Maestro dá identidade sonora à Orquestra Sinfônica de Piracicaba

Piracicabano, Jamil Maluf é conhecido pelo carisma entre o público, especialmente os que apreciam a cultura da cidade. Desde 2015, ele concilia sua agenda entre a capital paulista, onde é regente e criador da OER (Orquestra Experimental de Repertório), e sua cidade natal, onde deu nova vida à OSP (Orquestra Sinfônica de Piracicaba), como diretor artístico e regente titular.

Sempre preocupado em unir bons músicos, elaborar um repertório de qualidade e em democratizar o acesso das pessoas por meio de apresentações gratuitas, o maestro avalia a repercussão desse trabalho, que também contempla as crianças da rede municipal de ensino e ganhou repercussão nacional.

Segundo Maluf, os bons frutos devem ser divididos entre o poder público, a iniciativa privada e o público, por ele definido como o maior patrimônio da OSP. Nesta semana, o filho do casal Jamil e Talge Maluf concedeu uma entrevista ao Persona onde falou da influência da musica em sua vida, seu trabalho e desafios da carreira.

Como tem sido essa fase de maior contato com Piracicaba, sua Cidade Natal?
De reconexão, e, principalmente, de pertencimento. Exceto pelo período em que permaneci na Europa para os estudos, sempre estive em Piracicaba. Aqui residem meus familiares e amigos. A diferença é que, com a OSP, voltei a ter o sentimento de pertencer a um lugar, ainda que não more nele. Como o rio Piracicaba, que em determinados épocas tem suas pedras as aparentes, e que depois volta, com a força das águas. Sinto que Piracicaba é minha morada espiritual.

Quando está em Piracicaba, o que costuma fazer?
Aproveito o tempo livre ao máximo para estar ao lado da minha mãe, cuidar de sua saúde. E também para apreciar as singelezas do cotidiano piracicabano: os lindos balões que colorem o céu, a cidade mergulhada na neblina da manhã. Ou mesmo uma caminhada na rua do Porto, no rio, na Esalq, ir ao Senadinho para comer um lanche. Em todos os meus retornos, Piracicaba traz surpresas agradáveis e as melhores lembranças.

Seu interesse pela música vem de influências da família?
Enquanto as crianças da minha idade gostavam de futebol, preferia ficar dedilhando o velho piano Essenfelder que tínhamos na sala de visitas de nossa casa, na rua Dom Pedro 1º. Quando jovem, passei a acompanhar o meu irmão, Renato, nas aulas de piano. Ele não gostava do instrumento, estava mais interessado no futebol, enquanto eu estreitei as afinidades musicais.

Sua escolha profissional sempre foi a música?
O meu pai queria que me tornasse médico, mas sempre quis ser músico. Fui para São Paulo para me preparar para o vestibular de medicina, que nunca prestei. Por seis anos fiquei na Europa, onde me aprimorei em regência orquestral. Voltei ao Brasil e pude, no Theatro Municipal de São Paulo, desenvolver várias funções e desafios, entre elas a minha grande paixão, que é a montagem de óperas.

Em São Paulo, o senhor também ficou conhecido por aproximar a música erudita de outros gêneros, como a MPB.
Esta foi uma proposta de muito sucesso com a OER (Orquestra Experimental de Repertório), que recebeu Gal Costa, Zizi Possi, Ná Ozzetti, Maria Gadu, Sepultura, Hermeto Pascoal, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé. Fomos pioneiros no “Cinema em concerto”, com a orquestra acompanhado a trilha sonora de filmes conhecidos, projetados no telão. Recentemente, com a OER, encerramos a programação da Virada Cultural, em São Paulo, com o cantor Branco Mello, do Titãs, e Miranda Kassin.

De que forma surgiu o convite para estar à frente da OSP?
O processo de aproximação começou em 2014, quando o casal piracicabano André e Mayumi Micheletti, que também são músicos, me visitaram em São Paulo, em minha residência. Naquele período estava afastado da Orquestra Experimental de Repertório. André e Mayumi me convidaram para reger a OSP, no encerramento do 5º Feimep (Festival Internacional de Música de Piracicaba). A repercussão do público foi calorosa e vimos que o público piracicabano já abraçava a OSP. Mesmo com uma história de mais de 100 anos, só eram promovidos concertos esporádicos, o que nos fez começar o projeto de ampliação.

