Luiz Carlos Furtuoso: Haverá uma mudança nos hábitos de consumo do setor comercial

O empresário paulista Luiz Carlos Furtuoso, 68, chegou a Piracicaba com um ano de idade. Filho do casal Isabel Nassif, é formado em administração de empresas pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) e pós-graduado em Planejamento Estratégico de Marketing.

Ele começou a trabalhar ainda muito novo em uma gráfica. Em seguida, trabalhou em uma rede de supermercados, onde começou como escriturário e, aos 24 anos, se tornei diretor da empresa. Neste mesmo grupo, trabalhei no ramo de construção civil.

Em 1983, inaugurou a loja Ao Zequita. Com o crescimento, formou a rede Cigana, atualmente com oito unidades: duas em Piracicaba, quatro em Campinas, uma em Francisco Morato e uma em Hortolândia. A experiência e conhecimento do comércio garantiu a ele ocupar a presidência da Acipi (Associação Comerciam e Indusatrial de Piracicaba), a qual está à frente – pela terceira vez – desde 2018.

Desde o início da pandemia de covid-19, o comércio vem sofrendo o impacto na economia, que já ocorria há quatro anos com a crise que atingiu grande parte das empresas.

Nesta entrevista ao Persona, o presidente da Acipi fala as expectativa do setor e dos rumos que a economia deve seguir, passada a crise na saúde.

Como está a situação do comércio em Piracicaba nessa época de pandemia?
A pandemia está impactando e ainda impactará fortemente na economia de Piracicaba, visto que Piracicaba tem um papel importante no Estado de São Paulo. Uma cidade com mais de 400 mil habitantes demanda um comércio amplo e dinâmico para que seja abastecida. E a partir do momento que apenas alguns estabelecimentos ficaram abertos em atividade, após o decreto estadual, o consumo ficou concentrado nessas empresas. Por outro lado, muitos produtos deixaram de ser comprados, visto que o estabelecimento que a pessoa costumava consumir estava fechado. Tudo isso impacta na saúde econômica das empresas, ainda mais que, mesmo fechadas, elas continuaram com os custos, como aluguel, sistemas, segurança, folha de pagamento, etc. O setor de alimentação também foi muito atingido. Eles tiveram que fechar o atendimento presencial e continuam fechados. Não podemos nos esquecer do período de crise, nos últimos quatro anos, que absorveu o capital de giro da maioria das empresas. Justamente quando algumas estavam se recuperando desse período, foram surpreendidas com a suspensão das atividades por conta da pandemia. Entendemos que a maioria delas estão tentando se adequar e se reinventar por meio de e-commerce e delivery, mas mesmo assim a venda não é igual se os estabelecimentos estivessem funcionando plenamente. Nós vamos conhecer realmente as consequências de tudo isso, quando as empresas puderem reabrir como antes.

Piracicaba é um polo comercial que atende à Região. Diante de uma crise como essa que o mundo vive, essa posição (de referência para as cidades do entorno) é positivo ou negativo? O impacto é maior?
Piracicaba é um polo comercial da região, não só do comércio, mas também de serviços e de Educação. As cidades no entorno de Piracicaba utilizam a nossa estrutura para complementar o consumo daquilo que não têm. Isto movimenta muito a cidade. A partir do momento em que as pessoas vêm à Piracicaba com o objetivo de suprir a demanda não encontrada no local de origem, proporcionam uma maior movimentação nos negócios daqui.

A paralisação das atividades na cidade, portanto, não incentiva as pessoas de fora para consumirem aqui. Este espaço deixa de ser ocupado. Em substituição, os consumidores procuram o e-commerce, as vendas por meios digitais. Realmente, Piracicaba perdeu pelo fato de suas atividades não estarem funcionando. Isto pode impactar em mudanças de hábitos da região, que se abastece em torno de Piracicaba. O impacto disto será sentido efetivamente na retomada total das atividades.

