Foto: Claudinho Coradini/JP.

Marcelo Oliveira tem a polícia na veia, 24 horas por dia, sete dias da semana. Até mesmo em seus momentos de folga, se necessário deixa as horas de sono para embarcar em uma investigação. Se for relacionada ao tráfico de drogas, aí a situação gama emoção. Sua paixão pela instituição que escolheu para seguir, a Polícia Civil teve a influência de seu pai, que ainda está em atuação na cidade e em vários situações, os dois se juntam ao efetivo da região para participarem de uma grande operação. Atualmente, exerce a função de agente policial e está na linha de frente da antiga Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes, que foi incorporada à recém-criada Deic (Divisão Especializada de Investigações Criminais), do Deinter-9 (Departamento de Polícia Judiciária do Interior), que tem atuação em 52 cidades da região de Piracicaba.

O assunto “segurança” também é discutido em casa, pois além de ser filho de um policial civil, namorada uma policial militar da cidade, cujo pai também foi PM.


Marcelo também foi idealizador da aquisição, sem custo algum para a instituição, do pastor belga de malinois Eagle, que significa “Águia” em inglês, é considerada como principal símbolo das Dises.

Conheça um pouco mais sobre a vida pessoal e carreira do policial, que desafia e perigo e une forças no combate à criminalidade no Persona deste domingo:

Qual é a importância da família para você?

A família é o pilar de tudo. É a base do amor, da educação, da harmonia, da vida como um todo.

Qual é a sua identidade com Piracicaba?

Amo essa cidade e dificilmente sairia daqui. Já tive uma ótima oportunidade para deixar Piracicaba e na realizada até o país, mas as raízes aqui criadas falaram mais alto e me fizeram desistir. Inclusive algo que preocupava muito durante minha formação na Academia de Polícia, era justamente se eu conseguiria pegar a única vaga em Piracicaba, das 491 previstas no estado. Isso me motivou a dar meu melhor durante o curso de formação e graças a Deus consegui vir direto para cá exercer minhas funções.

Qual é a sua formação?

Sou bacharel em Direito pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba). Minha formatura foi em dezembro de 2009.

Por que decidiu ser policial civil?

Teve influência do seu pai? Meu pai ingressou na Polícia Civil em 1994, quando eu tinha 8 anos de idade. Desde então passei a dizer que também seria policial civil. Desde pequeno foi meu sonho e, com certeza, fui influenciado pelo meu pai, o qual sempre me espelhei. Todos os meus carrinhos eram viaturas policiais. Meus brinquedos preferidos, armas de pressão, bolinha, algemas. Na minha infância se tinha um lugar que me agradava, era ir até a delegacia e por ali permanecer.

Ser policial está no sangue, afinal é filho de policial civil e namora uma policial militar. Vocês discutem sobre segurança em casa?

Sim. Acaba sendo inevitável não tocarmos no assunto “polícia” em casa, até porque essa profissão é um vício. Acordamos polícia, respiramos polícia, vivemos polícia e dormimos polícia. E cada vez queremos mais. Meu pai é policial civil, minha namorada e sogro policiais militares. Então sempre acabamos conversando sobre ocorrências, ouvimos casos mais antigos e tentamos absorver um pouco da experiência deles – meu pai com 26 anos de polícia e meu sogro já aposentado, que serviu durante 30 anos.

Onde você começou seu trabalho?

Comecei minha vida profissional fazendo estágio na Câmara de Vereadores local, durante três anos. Logo após terminar o contrato, fui aprovado em um concurso da Prefeitura Municipal de Piracicaba, passando a exercer o cargo de Escriturário na Secretaria Municipal de Trabalho e Renda, quando então pedi exoneração do cargo, logo após ser aprovado em primeiro lugar no concurso para Guarda Civil de Piracicaba em 2012, onde fiquei por cerca de um ano. No final de 2013, pedi exoneração da Guarda Civil após ter sido aprovado no concurso para Agente Policial, na Polícia Civil do Estado de São Paulo, passando a nela exercer minhas funções em 2014, concretizando então meu sonho de infância. Atualmente me sinto realizado profissionalmente, fazendo aquilo que amo e daqui só saio quando aposentar ou, por uma infelicidade, morrer.

