Marly Perecin: a nossa dama da história!

Foto: Alessandro Maschio/JP

Marly Therezinha Germano Perecin é um patrimônio de Piracicaba por ser referência como historiadora nos seus livros bem amarrados sobre a região. Mulher forte, divertida e apaixonada pela cidade. Nenhuma escolha poderia ser melhor do que Marly para estar como entrevistada nas páginas da edição comemorativa dos 254 anos de Piracicaba. Imparável, ela continua a escrever, e quer escrever mais. Dona de cadeiras de Academias de Letras, ela não gosta de ‘lantejoulas’. Não lista seus livros nesta entrevista e prefere ser lembrada como professora. Como professora, ela profetiza por uma Piracicaba que cuide do seu rio – e também sobre os rumos da história brasileira e mundial – nesta entrevista deliciosa de ler.

Realizou os estudos no primário e no secundário em Piracicaba, concluindo o Magistério na Escola Sud Mennucci e o curso Científico (ensino médio) no Colégio Piracicabano. Cursou a Faculdade de História na Universidade Católica de Campinas (PUCC), o mestrado na Universidade Católica de São Paulo (PUSP) e o doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Tem muitos trabalhos publicados, monografias e teses. Ministrou inúmeras palestras, escreveu para jornais, inclusive no Jornal de Piracicaba. “Não penso em parar. O que mais gosto de contar é que tenho dois ótimos filhos, duas noras lindas e cinco netos que adoro.”

Como historiadora, a sra. contou sobre o Matadouro e a movimentação política e social sobre o abate de carnes para consumo. Também tratou sobre a implantação da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) entre os séculos 19 e 20. O que foi mais complicado nestes dois resgates históricos?

O trabalho sobre o Matadouro foi o mais complicado. Passei três meses no subsolo da Câmara Municipal abrindo pacotes de documentos embolorados. Encontrei muito além do que buscava, motivo pelo qual a pesquisa resultou em “A Síntese Urbana”. Já a tese de doutorado sobre a introdução do ensino técnico de segundo grau na Agricultura, demorou mais tempo e cuidados, porém foi mais fácil de produzir. A evolução da Escola Agrícola Prática de Piracicaba, durante três décadas, me motivou ao título “Os Passos do Saber”.

O que mudou no Vale Médio do Tietê e do Oeste Paulista, pautas e pontos geográficos sempre muito presentes nos seus escritos?
O Oeste Paulista é continuação do Vale Médio do Tietê, ambos são configurados na geografia do interior paulista. O Vale tem prioridade no processo civilizatório, porque ali se desenvolveram as antigas comunidades, a partir do século 17. Ali se localizou o grande núcleo povoador das fronteiras abertas do Oeste Paulista e do qual se originaram inúmeras cidades, inclusive Piracicaba. Itu, a capital histórica do Vale Médio é a cidade mãe de Piracicaba. Saber o que mudou nessa vasta região? Ali nasceram os movimentos liberais reformistas, desde a Independência até a República, os grandes centros de Saber, a industrialização, os conglomerados urbanos e as áreas metropolitanas, o desenvolvimento cultural e a potência paulista que hoje conhecemos.

Como escreveria ‘A Síntese Urbana’ nos tempos atuais? Hoje é mais fácil levantar informações do que no passado nem tão remoto – digo isso pelo avanço da comunicação, como internet e smartphone?
Hoje, os arquivos estabelecidos em base científica facilitam a pesquisa e disponibilizam material via Internet, fazendo render a busca da matéria prima, abreviando o tempo da heurística. Porém, a metodologia do trabalho científico exige muito mais, teoria e prática que se consumam na construção da narrativa, seja oral ou escrita. Escreveria A Síntese Urbana dentro dos mesmos princípios acadêmicos, talvez acrescentasse algumas referências a mais sobre a cultura política da época.

O que ainda não escreveu e gostaria de escrever? E sobre o que tem escrito ultimamente?
Nesta pandemia, pensei muito e escrevi menos do que gostaria. Mas, tenho concluído um trabalho inédito, “As Luzes do Vale” (Cultura e Civilização no Oeste Paulista) e, presentemente, redijo outra monografia, abrangendo o processo histórico que culminou na ereção da Vila Piracicabana em 1822, eufemisticamente batizada de Vila Nova da Constituição. O que falta? Outro romance histórico, para completar o ciclo compreendido entre a Revolução Liberal de 1842 (ou a Guerra do Açúcar) e a morte de Prudente de Moraes, em 1902.

Qual o significado de ocupar uma cadeira na Academia Piracicabana de Letras?
É tão importante participar da Academia Piracicabana de Letras quanto participar da Academia Ituana de Letras (Acadil), ou do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba (IHGP) ou de São Paulo. Todas essas instituições são espaços de saber e sociabilidade. A sua produção cultural é motivadora para as futuras gerações.

A sra. disse, há algum tempo, que “Piracicaba é onde quero viver e morrer”. Está contente ainda hoje pela sua escolha?
O meu amor por Piracicaba foi gestado ao longo da minha própria vida. Entre todos os primos da família Germano, há dois séculos nascida junto ao rio Piracicaba, fui a única a nascer fora, em Taquaritinga, onde os meus pais começaram carreira. Quando cheguei com quatro anos de idade a Piracicaba, ouvi do meu pai: – “filha, agora tiramos as rodinhas da mobília”. Imediatamente, entendi que chegava para sempre ficar, aqui guardaria os tesouros do meu coração e as luzes do saber, aqui nasceram os meus filhos e desenvolvi o meu trabalho, vivo feliz e desejo aqui morrer, não sem antes produzir um pouco mais.