Como o senhor avalia o isolamento e o período de quarentena determinados pelo Governo Estadual?
Com relação ao decreto do Governo do Estado de São Paulo, nossa visão é que foi feito de forma não planejada. Ficou até um pouco estranho porque já que existia uma orientação do Ministério da Saúde para o Carnaval de rua não ser realizado e São Paulo optou por fazer. O governador Dória incentivou, disse que seria o maior Carnaval do Brasil. Houve uma concentração muito grande de pessoas naquele período. Logo em seguida, veio a paralisação das atividades comerciais e dos serviços. Isso mostra que não houve planejamento e de forma abrupta as atividades foram suspensas sem ouvir a classe empresarial, que conhece o dia a dia dos setores. Assim, as empresas não tiveram tempo hábil para se organizar, planejar, cumprir as regras trabalhistas, concluir entregas de produtos já comprados, receber mercadorias, adequar o estoque de produtos perecíveis, entre outras ações. Houve o primeiro fechamento por 15 dias, depois mais 15. Já estamos há praticamente 90 dias assim, sendo que só agora o comércio começou a funcionar parcialmente. Ao meu ver, portanto, o Governo do Estado não se planejou e se precipitou. Poderia ter feito de forma mais organizada, investido mais na orientação da população e preparado o estado para a oferta suficiente de produtos necessários, como álcool em gel e máscaras desde o início. O resultado desse fechamento, naquela oportunidade, não foi dos melhores. Se fosse feito de forma mais planejada e com maior orientação à população, com certeza, os impactos positivos seriam maiores.
 
Houve diálogo com o Estado no sentido de flexibilizar o funcionamento do comércio em Piracicaba?
Não há um diálogo com o governador do Estado. Inclusive, entidades como a Facesp (Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo) e outras representantes de segmentos do varejo, indústria e serviços, reclamaram que não foram recebidas pelo governador. Quando ele diz que recebeu empresários, são alguns, de um grupo muito próximo dele, que não representam o setor de varejo. Ele começou a aceitar algumas sugestões por meio do seu vice depois de 45 dias de paralisação. Ele não é um governador aberto ao diálogo, diferentemente daquilo que vem pregando. Nosso contato durante todo este tempo, o nosso diálogo, aconteceu com a Prefeitura de Piracicaba e, também, tentamos de outras formas judiciais reabrir o comércio, porém sem êxito. O Tribunal de Justiça de São Paulo não acatou.

Quando falamos da proposta de flexibilização da Acipi e de outras entidades ligadas ao comércio, como era a ideia de retomar as atividades?
Quando falamos de flexibilização nos setores do comércio e serviços em Piracicaba, a quantidade de empresas que são consideradas essenciais e que puderam abrir é pequena, considerando o tamanho da nossa cidade e o número de habitantes. Assim, ao meu ver, ocorreu uma concentração de pessoas nesses estabelecimentos e até mesmo aglomeração, indo totalmente contra o que as secretarias de Saúde vêm pregando. Quanto menor o número de estabelecimentos atendendo, maior a concentração de pessoas. Sobre o horário de funcionamento é a mesma coisa. Então, é necessário que você tenha um horário de atendimento maior, mais amplo, para que possa atender sem aglomeração. Assim é possível planejar e organizar prezando pela saúde e segurança dos consumidores e equipe de funcionários. A cautela e o rigor nas medidas de segurança são muito importantes. O uso de álcool em gel, higiene constante das mãos, máscaras e tapetes sanitizantes nos estabelecimentos são essenciais. É necessário que o transporte público também seja adequado ao horário de saída e entrada do comércio, para que não coincida com horário de outros setores, como a indústria. Esses são cuidados básicos que deveriam ser tomados não só nesse período, mas que com a pandemia devem ser ainda mais rigorosos para evitar a contaminação.

A Acipi pesquisou 268 empresas associadas consideradas essenciais (que permaneceram abertas na quarentena), com 3.449 funcionários, e nenhuma delas teve casos confirmados de covid-19. Divulgamos essa informação, mostrando que, ao contrário do que muitos pensam, o fato de algumas empresas estarem abertas não impactou no aumento da contaminação.

Há pedidos de fechamento de lojas e outros estabelecimentos comerciais na cidade?
Vamos entender o real cenário quando todo o comércio estiver liberado. Apesar de o comércio em Piracicaba estar aberto por quatro horas no dia, estabelecimentos como os restaurantes e casa de eventos estão fechados para atendimento presencial ao público e, de acordo com o decreto, assim permanecerão por mais um tempo. Mas já temos uma amostragem que alguns estabelecimentos não retomarão suas atividades após a liberação. Mesmo no comércio, parcialmente liberados, algumas empresas não reabriram.

Quais setores do comércio sofrerão mais com essa pandemia e quais conseguirão se manter, após a retomada das atividades? 
Creio que o setor de serviços, que englobam restaurantes, lanchonetes, casas de festas e eventos, serão mais afetados pois permanecerão fechados por mais tempo, sem receita no período. Porém, outros setores também estão com problemas, pois o consumo como um todo é menor.