De que forma essa etapa se desdobrou?
Foi fundamental as compreensões do poder público e da iniciativa privada (e, aqui, eu faço questão que seja no plural). A partir do contato com a secretária da Ação Cultural e Turismo, Rosângela Camolese, expusemos a necessidade de maior subvenção pública. Iniciamos as conversas com a secretária de Educação, Angela Jorge Corrêa, para os projetos didáticos. Conseguimos a aprovação do aumento do repasse na Câmara de Vereadores e fomos procurar as empresas. Não posso esquecer da sensibilidade do ex-prefeito Gabriel Ferrato e também do prefeito Barjas Negri. Piracicaba deve se orgulhar de ter gestores que olham para as artes, não é algo que acontece em todas as cidades.

Quais foram os atores da iniciativa privada importantes neste processo?
Seria irresponsabilidade da nossa parte que o custeio da Orquestra ficasse apenas nas costas do poder público. O caminho tomado pelas grandes orquestras é a gestão mista, com a união das forças empresariais e órgãos públicos. Faço questão de nominar e agradecer a estes atores, verdadeiros protagonistas de um processo, que nos acompanham na Temporada 2019: Caterpillar, Comgás, Hyundai e Oji Papéis Especiais, via Lei de Incentivo à Cultura. São nossos anjos da guarda, sabem da importância da cultura para o desenvolvimento humano e acreditam no potencial transformador da OSP, por meio da música.

Em março, na abertura da Temporada 2019, a OSP divulgou dados positivos do projeto de reestruturação: pelo menos 70 mil pessoas nos concertos mensais (de 2015 a janeiro deste ano) e 21 mil crianças nos projetos didáticos. Podemos considerar o número alto?
Quando você começa um projeto, por mais que tenha em mente o seu caminho, não sabe como será a receptividade das pessoas. Portanto, consideramos esses números altos. Esses dados são a prova do quanto o público de Piracicaba ansiava por ter sua orquestra. Um conjunto sinfônico de tal qualidade que o piracicabano pudesse se orgulhar, como se orgulha da Esalq e do seu rio, e que também se apresentasse com regularidade, constituindo uma verdadeira temporada. O nosso trabalho é o de aproximar as pessoas das obras produzidas pelos grandes mestres. A partir desse contato, elas percebem que não se precisa “entender” de música para se gostar, ou até mesmo amar. O conhecimento virá com o tempo e o hábito.

A preocupação com a formação de plateia em música clássica vai além dos concertos e a maior prova são os projetos didáticos?
Primeiro criamos o Música nas Escolas, em 2015, com quartetos de corda, metal e madeira percorrendo as unidades de ensino municipais. O ABC do Dó, Ré, Mi veio no ano seguinte, para que as crianças conhecessem o funcionamento da orquestra de uma forma descontraída, nos chamados “showcertos”. Mais recentemente, criamos o projeto Pequena Grande Orquestra, a partir do sonho de ensinar música clássica às crianças. Começamos em uma escola no Mário Dedini, no final de 2017, e este ano conseguimos ampliar de 20 para 72 o número de violinos, com as aulas também no Jardim São Paulo.

Sobre a alta procura pelos ingressos para os concertos, o senhor avalia que ela ocorre em função da gratuidade?
É um dos fatores, porém, não é o único e, tão menos, o determinante. Nos dias atuais, com o tempo escasso, ninguém sai de casa para assistir algo de baixa qualidade. Uma apresentação, seja ela de música, dança ou teatro, até pode ser gratuita, mas o público rapidamente percebe se é boa ou ruim. Nossa preocupação sempre foi a de tornar a música acessível a todos os públicos. Uma orquestra sinfônica é o centro da vida musical da comunidade em que está inserida. Sua força, como meio de expressão, é enorme. E sua capacidade de mobilização também.

Tecnicamente, como o senhor avalia a qualidade da OSP?
Não gosto de autoelogios, por isso vou recorrer a um pensamento difundido pelo André Micheletti, diretor artístico associado da OSP. O Micheletti é um educador por excelência, é professor da USP de Ribeirão Preto, e sempre diz que poucas orquestras no mundo possuem uma identidade sonora própria, que a OSP se estabelece neste rol. Devemos lembrar que são cinco anos de trabalho, é pouco quando se fala em maturidade musical, e é muito se avaliar aonde chegamos. A OSP é uma senhora que, no auge do seu aniversário de 115 anos, em 2015, teve a chance de se renovar! Agora, depois de cinco anos, já saiu das fraudas, já engatinhou e se tornou querida das pessoas, motivo da nossa maior felicidade.

