das barragens, por um programa de manejo sustentável. Em 9 anos e meio com todas as parcerias, que são vários nomes, nós conseguimos a soltura de 1.100.000 alevinos em tamanho juvenil. É muito importante falar o tamanho juvenil porque alevino o pessoal já pensa em peixe de 2 centímetros, aí por choque térmico, por predação, morre muito. Um juvenil já tem de 8 a 12 e é muito mais difícil ele morrer desse tamanho. Então praticamente tudo que solta sobrevive. Então essa enormidade de peixe que tem hoje no Rio Piracicaba com certeza é dessas parcerias. Meu agradecimento à parceria com a AES Tietê, que tem esse programa de manejo, pelo seu biólogo que se chama Silvio dos Santos. Eles estão ajudando a gente encher nosso rio novamente.

Quais são os outros projetos do Instituto?
O Instituto zela do rio, faz a limpeza, plantio de árvore, algumas palestras em escolas, conversas mesmo com estudantes, a soltura de alevinos que é muito importante para nós, algumas retiradas: em 10 anos já fizemos cinco ou seis retiradas de árvores que ficam no leito do rio que podem, quando o rio está baixo, prejudicar a navegação de quem não conhece muito bem o rio. Isso tudo com o auxílio da prefeitura e a autorização do Ibama.

Qual é o trabalho do instituto agora que estamos durante a piracema?
Durante o piracema, o melhor serviço nosso é conscientização, porque agora, se você pegar um peixe e se for fêmea, você está atrapalhando a desova desse peixe. Imagine quantos alevinos você pode fazer deixar de nascer se você pescar esse peixe. Então em meses meses temos que ter consciência e não pescar na época da piracema. Outra briga muito grande do Instituto que, com certeza, esse ano nós vamos conseguir mais adeptos (inclusive já temos contato com alguns vereadores) para a gente fazer um movimento em Piracicaba para que o Sistema Cantareira use nossa água com mais respeito e não deixe o Rio Piracicaba secar, igual todo ano está fazendo, que criem outro projeto lá para cima, para água para São Paulo, mas que pensem bastante no Rio Piracicaba. Ano passado o rio chegou em 15 m³/s – disso aí para haver uma mortandade muito grande de peixe é um passo. Então vamos torcer para que a gente consiga fazer um movimento com a Câmara Municipal, com o Executivo e com a população pedindo mais respeito com o nosso Rio Piracicaba em quantidade de água.

Andressa Mota

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