Mais de 68 mil piracicabanos encerram 2020 com o ‘nome sujo’

Número representa 16,7% da população e quantidade de CPF negativado é 14,9% maior que em 2019. (Foto: Amanda Vieira/JP)

O número de piracicabanos com dívidas atrasadas e CPF negativado aumentou 14,9% no ano passado, de acordo com dados do SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito) da Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba). O total saltou de 59.425 em 2019 para 68.285 em 2020. A soma representa 16,7% da população do município, que tem 407.252 mil habitantes.

“É um aumento considerável se levado em conta que no mesmo período houve queda no consumo”, afirma o presidente da Acipi, Luiz Carlos Furtuoso. De acordo com ele, é comum o número de inadimplentes aumentar de um ano para o outro, mas não da maneira como aconteceu em 2020. “Esse crescimento é reflexo da pandemia. O grande impacto foi a paralisação das atividades. Muitas pessoas perderam o emprego ou tiveram a renda reduzida”.

É o caso da vendedora Beatriz (nome fictício a pedido da entrevistada), 28 anos. Ela viu as contas do cartão de crédito fugirem do controle, chegando a R$ 1,5 mil, após perder o emprego em junho do ano passado. “As lojas fecharam e meus antigos patrões não conseguiram manter a equipe. Usei o dinheiro da rescisão para quitar as contas básicas, comprar alimentos e as dívidas foram ficando juros sobre juros, virou uma bola de neve”, afirma.

Pesquisa feita pela CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) em parceria com o SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) Brasil revela que 48% dos brasileiros não possuem controle sobre o próprio orçamento, enquanto os 52% restantes analisam de forma pouco efetiva as entradas e as saídas de dinheiro.

“Os gastos que a maioria analisa são as grandes contas, como despesas com moradia e mercado, dando menos atenção aos valores com cartão de crédito e crediário, que gera multas e juros”, pontua Bruno Pissinato, professor de Economia da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba). Ele ressalta ainda que o mesmo comportamento é identificado com gastos de transporte, beleza e alimentação fora de casa, entre outros.

“O pouco ensejo em investimentos para manter o valor do patrimônio também é latente. Portanto, há um problema estrutural de educação financeira que precede”.

O professor afirma que a pandemia agravou a situação econômica já sensível desde 2014. “Um dos principais efeitos associados é o desemprego, provocando choque na renda da população e no cumprimento de obrigações financeiras”, destaca.

Em Piracicaba, de acordo com Pissinato, o saldo entre admissões e desligamentos em 2020 foi de 2.428 pessoas desempregadas. “É um número abaixo do aumento de negativados em 2020 [8.860 pessoas a mais do que em 2019]. Porém, durante o ano, muitas pessoas perderam o trabalho e acabaram sendo recontratadas, sugerindo que podem estar empregadas em novos postos, com menor salário inicial”, explica.

Até março de 2020, uma pesquisa realizada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) mostrou que quase 70% das famílias brasileiras possuíam dívidas, principalmente no cartão de crédito, carnês e veículos. “Não são contas de primeira necessidade. Este endividamento acabou por se tornar inadimplência durante os efeitos da pandemia no decorrer do ano”, afirma o professor.

Educação financeira – De acordo com o docente da Unimep, a diminuição do consumo não significa necessariamente que haverá sobra de renda e muito menos que a pessoa planejou essa situação como resultado de educação financeira.

“As limitações de circulação, assim como o temor com relação à Covid-19 e à instabilidade econômica, acabaram por diminuir os gastos. Isto não significa que o orçamento familiar estava ‘em ordem’ na época, indicando a representatividade de dívidas contraídas em períodos anteriores”, afirma.

Na avaliação do presidente da Acipi, a chegada da vacina traz um sentimento de esperança, mas vislumbrar o futuro só será possível quando o comércio voltar a funcionar normalmente. “Essa história de abre e fecha impacta demais nas atividades econômicas”.

Ana Carolina Leal
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