Como esse sucesso foi alcançado?
Voltamos ao ano de 2015, quando iniciamos o processo seletivo para os músicos. Ali veio a primeira surpresa: 320 instrumentistas inscritos, de seis estados brasileiros, para um número reduzido de vagas. A isso devem ser somados a escolha de repertório, a disposição dos músicos (fixos e dos solistas convidados) em darem o seu melhor pela orquestra. Há também a equipe técnica da OSP, composta por sete profissionais de áreas diferentes, e que todos os meses faz o trabalho permanente nos bastidores, quase nunca visível aos olhos do grande público.

Para que a qualidade seja alcançada, é preciso rigor nos ensaios?
Há orquestras que ensaiam o mês inteiro para uma única apresentação. Na OSP é diferente. Temos muitos músicos de Piracicaba, da capital e do interior: Ribeirão Preto, Indaiatuba, Campinas, Santa Bárbara d’Oeste, Americana, Sumaré, Hortolândia, Avaré, Tatuí, Jaguariúna, entre outras cidades. Nossos ensaios acontecem de quarta-feira a sexta-feira, das 14h30 às 17h30, uma vez por mês. No sábado os ensaios vespertinos se tornaram abertos, para atender uma demanda do público. Logo, todos os músicos têm que dar o melhor de si quando estão em Piracicaba, para apresentar um concerto agradável. São 60 músicos no palco, que precisam estar em sintonia.

A ida da OSP para o Teatro Municipal Dr. Losso Netto, ocorrida em março deste ano, foi positiva?
Quando a reestruturação da orquestra começou, em 2015, o Teatro Dr. Losso estava fechado para reforma, então, durante quatro anos, nos apresentamos no Teatro Erotides de Campos. Embora com ótima acústica, a limitação de espaço nos fez abrir a sessão vespertina. No Engenho, em média, tínhamos 600 pessoas nas duas sessões. Pelos nossos cálculos, uma única sessão no Losso Netto seria suficiente, porque este teatro tem 600 lugares. Só que os ingressos acabaram em apenas 40 minutos na internet e ficamos de cabelos em pé!

É neste momento que a demanda do público prevaleceu?
Abrir a sessão extra no Teatro Dr. Losso Netto não estava nos planos. Fizemos uma reunião com a SemacTur e a direção do Teatro Dr. Losso Netto, verificamos as possibilidades com os músicos. Abrimos a sessão extra, sem saber como seria. Novamente ficamos surpresos, pois os ingressos para os concertos estão se esgotando na primeira hora de retirada pela internet. Pretendemos manter as duas sessões, exceto quando a OSP receber convites para concertos externos. Este mês, por exemplo, os músicos precisam acordar cedo para a apresentação na Sala São Paulo. Em julho, estaremos no Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão. Logo, são duas ocasiões em que faremos apenas uma apresentação em Piracicaba.

Como surgiram os convites para as apresentações da OSP fora de Piracicaba?
No caso da Sala São Paulo e do Festival de Campos, os primeiros convites da Fundação Osesp vieram em 2016. Era a prova de que, em apenas um ano, o trabalho feito na OSP já repercutia além do interior paulista. Em Campos do Jordão nos apresentamos três vezes, estamos indo para a quarta vez em julho. Na Sala São Paulo, embora mantidos os convites, não conseguimos recursos em 2017 e 2018. É muito importante que o trabalho produzido em Piracicaba ecoe fora do seu território, pois a descentralização da cultura é uma realidade dos tempos atuais.

Sobre a busca por recursos privados, o cenário econômico marcado por adversidades atrapalha?
As dificuldades para manter uma orquestra com 60 músicos são muitas, porém é preciso arregaçar as mangas, do contrário ficamos presos no campo das lamentações. Obviamente, com mais patrocínio, poderíamos convidar mais solistas para os concertos, ampliar o número de instrumentistas, chegar a mais crianças, comprar alguns itens para o acervo da OSP e realizar mais concertos. Reconhecemos que o cenário econômico é marcado por incertezas tanto na economia quanto na política, mas a semente da OSP já estava lançada, era preciso cultivá-la, para que os bons frutos crescessem nesse solo fértil chamado Piracicaba, que sempre preservou a cultura musical.

Diante de tanto trabalho, duas orquestras para conduzir, a apresentação semanal de um programa na Rádio Cultura e as constantes viagens no fluxo São Paulo-Piracicaba, o maestro não se cansa?
Apesar da passagem dos anos, e longe de me dar por satisfeito pela estrada percorrida, carrego uma “inquietação no DNA”, que não conhece descanso e que, talvez, possa ser melhor descrita como um “estado de constante ebulição”.