Maurício Arantes Romero Gonçalves: Acredita e trabalha para ressocializar quem já errou e quer construir um novo futuro

Aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra”, cita Jesus Cristo, em passagem bíblica em que Jesus Cristo. Esse é o lema usado por Maurício Arantes Romero Gonçalves, que trabalha há 22 anos na SAP (Secretaria da Administração Penitenciária) e atualmente é o diretor do CDP (Centro de Detenção) Nelson Furlan, em Piracicaba. Em sua unidade há a preocupação com a disciplina, mas também oferece a oportunidade de ressocialização para aqueles que já erraram, mas pretendem construir um futuro perto da família e longe das grades.

Maurício, como é conhecido, considera que por meio da educação e trabalho é possível recomeçar, nem sempre é fácil, mas sempre é possível. Filho de advogado e diretora de escola, o diretor acredita que as pessoas devem cumprir suas dívidas com a sociedade, dando uma segunda chance e se afastar de alguns jargões ou frases de efeito que não acrescenta em nada. Atualmente, ele atua em uma importante missão. Deixar a covid-19 longe das muralhas. Preservado seus funcionários, população carcerária e comunidade. Confira a entrevista do diretor do CDP no Persona deste domingo.

Qual é a influência da família para o Sr?

Os meus pais foram meu chão, minhas raízes, meu norte. A quem devo tudo o que me tornei. O meu pai foi advogado, sendo um dos interlocutores para a criação da subsessão da OAB/SP, de sua cidade. Foi seu primeiro presidente, da cidade do interior paulista onde morávamos. Minha mãe era pedagoga, professora e foi diretora de escola pública. Foi uma profissional dedicada e muito humana, os quais nos deixaram muito cedo, mas guardo comigo a certeza que cumpriram as suas missões. A família para mim é algo sagrado, uma bênção na minha vida, um adiantamento que Deus. Sou casado e pai. Em casa busco ser o mais presente possível e participar de todos os eventos e prezo pelo bom convívio do círculo de amizade que conquistamos por aqui, digo que os amigos são parte da família que escolhemos conviver. A família nos dá o maior sentido à vida.

Começou a trabalhar desde cedo?

Meu primeiro emprego foi com 17 anos, numa clínica odontológica, auxiliava o casal de dentistas. Depois consegui uma vaga num escritório de advocacia, onde trabalhei até os meus 19 anos, quando foi aprovado no concurso público e ingressei na SAP. Sou muito grato a todos eles pela oportunidade e por acreditarem no meu trabalho. Naquela época, a maioria das pessoas que prestavam o concurso para os presídios eram pessoas com mais idade, tinham família constituída, poucos da minha idade ou solteiros faziam esse concurso, tinham receio, pois o ambiente de trabalho prisional sempre assustou muito as pessoas. Atualmente, esse contexto mudou bastante, com o tempo as ações e boas práticas desenvolvidas nas Unidades Prisionais foram sendo divulgadas.

Qual é a sua formação?

Sou graduado em direito, pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e pós-graduado em Ciências Criminais e Magistério Superior, pelo Instituto de Ensino Luis Flávio Gomes. Fui professor, admitido em processo seletivo pela Escola da Administração Penitenciária, ministrando aulas de 2005 à 2013, nos cursos de formação de Agentes e Cursos preparatórios para Diretores.

Exerceu várias atividades em sua carreira?
Durante esses 22 anos de profissão, tive a oportunidade de trabalhar em diversas áreas que compõem uma Unidade Prisional, Penitenciária de Valparaíso, Penitenciária 2 de Lavínia, tive a oportunidade de trabalhar junto a Coordenadoria de Unidades Prisionais da Região Central do Estado, órgão da Secretaria da Administração que coordena os trabalhos das unidades prisionais a ela vinculada, CR (Centro de Ressocialização) de Sumaré e finalmente a diretoria do CD de Piracicaba. Toda essa passagem por unidades prisionais de diferentes regimes de cumprimento de pena, como Penitenciárias (regime fechado – presos condenados), Centro de Ressocialização (regime semiaberto – presos condenados) e o Centro de Detenção Provisória (regime fechado – presos provisórios), me permitiu ampliar ainda mais a minha experiência e por gostar de novos desafios, além de ter a oportunidade de ficar mais perto e mais tempo com a minha família. Mas tudo isso só foi possível em razão dos meus diretores a quem fui subordinado no passado.

Quando assumiu seu trabalho no CDP de Piracicaba?
Estou como dirigente do CDP de Piracicaba desde setembro de 2015. Vejo a minha vinda para o CDP de Piracicaba, como uma oportunidade e reconhecimento de meus superiores, a quem sou muito grato pois levava uma vida sacrificada, passava muito tempo na estrada, sendo que antes trabalhava em Campinas, depois Sumaré, até vir para cá, sendo que minha família já se encontrava estabelecida em Piracicaba desde 2012, cidade que nos acolheu e adotamos como nossa cidade natal.

Qual a função do diretor do presídio?

