Mãe querida!

Todos dizem assim: “Mãe é uma só”. Meu marido dizia sempre que a mãe cria dez filhos, dez filhos não cuidam de uma mãe… Os dez terão a vida cheia de compromissos e nenhum com tempo para ela. Contudo, temos visto pessoas amorosas cuidando dos idosos. Em minha família mesmo, tivemos a experiência de acompanhar minha mãe e meu pai nos longos anos de dependência, e vimos de perto o que é esta fase da vida.
Mas a chamada “rainha do lar” há de merecer eternamente uma atenção especial. A palavra “mãe” soa-me como aconchego, ninho, proteção. A presença materna na infância é uma doçura impossível de ser descrita. A comida da minha mãe, os bolos, os doces, a casa asseada, a limpeza feita com tanto capricho. A nossa roupa branca, tão bem lavada e passada no azul do anil.
Minha mãe foi uma destas mulheres trabalhadeiras. Pouca coisa a intimidava. Ela dizia: “Nada pode nos enfrentar”. E com este dito, este espírito intrépido, passou a vida costurando, cozinhando, limpando, fazendo as compras da casa, organizando tudo para nós, seis filhos que exigiam dela tempo e atenção.
Havia brilho em seus olhos com o conforto do fogão a gás, a enceradeira, o ferro elétrico, a geladeira, a máquina de lavar, a televisão! Desfez-se dos móveis antigos, das cadeiras desconfortáveis, e comprou um jogo de sofás para a sala de estar. Minha mãe merecia tudo aquilo e meu pai reconhecia nela uma mulher de imenso valor.
Eu tinha vergonha da letra da minha mãe. Que dificuldade, quando ela tinha de assinar o boletim do primário! Era um garrancho tão feio e ilegível. Ela mesma o admitia, mas elogiava meu progresso infantil pelas mãos de dona Júlia, minha amada primeira professora do Grupo Escolar Barão do Rio Branco.
Quando mocinha e estudante ginasial, nas provas, antes de dormir, eu deixava um bilhete sobre a mesa da cozinha: “Chamar a Marisa às seis horas”. E ao acordar, o cheiro do café era a mais bela sorte nesta vida! Minha mãe logo mais iria à padaria bem próxima, comprar o pão filão grande e crocante, o pão sovado, o pão com torresmo. O leite já estava fervido e a mesa posta.
Depois do café, estudar. “Mãe, a senhora é que é feliz, não tem prova de matemática pra fazer”. Ela passava a mão na minha cabeça e dizia: “Vai, não converse, estude”. Eram momentos de agonia e êxtase. Às vezes, precisava repassar toda a matéria e pedia para ser acordada às cinco. Ela me chamava. Sem despertador. Não sei como fazia. O dia ainda escuro, estrelas no céu. E quando o clarão do sol anunciava o amanhecer, eu saía ali fora, na lavanderia, para ver um espetáculo que ficou gravado na minha alma.
Tantas coisas lembram minha mãe! Mas este momento matinal ao lado dela era um sonho. Só nós duas ali na cozinha e o silêncio para recordar a matéria da prova era pura gratidão. Eu sabia que tinha uma grande mãe e que podia contar com ela para tudo.
O dia nascendo, o aroma do café, do pão, o barulho das xícaras, e minha mãe na lida diária de um tempo onde era permitido sonhar. Havia inocência, beleza, corpo crescendo, fé e esperança. Nos sonhos, ela me sorri, distante. Está com um vestido estampado, de cintinho na cintura. A expressão de quem espera uma visita, talvez a irmã de São Paulo, que amava de paixão.
Mãe de tantas manhãs maravilhosas, de onde você estiver me abençoe, por favor. Interceda por mim no céu. Preciso tanto, tanto da sua bênção. Mãe querida!

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