O senhor acredita que o emprego no setor comercial corre o risco de fechar vagas? Há uma estimativa?
Houve o fechamento de muitos postos de trabalho em Piracicaba de acordo com os números de Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). No total, em abril, foram fechados 1.677 postos. Só do Comércio foram 716. O setor de Serviços fechou 700 empregos e a Indústria demitiu 449 funcionários. Agora, os impactos devem ser ainda maiores nos próximos meses, pois até o momento, algumas empresas utilizaram da suspensão de contrato e redução de jornada para tentar equilibrar as contas e manter os empregos. Depois desta fase, mesmo trabalhando para isso não acontecer, acreditamos que a perda de mais postos de trabalho deverá acontecer.

Como a Acipi atuou junto à prefeitura nesse momento de crise?
Tentamos de várias formas e compreendemos que a Prefeitura de Piracicaba era obrigada a seguir o decreto estadual, que sobrepõe os municipais. No entanto, tentamos a flexibilização também judicialmente. É importante enfatizar que a flexibilização foi proposta de forma consciente, prezando pela saúde dos consumidores e funcionários. No entanto, o próprio Ministério Público de Piracicaba e também o Tribunal de Justiça de São Paulo foram contra a liberação.

Houve algum aporte financeiro da entidade à administração municipal para leitos de UTI ou outros investimentos na saúde?
A Acipi trabalhou junto aos hospitais e entidades assistenciais fornecendo álcool em gel para que, naquele momento de necessidade, da falta deste recurso, pudessem contar com os produtos. Também, junto ao Rotary Club Luiz de Queiroz, a Acipi doou 50 mil máscaras para setores da sociedade que mais precisam, tanto os segmentos de saúde quanto pessoas com maior dificuldade financeira para adquiri-las. Doamos cestas básicas para a Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) e outros itens de alimentação e necessidades básicas para instituições assistenciais da cidade.

Passada essa crise, o senhor acredita que haverá uma mudança nos setores comercial e industrial de Piracicaba?
Passado o período de pandemia, deverá haver, sim, uma mudança nos hábitos de consumo no setor comercial, e industrial no Brasil. As pessoas aprenderam a fazer suas compras de uma forma diferente. Muitas delas voltarão a comprar da forma tradicional, como sempre fizeram, mas evidentemente que o atendimento on-line perdurará. Mesmo com certa liberação, ainda que por um período, as pessoas ainda ficarão mais recolhidas em casa. Acreditamos que teremos mudanças de hábitos e os setores já estão se preparando para isso. A Acipi tem feito muitos treinamentos on-line, lives com especialistas, além da ampliação dos canais de atendimento aos associados. Para o setor industrial, independente de Piracicaba ou não, acredito que deveríamos aproveitar essa oportunidade para incentivar a nossa indústria, substituindo produtos importados pelos nacionais, além de agregar maior valor aos produtos agrícolas que são exportados. Isso reflete na geração de mais empregos e eleva o valor dos produtos na exportação.

Seria interessante que houvesse uma proposta entre o governo e os setores produtivos para que fosse possível produzir mais no Brasil, substituindo a importação. A pandemia nos mostrou que o nosso país não pode depender de importações de industrializados provenientes de um único país para o abastecimento. Hoje, há uma dependência muito grande da China e ficou claro que haverá uma distribuição da produção entre outros países. Isso deverá refletir em uma mudança significativa daqui para frente no mundo.

Qual lição essa pandemia deixa para os setores produtivos de maneira geral?
Acreditamos que devemos, neste momento, aperfeiçoar a produção e evoluir fortemente do sistema tributário, além de incentivar a indústria nacional para gerar mais empregos, movimentar a economia e, consequentemente, ficar menos dependentes de importação. A maioria dos produtos importados poderiam ser facilmente fabricados aqui e, atualmente, não são por questões tributárias e trabalhistas. Por isso, deixa de exportar produtos de alto valor agregado. É uma forma de enfrentarmos esse período difícil que estamos passando. Sairemos com o propósito de melhorar a qualidade de vida do brasileiro, investindo em treinamento para qualificar cada vez mais a mão de obra no país. Assim, com certeza, nossos setores produtivos serão mais competitivos no mercado mundial.

Beto Silva

Crédito da Foto: Claudinho Coradini/JP