Por que Piracicaba te inspirou? Ela ainda te inspira? Quais outras cidades e histórias também te inspiram?
Piracicaba me inspira pelo amor que me inspirou e me concedeu. Outras cidades? Itu e Roma.

E o que Piracicaba deve e pode melhorar enquanto evolução histórica?
Piracicaba não tem culpa da pouca atenção que os seus filhos dão a sua história. Vejo aí a razão de muitos dos seus males presentes. É uma pena. Para melhorar? Mais espaços de educação e sociabilidade ao saber.

A sra. apostava que Piracicaba poderia crescer em população e economicamente estando tão distantes de grandes centros como era o caso do protagonismo de Itu (SP) nos séculos passados? A que atribuiu este movimento por aqui?
Há três séculos, Piracicaba era só uma paragem no sertão, uma boca de sertão. Falharam dois projetos de povoação e desenvolvimento, com o sesmeiro Felipe Cardoso e com o povoador Antônio Corrêa Barbosa. Pela terceira vez, Piracicaba corria o risco de desaparecer, quando foi salva pelo Capitão-mor de Itu que atraiu proprietários rurais para essa parte da fronteira agrícola. Antes de terminar o século 18, já exportava a produção da sua agroindústria açucareira para o mercado internacional e assim foi durante todo o século 19. A Escola Politécnica modernizou as oficinas mecânicas em geral e a Escola Agrícola fez o mesmo na lavoura. Uma política inteligente multiplicou as escolas a partir do magistério instalado na Escola Normal (depois Sud Mennucci), a Dedini garantiu o surto usineiro e Piracicaba se tornou um polo de desenvolvimento na agroindústria. Não parou de crescer e diversificou a sua industrialização, passando a contar com seis Distritos industriais e uma população em constante crescimento. A que posso atribuir tamanho desenvolvimento? A aceleração das forças produtivas pelos seus homens empreendedores e de grande visão.

Pensando em deixar um aprendizado eternizado para o aniversário de Piracicaba, qual seria sua escolha para os piracicabanos?
Piracicaba nasceu das águas. Que os cidadãos conscientes lutem pelo seu rio moribundo, que lhe restituam a antiga pujança como prêmio às futuras gerações.

Qual sua análise atual da história do mundo e do nosso país? O que mais te incomoda? O que temos de melhor a oferecer enquanto humanidade?
O mundo passa por uma crise de reajustamento aos seus limites e verdadeiras dimensões, justamente quando a tecnologia passou a deslumbrar a humanidade. Tudo ficou muito perto, os governos se assustam com as contradições aparentes e ainda não aprenderam as regras básicas da convivência e dos mercados. Tudo vai se resolver… A História não tem pressa. O que mais me incomoda é a incompetência dos governos e a brutalidade com que tratam os povos menos desenvolvidos e as minorias étnicas. O que nós brasileiros temos a oferecer? A nossa paciência enquanto povo, por termos nos submetido ao colonialismo português e ao regime monárquico, sem perder a alegria, mesmo nos piores momentos de enfrentamento das crises da República. Não somos coitados, somos profissionais na categoria esperança com determinação e haveremos de superar os entraves.

Qual a passagem histórica é a mais feliz para a sra.? E mais triste?
A passagem histórica mais triste que vivi, aos seis anos de idade, foi assistir os meus pais chorando junto ao rádio, quando o Repórter Esso anunciava a entrada dos alemães nazistas em Paris. A mais feliz foi, justamente, quando acabou a 2ª grande Guerra Mundial. Ao lado dos meus pais, vi os piracicabanos comemorarem com euforia na praça José Bonifácio e nas ruas da cidade o fim daquela catástrofe. Um dos primos carregava bandeira, entre as dezenas de estandartes das nações aliadas que desfilaram nas ruas. Algum tempo depois, fui esperar a emocionante chegada dos pracinhas na Paulista e tive a oportunidade de falar com um deles.

Fale um pouco sua condição de mulher e historiadora. O que mudou para mulher profissional na sua área? O que mudou para mulher na história?
Sempre me dei bem com os estudos e tive como mestra, chamada de mãe, a professora Maria Celestina Teixeira Mendes Torres, discípula de Braudel na USP (Universidade de São Paulo), que me introduziu nos métodos da pesquisa. Com trabalho e determinação, tudo ficou mais fácil, nunca tive problemas quanto a aceitação do meu trabalho. Difícil foi conciliar o trabalho fora de casa com as atividades domésticas. Hoje, o curso superior da História proporciona oportunidades para outras carreiras e a profissão de historiador é reconhecida oficialmente. Qual a condição atual da Mulher na História? Bem, depende do contexto civilizatório. No ocidente já deixou de ser personagem de segunda categoria, ganhou personalidade, avança nos direitos sobre a sua própria pessoa e liberdade no coletivo. Mas tudo é questão cultural, no Brasil, o conservadorismo ainda freia e a violência machista mata.

O que falaria ou recomendaria a um estudante de história?
Ao jovem estudante de História: hoje estão abertas todas as oportunidades de conhecimento, especialização e carreira. Só posso aconselhar que aproveitem ao máximo as oportunidades.

Qual é a pergunta (e sua resposta), que nunca te fizeram?
Às vezes, fico pensando que, se me perguntassem como prefiro morrer, responderia de imediato: bem feliz!

Cristiane Bonin
[email protected]

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