Quais delegacias já trabalhou?
Após nomeado, empossado e formado Agente Policial da Polícia Civil do Estado de São Paulo, iniciei meu trabalho investigativo no 1º Distrito Policial de Piracicaba. Em menos de seis meses, fui transferido para uma delegacia especializada – DIG (Delegacia de Investigações Gerais) integrando a equipe de investigação de furto e roubos de veículos. Após um ano e meio fui transferido para unidade especializada – Dise (Delegacia de Investigação Sobre Entorpecentes), popularmente conhecida como “Narcóticos” na qual estou há quase quatro anos.

Como começou seu trabalho na Dise?

Quando estava na DIG, ainda que no setor de furto e roubo de veículos, realizava inúmeros flagrantes de tráfico mensalmente, até por gostar dessa área investigativa de combate ao tráfico e ter facilidade de desenvolvê-la. Por esse motivo, o Delegado Titular das duas unidades (DIG/Dise) me convidou para ir para Dise, tendo eu aceitado.

Quais foram as principais ocorrências que já participou?

Já participei de inúmeras ocorrências, muitas mesmo. Mas é claro que algumas delas acabam marcando. Creio que a mais emocionante para mim, foi quando eu e outros vários policiais civis, prendemos dois sequestradores em Campinas e então estouramos o cativeiro, libertando a vítima – um idoso de mais de 70 anos, que permaneceu por 62 dias acorrentado pelos pés em um quarto escuro, em um imóvel na área rural de Jaguariúna. Segundo ele nos relatou, muitas vezes acabava urinando nas calças, mal se alimentava e tomava banho e vivia com a angústia do silencio, solidão e escuridão. Quando arrebentamos a porta do quarto que ele estava acorrentado e ele viu a equipe toda de preto, empunhando armas e ostentado “Polícia” nos coletes, ele nos disse “eu sabia que vocês viriam meu buscar”. Na hora, chega dar um nó na garganta. Outros muitos casos acabam marcando, principalmente quando envolvem abuso infantil, homicídios com requintes de crueldade extrema ou qualquer outro ato covarde contra pessoas ou animais inferiormente capazes de se defenderem.

Qual a situação do tráfico de drogas em Piracicaba?

Como qualquer outra cidade, Piracicaba não está fora da lista no quesito tráfico. Infelizmente as drogas estão em todos os lugares – nas comunidades, nos condomínios e bairros nobres, nas esquinas, nas escolas, nos pancadões e funk de rua, nas festas da elite. Por esse motivo, diariamente combatemos esse mal que assola a sociedade e acabar sendo causador de outros tipos de crimes como roubos, furtos e até homicídios. Há menos de um mês, depois de árdua investigação, conseguimos interceptar um veículo na entrada da cidade com 931 tijolos de maconha vindas da divisa do Paraguai, para abastecer o tráfico local. Além de dois presos, o tráfico teve um prejuízo de mais de 1 milhão de reais. Só assim conseguimos atingi-los duramente, dando altos prejuízos. Por ser uma delegacia especializada, nosso trabalho é buscar atingir a raiz do problema, identificar os grandes traficantes, os proprietários dos pontos de vendas e locais de armazenamento de grandes quantias de drogas e não focar apenas nos “vapores” que ficam com poucas porções vendendo no ponto, pois estes mal são presos e outros já assumem seu lugar.

Acha importante o trabalho com outras forças de segurança?

