Maioria dos surdos faz leitura labial para se comunicar com ouvintes. (Amanda Vieira/JP)

A contadora aposentada Maria Ângela Barbieri, 63, surda, tinha plena independência antes da pandemia. Mas com a necessidade do uso das máscaras contra o novo coronavírus, mais uma barreira foi colocada em sua comunicação. Como faz leitura labial e expressão facial, as máscaras de tecido têm dificultado suas atividades diárias e até a colocado em risco, uma vez que, às vezes, precisa pedir para a atendente da padaria abaixar a máscara para conseguir entender as informações.


Uma alternativa que Maria carrega na bolsa é a máscara com visor ou transparente para doar, mas conta que a população ainda não entendeu a importância do uso dessas máscaras por pessoas ouvintes (principalmente aquelas que têm contato com o público) para a comunidade surda. Ainda ninguém aceitou seu presente. Enquanto isso não acontece, Maria precisa da ajuda da nora, Adriana, que trabalha. “É só guardar essa máscara para último caso”, Maria comenta.

“Tem pessoa surda que se beneficia da leitura orofacial, porque o surdo não faz a leitura só dos lábios, ele faz dos lábios, do rosto, da face, da nossa expressão facial. Então toda pessoa ouvinte no contato com pessoa surda, se puder usar a máscara com transparência, só tem a contribuir com esse processo de inclusão em tempo de pandemia”, explica a fonoaudióloga e intérprete de Libras, Flávia Garcia, sócia do Cersurdo (Centro de Assistência de Referência à Surdez).

O Grupo Libras Piracicaba e Região, junto ao vereador Gilmar Rotta (CID), tem uma reunião com o secretário da Saúde, Pedro Mello, na terça-feira (28), para evidenciar a necessidade de que os órgãos públicos tenham a tradução em Libras e incentive os órgãos privados a fazerem o mesmo, além do uso da máscara transparente por, pelo menos, uma pessoa que atenda ao público.

“Nosso objetivo é contribuir para fazer chegar também, ao Executivo, propostas viáveis e que podem melhor integrar a comunidade surda na nossa sociedade”, diz Rotta.

Beatriz Turetta, coordenadora do Grupo, espera que o encontro tenha decisões concretas. “Em tempos de pandemia, esperamos que os órgãos públicos e privados se responsabilizem pelo atendimento de todas as pessoas, independente de suas características orgânicas”, comenta.

Thiago e Maria evidenciam a importância das pessoas ouvintes usarem máscara com transparência para se comunicar com pessoas surdas. (Foto: Amanda Vieira/JP)

Um dos líderes do Grupo, Thiago Pereira da Silva, também teve sua independência reduzida com a máscara de tecido. Mesmo usando Libras, ele precisa da leitura labial e da expressão. “Quando todas as pessoas começaram a usar as máscaras, minhas possibilidades de comunicação ficaram reduzidas. Eu ficava preocupado porque não entendia o que o chefe queria”, comenta. Mas, pelo menos na empresa em que trabalha, isso foi superado. “Agora com as máscaras transparentes eu consigo entender melhor o que as pessoas estão falando”, enfatiza. A empresa distribuiu essas máscaras para os funcionários.

PARA ADQUIRIR
O uso da máscara com transparência por pessoas ouvintes é um gesto de olhar para o próximo, por isso algumas iniciativas produzem essas máscaras e até as doam, como a On Aparelhos Auditivos, que realiza companha de troca de um produto de higiene pessoal por uma máscara. Basta enviar o nome para o WhatsApp (19) 99644-6151. Os produtos serão doados para o Lar Betel.


A artesã Pollyana Souto, de Piracicaba, vende máscara com visor (de R$7 a R$15) e transparente (R$5). Os pedidos podem ser feitos pelo WhatsApp (19) 99742-7173 ou pelas redes sociais do ateliê Laço Felice.

Em Santa Bárbara D’Oeste, a costureira Fabiana Queiroz também vende máscara com visor (R$14,90) e entrega para a região. Os pedidos podem ser feitos pelo WhatsApp (19) 99155-4840.

Andressa Mota

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