O diretor do presídio tem como função gerenciar todas as áreas a ele subordinadas: segurança, saúde, jurídica, trabalho, educação, desenvolver e executar projetos e boa práticas, que visa a ressocialização do encarcerado. Importante ressaltar que ninguém constrói nada sozinho, por trás de todas as ações existe uma equipe, um corpo funcional honesto, humilde, dedicado, que trabalha arduamente para cumprir dignamente o seu mister, ao manter a custódia dos indivíduos presos provisoriamente, bem como promover a execução administrativa das penas privativas de liberdade, no caso do CDP os presos da ala de progressão do regime semiaberto, cominadas pela justiça e proporcionar condições necessárias de assistências e promoção ao preso, para sua reinserção social, preservando sua dignidade.

Quais as ações que vem executado para evitar a covid-19 dentro da unidade?

A unidade por meio de seu corpo diretivo e servidores vem se empenhando, diuturnamente, na adoção de medidas, seguindo todos os protocolos de segurança, higiene e saúde, em consonância as diretrizes emanadas pelas autoridades e órgãos de saúde do estado, para o enfrentamento a disseminação à covid-19. Estamos muito atentos e empenhados nessa atual situação que assola não só o Brasil como também atinge muitos outros países.

Quais projetos desenvolve dentro do CDP de Piracicaba?

No CDP de Piracicaba são desenvolvidos diversos projetos de educação, qualificação profissional e saúde, tais como: Lendo a Liberdade (educação) é uma projeto que busca propiciar novas experiências que levam ao aprimoramento intelectual, por meio da leitura pelos presos, os quais ao final de cada obra lida elaboram um trabalho, uma resenha do conteúdo extraído. Outro projeto é Cultivando Oportunidades (qualificação profissional) é um projeto em desenvolvimento em parceira com outra instituição Estadual que visa a criação de uma horta na unidade, onde serão desenvolvidas técnicas para o cultivo e pós-colheira de hortaliças, que servirá para a complementação das refeições de servidores e presos. Temos também Uma luz na Liberdade (qualificação profissional) é uma projeto em parceria com empresas de Piracicaba que oportuniza a criação de vagas de trabalho aos presos da pequena Ala de Progressão (regime semiaberto) para profissionalização e a recolocação no mercado de trabalho, viabilizando a reinserção social do condenado.

O que é o projeto Reconstruindo Sonhos? Faz parte da qualificação profissional, com um amplo projeto de qualificação profissional, por meio do qual serão oferecidos cursos básicos de pedreiro, barbeiro e informática (inclusão digital), por intermédio do Poder Judiciário e outras 16 instituições e colaboradores.

Como funciona o Projeto Escola Mais Bonita?

Também é uma qualificação profissional, pois é realizado por meio de parceria com outras secretarias estaduais por meio do qual ocorre a qualificação profissional de pintura, sendo beneficiadas Escolas Estaduais do Município de Piracicaba. Esse projeto já proporcionou a reforma e pintura de várias escolas estaduais do município pelos presos do regime semiaberto, durante as férias escolares.

Qual é a preocupação com a saúde na unidade?

Realizamos o Projeto DST (Saúde), que desenvolvido pela área da Saúde da Unidade, que em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde realiza testes rápidos em todos os presos que ingressem na Unidade, sendo possível saber se estão acometidos com doenças sexualmente transmissíveis como Sífilis, HIV, Hepatite B e C, logo que incluídos na Unidade. As doenças sexualmente transmissíveis (DST) têm se tornado cada vez mais um problema de saúde pública. Os testes já são realizados na entrada dos presos, somente depois da confirmação que sua saúde está em ordem é colocado em contato com os demais custodiados.

Qual a sua análise do jargão usado, principalmente por alguns políticos “bandido bom é bandido morto”?

Uma coisa que aprendi é não generalizar, devemos tomar cuidado com fetiches punitivistas, frases de efeito sendo certo e necessário que as punições/sanções devam coexistir a luz de um sistema de justiça criminal, onde são respeitadas todas as garantias. Nesse contexto, tenho que bom é aquele que reconhece seus erros, cumpre com os seus deveres e obrigações impostas pelas regras de execução penal, aproveita as oportunidades ofertadas para mudar o curso da sua própria história. Já aqueles que buscam o caminho contrário, sofrerão as consequências e rigores de seus atos à luz do que rege o sistema de justiça criminal do ordenamento pátrio.

Quais são seus planos na carreira?

Pretendo continuar estudando e aprimorando o meu conhecimento, e com a graça de DEUS continuar desempenhando meu trabalho junto a esta Unidade, desenvolvendo outros projetos, buscando inovações e melhorias, pois temos uma árdua e complexa missão.

Quais são suas atividades fora do trabalho?

Gosto de ler, levo uma vida saudável, sem vícios, cuido da alimentação, caminho e corro com frequência, e boa parte do tempo me dedico a minha família.

Cristiani Azanha
[email protected]

Foto: Claudinho Coradini/JP