Com certeza a integração das forças é muito importante e sempre deu resultados positivos. A Polícia Civil por sua essência é uma polícia judiciária. Ou seja, é uma polícia que atua através de inteligência policial e investigação, buscando esclarecer crimes já ocorridos e materializar provas para que o Poder Judiciário possa condenar o(s) autor(es). Outro trabalho da Polícia Civil é justamente na área da chamada inteligência policial, cujo objetivo é monitorar ladrões, traficantes e organizações criminosas, para antecipar eventuais ações criminosas destas. Já a Polícia Militar e a Guarda Civil são forças que atuam de maneira ostensiva e preventiva, ou seja, realizam patrulhamento diário nas ruas visando evitar que crimes ocorram, bem como prestam atendimento a ocorrências em andamento. Quando essas forças de segurança atuam juntas, consequentemente o crime leva um prejuízo muito maior.

Como surgiu a ideia do Eagle, quais foram as principais ocorrências que ele participou?
Nosso trabalho na Dise é identificar traficantes e locais de armazenamento de drogas. Porém o tráfico também se atualizada e cada mais inova nos esconderijos de drogas, dificultando o encontro destes. A Dise vinha atuando em parceria com o extinto Canil do 10º BPM (PM) e durante quase dois anos foram muitas ocorrências em que os cães localizaram drogas enterradas, em fundos falsos, painéis de veículos e outros inúmeros locais inusitados e de difícil localização. O cão procura das drogas com o focinho, devido ao seu faro extremamente apurado, ao contrário do ser humano que procura com os olhos e consequentemente só localiza aqui que consegue ver. Se a droga esta muito bem escondida, acaba passando despercebida pelo policial, porém não pelo cão. O trabalho que o cão faz em 10 minutos em uma residência, 10 homens não fazem em uma hora com a mesma excelência.
Diante dessa necessidade, resolvemos ter nosso próprio cão de faro e então adotamos um filhote de Pastor de Malinois, o batizamos de “Eagle” (águia em inglês, já que a ave é o símbolo oficial da Dise) e há um ano e três meses estamos custeando todos os gastos com adestramento e manutenção dele, fazendo vaquinha entre os policiais e com auxílio de empresas e pessoas que abraçaram a causa. Como a Polícia Civil não possui um Setor de Operações com Cães instituído, não existe verba prevista para tal. Portanto importante reforças aqui que o Eagle é um projeto particular, cujo qual assumimos todos os gastos e responsabilidades de cuidados, não havendo nenhuma onerosidade ao Estado de 10 centavos sequer.

Como você tem trabalhado neste período de quarentena? Acha que os policiais estão mais expostos à covid-19?
Nossa profissão nos expõe a riscos diários e nesse atual cenário de pandemia não poderia ser diferente. Somos considerados serviços essenciais e não podemos de forma alguma parar. Portanto, continuamos exercendo nossas funções normalmente, atentando aos cuidados e determinações legais como uso de máscaras e álcool gel constantemente.

Que tipo de treinamento um policial da Dise precisa? Faz artes marciais?

Ao meu ver, o policial não pode ficar esperando acontecer algo para depois se preparar. Ele precisa se preocupar com seu condicionamento físico, técnicas operacionais e defesa pessoal. A Polícia Civil oferece constantemente cursos de aperfeiçoamento de tiro (pistola, calibre 12, submetralhadora e fuzil), investigação/inteligência policial, entradas táticas, abordagem, entre outros vários. Os policiais da nossa unidade vem se reunindo a cada quinze dias com policiais de outras unidades como DIG, GOE, UIP e também policiais civis da sub-região (Rio das Pedras, Saltinho, Capivari, etc) para trocar informações e aperfeiçoar técnicas, realizando tais treinamentos e encontros por conta própria. Treino Jiu-Jítsu há 16 anos, tendo parado uma época devido a faculdade e posteriormente para estudar para concurso. Por quase 2 anos treinei boxe e muay-thai também, mas precisei parar devido a correria do trabalho e falta de tempo.

O que faz em seus momentos de folga?

Respiro polícia 24 horas por dia e nos poucos momentos de folga vou aos treinos de Jiu-Jítsu, musculação, praticar tiro e pescar. Sou muito caseiro e reservado. Nunca gostei de balada, agitação, locais com aglomeração de pessoas. Outra coisa que gosto muito é fazer churrasco com os amigos.

Cristiani Azanha

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